sábado, 9 de abril de 2011

BCE eleva juros pela 1ª vez desde a crise financeira

Autor(es): Brian Blackstone e David Wessel | The Wall Street Journal
Valor Econômico - 08/04/2011

O Banco Central Europeu (BCE) se tornou ontem a primeira autoridade monetária de uma economia desenvolvida a aumentar os juros desde a crise financeira mundial, num sinal de que o longo período de crédito extraordinariamente fácil está chegando ao fim.

Nos Estados Unidos, onde há menos preocupação com a inflação do que na Europa, o Federal Reserve, o banco central, não deve seguir o mesmo caminho pelo menos até o fim deste ano ou começo do próximo. É inusitado que o BCE aja antes do Fed. Nos dois ciclos anteriores de aperto monetário mundial desde que o BCE foi formado, 12 anos atrás - um no fim dos anos 90, outro no meio da década passada -, o Fed agiu primeiro.
Acredita-se que os bancos centrais do Reino Unido, do Canadá e da Austrália, que aumentaram os juros no ano passado, o façam de novo nos próximos meses. O Banco do Japão, preocupado com a devastação causada pelo terremoto e o desastre nuclear, não deve aumentar os juros. Há muito em jogo: alterar os juros na hora e quantidade certas vai ajudar a determinar se a recuperação da recessão vai ganhar força e se o mundo pode se esquivar de um surto indesejado de inflação.
Escaldados pela experiência dos últimos anos, os bancos centrais estão agindo com ainda mais delicadeza que o normal.
Por um lado, há o temor crescente de inflação, alimentado pela alta nos preços de alimentos, petróleo e outros produtos, e a noção de que sempre há inflação depois de períodos de forte endividamento governamental e de crédito fácil. Por outro lado, os bancos e tomadores de empréstimos de muitos lugares continuam frágeis e o crescimento continua lento demais para diminuir o desemprego, teimosamente alto.
Prometendo cortar a inflação ainda na raiz, o BCE aumentou os juros em um quarto de ponto porcentual, para 1,25%, embora os juros maiores aumentem ainda mais o custo da dívida para países como Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha.
Ao aumentar os juros no dia em que Portugal oficialmente se tornou o terceiro país europeu a pedir socorro a seus pares, Trichet deixou claro que o BCE está hesitando em manter os juros baixos só para ajudar as economias mais fracas. "É do interesse de todos os membro do mercado comum, com uma única moeda, que mantenhamos credibilidade máxima para ancorar as expectativas de inflação", disse ele.
O Banco da Inglaterra, que se reuniu no mesmo dia, decidiu não aumentar os juros, apesar da inflação bem acima de sua meta.
Já o Banco do Japão afrouxou ainda mais a política monetária oferecendo aos bancos 1 trilhão de ienes (US$ 12 bilhões) em empréstimos de um ano com juro praticamente zero - uma resposta ao dano econômico causado pelo terremoto -, mas não adotou a medida potencialmente mais poderosa de aumentar suas compras em títulos do governo japonês.
Nos Estados Unidos, o Fed está prestes a parar de injetar liquidez na economia e concluir seus planos de comprar US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro. Mas - apesar do nervosismo de alguns políticos - o presidente do Fed, Ben Bernanke, não deu sinais de que vai se apressar para aumentar os importantes juros de curto prazo, praticamente zero desde dezembro de 2008.
Com base nas negociações no mercado de futuros, os investidores esperam que o Fed só eleve os juros de curto prazo para 1,25% no fim de 2012.
Uma pesquisa do Wall Street Journal esta semana com 53 economistas que fazem previsões descobriu que em média todos esperam que o Fed aumente os juros em janeiro de 2012. Mas um terço dos entrevistados espera que ele faça isso já no fim do ano.
Para famílias e empresas, a divergência entre os vários bancos centrais é menos importante que as políticas de seus próprios bancos centrais. "A dúvida para Europa é a seguinte: será que o BCE está agindo apropriadamente para garantir inflação baixa e contínua ou está agindo prematuramente e arriscando afogar a recuperação nascente?", disse Kim Schoenholtz, economista da Escola de Administração Stern, da Universidade de Nova York.
A diferença é que as políticas monetárias refletem, em parte, as diferenças entre as maiores economias do mundo. Mesmo numa era de globalização crescente, a política monetária ainda é focada principalmente em condições nacionais ou regionais. A China teme a inflação; o Japão, a deflação. A inflação dos EUA está abaixo da meta do banco central; a do Brasil está acima.
E a inflação agora é uma ameaça mais evidente para a Europa que os EUA. "A Europa está muito mais próxima do pleno emprego do que nós porque o desemprego lá não subiu tanto (...) e a inflação deles é maior que a nossa", disse Edwin Truman, ex-diretor do Fed que hoje integra o centro de pesquisas Instituto Peterson de Economia Internacional, sediado em Washington.
Mas as políticas divergentes também refletem diferentes julgamentos dos banqueiros centrais sobre o risco de que o longo período de crédito fácil no mundo e o recente aumento nos preços de alimentos e combustíveis produzam inflação global ou bolhas de ativos.
A decisão do BCE não deve ter nenhum impacto significativo no cronograma do Fed para elevar os juros, decisão que depende bastante da saúde da recuperação econômica e das expectativas inflacionárias nos EUA.
Um motivo pelo qual o Fed está agindo mais lentamente que o BCE é que, pela maioria das estimativas, a economia americana tem mais capacidade ociosa que a europeia, e portanto pode crescer mais rapidamente antes de produzir inflação. O índice de preços ao consumidor nos EUA subiu 2,1% nos 12 meses encerrados em fevereiro; excluindo os setores voláteis de alimentos e combustíveis, a alta foi de 1,1%.

