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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Combate à coca na Colômbia muda o mapa do tráfico

Autor(es): John Lyons | The Wall Street Journal
Valor Econômico - 17/01/2012
 

Na poeirenta cidade de Villa Tunari, na região tropical de plantação de coca da Bolívia, os agricultores costumavam usar barricadas nas estradas contra a polícia antidrogas apoiada pelos Estados Unidos, enviada para impedir que sua safra de folhas se tornasse cocaína. Hoje em dia, a polícia se foi, a coca é abundante e os moradores fecham as estradas para dar grandes festas - não mais por causa da polícia.
"Hoje, nós não temos esses conflitos, nenhuma morte, nenhum ferido, nenhum preso", disse Leonilda Zurita, uma líder de longa data dos plantadores de coca e que agora é senadora boliviana, um dia depois do show que encerrou um festival regado a álcool no lugarejo.
Celebrações como essa só são possíveis devido a uma mudança fundamental no comércio da cocaína que está complicando os esforços dos EUA para combatê-lo. Antigamente concentrado na Colômbia, uma leal aliada americana no combate às drogas, o negócio da cocaína está migrando para países como Peru, Venezuela, Equador e Bolívia, onde líderes populistas ou são ambivalentes sobre cooperar com os esforços antidrogas dos EUA, ou são abertamente hostis a eles.
Desde 2000, o cultivo da folha de coca - a matéria-prima da cocaína - caiu 65% na Colômbia, para 57.000 hectares em 2010, de acordo com dados das Nações Unidas. No mesmo período, o cultivo subiu 40% no Peru, para 61.000 hectares, e mais que dobrou na Bolívia, para 31.000 hectares.
Mais importante, Bolívia e Peru estão agora produzindo cocaína pronta para consumo, ao passo que antigamente, em geral, apenas forneciam ingredientes para processamento na Colômbia. Em 2010, o Peru pode ter ultrapassado a Colômbia como o maior produtor mundial, de acordo com o DEA, o órgão do governo americano para combate às drogas. Entre 2009 e 2010, o potencial peruano para produzir cocaína cresceu 44%, para 325 toneladas. Em 2010, a produção potencial da Colômbia era de 270 toneladas.
Enquanto isso, Venezuela e Equador despontam como centros de contrabando.
Essa tendência revela a habilidade dos cartéis da droga de descobrir ambientes favoráveis às suas operações, em meio às mudanças políticas da América Latina. Nos últimos anos, o líder venezuelano Hugo Chávez, um antiamericano declarado, diminuiu a presença da DEA no país, enquanto o presidente boliviano Evo Morales, ele próprio um plantador de coca de longa data, expulsou de vez a agência.
Ironicamente, a mudança é um subproduto de uma história de sucesso na guerra às drogas: o Plano Colômbia. Em pouco mais de dez anos, os EUA gastaram cerca de US$ 8 bilhões apoiando o esforço colombiano para erradicar campos de coca, prender traficantes e combater guerrilheiros financiados pela droga, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A produção de cocaína colombiana declinou, a taxa de homicídios caiu drasticamente e as Farc estão em rota de fuga.
Mas os traficantes se ajustaram. Cartéis mudaram-se para o sul, através da fronteira com o Equador, para construir novas instalações de armazenagem e abrir novas rotas de contrabando. A vizinha da Colômbia ao leste, a Venezuela, é agora o ponto de partida de metade da cocaína despachada para a Europa por navio.
"A Colômbia está deixando para trás a sua imagem de um Estado fracassado, nas mãos dos traficantes de drogas", disse o General Oscar Naranjo, comandante das forças policiais da Colômbia, numa entrevista coletiva em Bogotá no ano passado. "Mas, evidentemente [...] isso produziu um efeito balão."
O "efeito balão" é a noção de que atividades da droga, uma vez comprimidas numa região, simplesmente se expandirão em outras, como ar em um balão. Por exemplo, os esforços mais audaciosos do México para enfrentar as quadrilhas de traficantes - que transportam cocaína produzida na América do Sul para os EUA - estão empurrando os traficantes para os Estados mais fracos da América Central.
Na América do Sul, o efeito balão coincidiu com outro fenômeno: o aparecimento de uma geração de líderes populistas que veem o esforço antidroga dos EUA como uma versão do imperialismo americano que eles desprezam.
Tanto Chávez quanto Morales ganharam popularidade nas camadas mais pobres como ferrenhos líderes antiamericanos. Eles descrevem a guerra às drogas como uma fachada para a estratégia de controlar a política e os recursos naturais da região, principalmente o petróleo.
Na Bolívia, Morales, um índio aimará de 52 anos que chegou ao poder em 2006, passou a vida se opondo à guerra às drogas dos EUA. Como líder dos plantadores de coca do seu país, ele criou um movimento político promovendo manifestações contra a polícia antidrogas. As passeatas que ele liderou em La Paz derrubaram o presidente apoiado pelos EUA e prepararam o caminho para a sua eleição.
