| Autor(es): Carolina Mandl | De São Paulo |
| Valor Econômico - 05/04/2011 |
Ciro Matuo, analista de renda fixa privada do Itaú BBA, deixou o Brasil no mês passado rumo à Europa e aos Estados Unidos com uma missão educativa. A tarefa dele foi explicar a mais de 30 investidores o recente pacote do governo de medidas de incentivo às emissões de papéis de dívida corporativa de longo prazo, que inclui isenção de Imposto de Renda para aplicações de estrangeiros. Dos encontros quase professorais, Matuo não vai trouxe nenhum retorno financeiro imediato ao banco, já que os investidores estrangeiros ainda estão fazendo seus cálculos e conhecendo o perfil das empresas que mais emitem papéis de dívida no país. Mas o banco avalia que isso é uma questão de tempo. "Inevitavelmente, o mercado de renda fixa no Brasil vai crescer, não há dúvida. Isso vai acontecer", afirma Matuo. O Itaú BBA não é o único. Diversos outros bancos de investimentos, como BTG Pactual e Santander, estão fortalecendo suas áreas de renda fixa. Outras instituições que ainda não tinham participação nesse mercado decidiram montar suas equipes, como é o caso dos bancos Indusval e Fator. Daqui para a frente, esse é um movimento que tende a se intensificar cada vez mais nas instituições financeiras. O Banco Fator decidiu criar uma área de renda fixa para crédito privado dentro da Fator Corretora, replicando o modelo que já existe para renda variável. A estrutura inicial é de três analistas específicos para renda fixa, dois vendedores e dois traders. "Esse tende a ser um dos principais mercados, vai haver um boom", diz Richard Wahba, executivo que dirige a corretora. Ele reconhece, entretanto, que não é algo imediato. "Foi difícil tomar a decisão [de criar a área agora] porque não há volume de operações suficiente por enquanto." O banco investirá algo entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões para montar a área, incluindo a contratação de pessoal. "Acreditamos que levará de um a dois anos para a área começar a ser lucrativa." Para o executivo, o incentivo fiscal criado pelo governo no fim do ano foi uma sinalização importante, trazendo mais atrativos para investidores estrangeiros e pessoas físicas. No caso dos títulos públicos, aplicadores internacionais são responsáveis pelas compras de 11,4% dos papéis emitidos, que também são isentos de Imposto de Renda, de acordo com dados do Tesouro. Apesar de já ter uma área de análise de renda fixa desde 2007, no fim do ano passado, o BTG Pactual reforçou sua equipe de pesquisa com mais uma contratação. O grupo de três analistas emite relatórios parecidos com os emitidos pela área de renda variável, inclusive com relatórios que recomendam compra, venda ou manutenção dos títulos, como acontece no mundo das ações. "Mesmo que hoje o mercado secundário de debêntures não seja muito movimentado no Brasil, queremos deixar o banco preparado para o momento em que a liquidez passar a existir. Por isso fazemos a cobertura das debêntures", diz Alexandre Müller, analista do BTG Pactual. Atualmente, além das novas emissões feitas sob a coordenação do banco, a equipe cobre constantemente seis papéis. No ano passado, o Santander também decidiu destinar uma verba para comprar e vender debêntures, na expectativa de que isso fomente o mercado. "Se o investidor souber que tem como vender o papel caso precise, ele se dispõe mais a investir", diz Ignacio Lorenzo, chefe da área de distribuição de renda fixa do Santander. A perspectiva dos executivos dos bancos de investimento é que o crédito concedido com recursos das próprias instituições financeiras vai ceder lugar nos próximos anos ao mercado de capitais. Ou seja, em vez de pegar um empréstimo bancário, as empresas vão vender títulos de dívida para os investidores com o objetivo de se financiar. Hoje, mesmo nas emissões de debêntures, os bancos estão comprando cerca de metade do volume emitido pelas empresas, dada a alta liquidez que possuem. Segundo dados da Associação Brasileiras das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), no ano passado os bancos compraram R$ 20,7 bilhões dos papéis lançados pelas companhias. "Haverá uma desintermediação da economia no futuro", disse em entrevista recente ao Valor Jair Ribeiro, executivo que juntamente com o fundo de "private equity" Warburg Pincus comprou neste mês uma parcela do banco Indusval. O objetivo do aporte é, em um primeiro momento, fazer a carteira de crédito da instituição crescer. Mas, com o tempo, o banco quer estruturar papéis que financiem as empresas via mercado de capitais. "A ideia é desenvolver um mercado de papéis de "high yield", como existe no exterior. Não é para agora, mas temos de nos antecipar a esse movimento", diz Ribeiro, citando os títulos de crédito de risco mais elevado. Para Matuo, do Itaú BBA, o mercado de renda fixa privada brasileiro pode vir a se destacar no cenário externo. "A vantagem é que o país abriga grandes empresas dos mais diversos setores. Não há um tema único para se investir no Brasil", diz Matuo. (Colaborou Vanessa Adachi) |
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Bancos montam times de renda fixa
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