Brasil é um dos mais vulneráveis se Fed aumentar juros, diz FMI

Autor(es): Denise Chrispim Marin
O Estado de S. Paulo - 08/04/2011
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/4/8/brasil-e-um-dos-mais-vulneraveis-se-fed-aumentar-juros-diz-fmi
 

Em um ranking de 50 países, o Brasil figura no 7º lugar; na frente estão; Canadá, México, Uruguai, China, Coreia e Israel

O Brasil está entre os países mais vulneráveis a uma retirada mais forte de capitais no momento de elevação da taxa básica de juros nos Estados Unidos, concluiu o Fundo Monetário Internacional (FMI) na sua edição de 2011 do documento Perspectivas para a Economia Mundial, a ser divulgado na próxima semana.
No seu quarto capítulo, o texto adverte para a tendência de saída mais intensa de capitais das economias emergentes e também avançadas mais integradas ao mercado financeiro global, em especial dos EUA, e para as seguidoras da política de câmbio flutuante.
Quanto maior a vinculação financeira aos EUA, prevê o Fundo, maior será a fuga de capitais. Em um ranking de 50 países, o Brasil figura no sétimo lugar, no grupo de maior risco. À sua frente estão os sócios dos EUA no Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), Canadá e México, o Uruguai, a China, a Coreia do Sul e Israel. Em busca de socorro financeiro da União Europeia e, discretamente, do FMI, Portugal é o país menos vulnerável.
"O efeito adicional (de saída de capitais) é mais forte quando a elevação da taxa de juros americana é imprevista, e as condições mundiais de financiamento, mais favoráveis", informa o documento. "Esse efeito é maior para as economias emergentes mais integradas ao mercado financeiro global e para aquelas com regime de taxa de câmbio flexível. Porém, é menor para os emergentes com mercado financeiro doméstico mais bem alicerçado e com forte crescimento econômico", completa o estudo.
Fluxos de capital. Diante do ritmo baixo de expansão econômica, insuficiente para estimular uma queda acentuada na taxa de desemprego americana, de 8,8% em março, o Fed mantém uma taxa de juros básica ao redor de zero. Mas, há perspectiva de elevação a partir de 2012, quando se espera uma recuperação mais forte. A taxa de juros baixa e a decisão do Fed de emitir US$ 600 bilhões neste semestre são duas razões para a reorientação dos fluxos de capitais às economias emergentes, como o Brasil. Para esses países, as principais consequências têm sido a valorização das moedas - caso do real - e o preço mais alto de seus produtos no exterior.
O mesmo capítulo, entretanto, avalia o atual fluxo de capitais para os mercados emergentes como "mais voláteis e pouco resistentes" do que em 2008, no auge da crise financeira. Esses movimentos recuperaram-se "assombrosamente" de forma rápida desde setembro de 2008. Mas, insistiu o Fundo, não bateram recorde. Mesmo para regiões onde afluíram com vigor, como a América Latina, os fluxos de capitais nos últimos dois anos e meio são comparáveis aos da crise asiática e a de 2004.

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