Uma vez empossado, Morales nomeou plantadores de coca para posições-chave do combate ao crime, e pediu aos legisladores que expandissem para quase 20.000 hectares a área para cultivo legal de coca - cinco vezes o tamanho necessário para prover os índios com a coca mastigável que eles usam como tradição.
Morales descreve a sua política como "coca sim, cocaína não", uma aquiescência ao papel central que as folhas de coca desempenham há séculos na cultura indígena. A coca é tradicionalmente mastigada pelos índios dos Andes como um leve estimulante. Para simbolizar a mudança, Morales assumiu o poder numa cerimônia no alto de uma montanha, conduzida por um xamã aimará.
Mas "coca sim, cocaína não" mostrou-se um ideal difícil de seguir. Valentin Mejillones, o xamã da cerimônia, e que atua como um guia espiritual de Morales, foi preso em 2010 com mais de 200 quilos de cocaína líquida na sua casa. Ele negou ter cometido irregularidades.
Há ainda Margarita Terán, uma plantadora de coca e ex-namorada de Morales escolhida para escrever o trecho que protege o cultivo de coca na nova constituição boliviana. Em 2008, duas das irmãs de Terán foram flagradas numa blitz policial com 130 quilos de pasta de coca, que é uma cocaína semirrefinada. Elas negam terem cometido irregularidades.
Ano passado no Panamá, agentes da DEA prenderam o General Rene Sanabria, que chefiava uma agência antinarcótico de Morales, quando ele se preparava para enviar 144 quilos de cocaína para os EUA. Sanabria confessou o crime e está agora cumprindo uma pena de 15 anos nos EUA.
Os críticos mais severos de Morales dizem que essas prisões de alto calibre sugerem que o governo dele é condescendente com o tráfico de drogas. Outros dizem que a sua ambivalência em relação ao esforço antidroga gerou um nível de corrupção que está agora fora de controle.
"O que está acontecendo é que o tráfico de drogas, em meio à falta de uma política clara, em meio a instituições fracas, em meio a partidos fracos, está conseguindo se estabelecer", disse Juan del Granado, ex-prefeito de La Paz e antigo aliado de Morales, que rompeu com o presidente por causa da política de drogas e outras divergências.
A indústria da cocaína já migrou no passado. Peru e Bolívia, onde a coca é legalizada e os indígenas a mastigam há séculos, foram as principais fontes de coca para o boom da cocaína do início dos anos 80, que gerou chefões do tráfico como o colombiano Pablo Escobar.
Aí os EUA fizeram da Bolívia e do Peru as linhas de frente do seu esforço de eliminar as fontes da droga. Helicópteros militares americanos transportavam a polícia antidrogas da Bolívia - treinada, equipada e alimentada pelos EUA - nas buscas pela coca. No Peru, a força aérea abatia aviões suspeitos de transportar pasta de coca para a Colômbia, numa controvertida operação com o serviço secreto americano, a CIA.
Em resposta, os cartéis colombianos começaram a plantar cocaína em casa. Em 2000, 75% do cultivo mundial de coca havia se mudado para a Colômbia, onde o poder de guerrilhas de esquerda e de traficantes mantinha imensas extensões de terra fora do alcance do Estado.
Hoje, o Plano Colômbia está empurrando o cultivo de coca de volta para o Peru e a Bolívia, uma viagem de ida e volta que, segundo analistas, ilustra como é difícil suprimir as drogas.
Para os traficantes, o retorno t para o Peru não podia ser mais oportuno. A política de derrubar aviões acabou em 2001, quando a CIA e a Força Aérea Peruana derrubaram por engano um avião que transportava missionários americanos confundidos com traficantes.
No ano passado, logo depois da posse, Ollanta Humalla, eleito com o apoio de regiões tradicionalmente produtoras de coca, nomeou um defensor dos produtores da planta como autoridade antidrogas.
Na Bolívia, o principal desafio hoje pode ser a presença crescente de cartéis do México, da Colômbia e do Brasil, dizem especialistas. A polícia brasileira diz que 80% da cocaína do país vêm da Bolívia.
É fácil encontrar sinais de expansão em El Chapare, um centro de cultivo de coca na região plana tropical da Bolívia, onde 90% da safra acaba virando cocaína, segundo muitas estimativas. Numa visita recente, colunas de fumaça e um cheiro de madeira queimada no ar quente eram indícios de que novos lotes estavam sendo queimados para o plantio de coca.
Mas a maior mudança ao redor de El Chapare talvez seja, ironicamente, a paz. Durante anos, cidades como Villa Tunari viram tensos, e às vezes mortais, confrontos entre plantadores e a polícia.
Sob a nova política, são os líderes do sindicato dos plantadores, em vez da polícia, que estabelecem os limites do cultivo. Cada membro de uma família pode plantar uma área do tamanho de uma quadra de basquetebol.
Uma razão para limitar o tamanho das plantações é proteger os preços, diz Zurita, a líder dos plantadores. "Nós falamos a todo mundo para ser inteligentes", diz ela. "Se todo mundo plantar o tanto que quiser, então não valerá nada."
(Colaborou Mario Arostegui.)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Brasil vira paraíso de lavagem de dinheiro

Lavagem à brasileira
Autor(es): José Casado
O Globo - 19/12/2011
 

Uma obscura rede especializada em legalizar dinheiro proveniente de atividades ilícitas cresce no Brasil, que se tornou o principal centro de lavagem financeira da América do Sul. Essa transformação acompanhou o crescimento da economia mundial e das rotas de tráfico de drogas do país para EUA, Europa e Ásia

Rede que legaliza dinheiro ilícito se expande, e 43 mil passaram a ser investigados
Há três décadas Desiré Delano Bouterse é o líder político e militar mais poderoso do Suriname, antiga colônia holandesa na fronteira com o Pará, distante 1.500 quilômetros de Belém. Ex-chefe de uma ditadura que nos anos 80 proclamou no país uma "República Socialista", retornou ao poder na eleição do ano passado. Ele tem mais 42 meses de mandato pela frente, até 13 de agosto de 2015. Então, Bouterse vai se tornar um narcotraficante de 70 anos com prisão decretada no Brasil e em mais meia centena de países, a pedido da Holanda, onde está condenado a 16 anos de prisão por tráfico de cocaína.
"A imunidade de um chefe de Estado começa no momento de sua posse e termina no momento em que deixe a função", lembra a embaixada dos Países Baixos, em nota dirigida ao GLOBO para explicar a posição do governo holandês sobre o caso do presidente do Suriname. "Isso significa", continua, "que Bouterse, depois do mandato, poderá ser penalizado por qualquer ato que cometeu antes de ser presidente, pelos atos privados cometidos durante a sua presidência e pelos atos que venha a perpetrar depois da sua presidência."
Nos anos 80, ele foi um dos pioneiros na organização de rotas de tráfico de cocaína colombiana do Brasil para a Europa e os Estados Unidos, via Suriname. Tinha um sócio brasileiro, o ex-garimpeiro Leonardo Dias Mendonça, preso em Goiás. Mendonça e Bouterse fizeram fortuna numa lucrativa frente de negócios com as Farc, a narcoguerrilha da Colômbia: vendiam armamento e recebiam em cocaína. Registros financeiros indicam que Mendonça somou um patrimônio de US$70 milhões. Financiou o início de carreira de Luiz Fernando da Costa, o Beira-Mar - preso em Mossoró (RN). E patrocinou uma rede de apoio político, na qual se destacou o ex-deputado federal Pinheiro Landim (PMDB-CE), recentemente homenageado na Assembleia do Ceará.
Bouterse, Mendonça e Beira-Mar são personagens de uma obscura rede financeira em expansão no Brasil, especializada em legalizar dinheiro obtido com atividades ilícitas (do narcotráfico à corrupção). De terno e gravata no palácio presidencial em Paramaribo ou em uniformes das penitenciárias de Goiânia e Mossoró, eles movem seus lucros para a legalidade no país que se tornou o principal centro de lavagem financeira da América do Sul. A velocidade dessa transformação coincidiu com o ritmo de crescimento da economia nacional e da multiplicação das rotas de trânsito de droga do Brasil para EUA, Europa e Ásia (via África) na última década.
Um exemplo de como são feitas as operações: agentes financeiros usaram pelo menos 70 empresas e 112 pessoas para legalizar uma fatia de R$62 milhões dos ganhos de Beira-Mar no tráfico durante os últimos 19 meses (ver gráfico). Não importa a origem do dinheiro, os padrões de lavagem quase sempre são os mesmos - segundo o Conselho de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda.
Governo admite
a impunidade
Os dados do governo e do Judiciário sobre negócios feitos na fronteira das finanças ilegais são precários e de qualidade discutível, mas revelam um significativo crescimento no Brasil: 43,2 mil empresas e pessoas físicas passaram a ser investigadas por suspeita de lavagem de dinheiro nos últimos 23 meses - mil a mais que o total de investigados nos quatro anos anteriores. Somente no ano passado, 30,5 mil se tornaram alvo dos "relatórios" que o Coaf envia às polícias, à Receita Federal e ao Judiciário. Foi o triplo do registrado em 2009.
Este mês começou com 51 empresas e cidadãos brasileiros sob investigação nos EUA. O Departamento do Tesouro situa o Brasil em quinto lugar na classificação de países com transferências de valores sob suspeita detectadas no mercado financeiro americano. Os dados sobre o período de novembro de 2009 a junho deste ano mostram a Venezuela isolada na liderança (39% dos inquéritos abertos), seguida por Argentina, México e Emirados Árabes. O Brasil se igualou a paraísos fiscais como Panamá e superou Uruguai, Hong Kong, Afeganistão e Ilhas Virgens Britânicas.
Na média, quatro em cada dez empresas ou pessoas físicas que passam à investigação no Brasil têm sido denunciadas por agências do exterior. Isso permitiu ao governo brasileiro êxito no bloqueio judicial de R$792 milhões em contas nos EUA, em Portugal, no Uruguai e na Suíça.
Além desse dinheiro, o país mantém um estoque de R$1,1 bilhão bloqueado por ordem judicial em contas-correntes, fundos de investimentos e de previdência privada de propriedade de empresas e de brasileiros investigados por crimes de lavagem.
No Rio, está interditado R$1 bilhão - 12 vezes mais que a soma dos bloqueios feitos em São Paulo (R$23 milhões), Ceará (R$18 milhões), Bahia (R$13 milhões), Minas Gerais (R$12 milhões), Pernambuco (R$10 milhões), Paraná (R$7 milhões) e Roraima (R$1,4 milhão).
Os tribunais receberam 3,5 mil novos inquéritos e ações penais por lavagem, no ano passado, mas os resultados são rarefeitos, segundo uma avaliação feita em abril pelo governo brasileiro em conjunto com a agência intergovernamental especializada (Gafi/Fatf): "São muito poucas as condenações", concluem, citando o risco que o país passou a representar e o tamanho do setor financeiro.
Márcia Cunha, juíza especializada em casos empresariais, no Rio, acha que a eficiência só vai aumentar com a repressão aos delitos financeiros: - Onde dói mesmo é no bolso, por isso precisamos ir atrás do dinheiro.
Há evidências de que máfias brasileiras passaram a financiar plantios, refino e logística de transporte do narcotráfico no Peru, na Bolívia e no Paraguai, acrescenta o sociólogo peruano Jaime Antezana:
- Iquitos, na fronteira do Peru com o Brasil, se tornou um paraíso para reinversão dos lucros.
Outra área onde os negócios florescem é o Paraguai. Desde 2009, a agência antidrogas americana (DEA) vigia operações na Tríplice Fronteira feitas pelo Banco Amambay com empresas de Horacio Cartes. Cartes é líder do Partido Colorado e pré-candidato à presidência do Paraguai nas eleições de 2013. Os relatórios da DEA informam que Cartes comanda uma grande "lavanderia" para máfias de vários países, principalmente o Brasil.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Fundo domina mercado de armas nos EUA

São Paulo, terça-feira, 29 de novembro de 2011Mundo
Mundo


Empresa desconhecida de Wall St. compra marcas tradicionais como Remington e é alvo de teorias conspiratórias
No mercado, Freedom Group é conhecido por recuperar companhias para revendê-las, mas falhou anteriormente
DO "NEW YORK TIMES"
Nos últimos anos, muitas armas que estão entre as mais vendidas nos EUA -como as da Remington Arms, fundada há 195 anos, as da Bushmaster Firearms e as da DPMS- passaram sem alarde para mãos de um só controlador: o Freedom Group.
A empresa é a força mais poderosa e misteriosa na indústria de armas dos EUA. Não ouviu falar no grupo?
Você não é o único. Mesmo entre os aficionados por armas, o Freedom Group é até certo ponto um enigma. Sua ascensão vem sendo tão rápida que a empresa se tornou alvo de especulações acirradas e teorias conspiratórias.
Quem está por trás desse empreendimento é a Cerberus Capital Management, empresa de investimentos privados que primeiro chamou a atenção do público quando comprou a Chrysler, em 2007 (mais tarde, a Chrysler precisou ser resgatada pelos contribuintes norte-americanos).
Com muito menos fanfarra, a Cerberus, por meio do Freedom Group, vem adquirindo grandes nomes nos setores de armas e munição.
Desde sua sede em Manhattan, a Cerberus já montou um arsenal notável. Ela começou com a Bushmaster e depois comprou a Remington, cuja história data da época das espingardas de pederneira e hoje supre o governo do Afeganistão de fuzis M24 para atiradores de elite.
"Acreditamos que a escala e amplitude de nossos produtos não têm igual no setor", disse o Freedom Group no ano passado em relatório arquivado na SEC (que regula o mercado de ações).
Na seara dos rifles e das espingardas para consumidores -conhecidos no setor como "long guns", ou armas compridas-, o grupo domina o mercado.
Segundo suas próprias contas, o Freedom Group vendeu 1,2 bilhão de armas compridas e 2,6 bilhões de cartuchos de munição nos 12 meses encerrados em março de 2010, o ano mais recente para o qual as cifras estão disponíveis ao público.
Alguns aficionados por armas alegam que a eminência parda por trás da empresa é George Soros, o bilionário de fundos de "hedge" e ativista liberal. Para elas, Soros estaria comprando empresas americanas de armas para poder desmontar a indústria.
As especulações cresceram tanto que em outubro a Associação Nacional de Rifles divulgou comunicado negando os boatos.
Soros não faz parte do grupo, mas não está claro por que a Cerberus investiu nas empresas de armas.
Muitas firmas de investimento privado evitam setores como esse, para não afastar grandes investidores como fundos de pensão.
Sob muitos aspectos, porém, a iniciativa lembra o estilo Cerberus: investir em companhias que outras pessoas podem não querer, mas que ela acredita que poderá recuperar.
A empresa faz parte de um dos ramos de atuação mais fortes em Wall Street na década passada: "private equity" (compra de participação em companhias).
Os reis das aquisições de empresas, como Stephen Feinberg, 51, presidente-executivo da Cerberus, procuram adquirir empresas subavaliadas, muitas vezes com dinheiro emprestado, as reorganizam e então ou as vendem com lucro ou abrem seu capital na Bolsa.
Antes da crise financeira de 2008, dezenas de empresas americanas conhecidas passaram para as mãos de firmas de "private equity".
Para os financistas, as recompensas muitas vezes eram enormes. Mas algumas companhias que eles adquiriram mais tarde enfrentaram problemas, em parte porque carregavam o ônus da dívida decorrente das aquisições.
Quando a Cerberus iniciou sua orgia de aquisições no setor de armas, ela basicamente tinha o campo de atuação livre apenas para ela.
"Existe muito menos competição para a aquisição destas firmas", diz Steven N. Kaplan, da Escola Booth de Administração da universidade de Chicago e especialista em "private equity".
Tradução de CLARA ALLAIN

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Brasil é protagonista no tráfico de armas

Autor(es): Bruno Huberman
Escrevinhador - 06/04/2011

Wálter Maierovitch: o Brasil é protagonista no tráfico internacional de armas
da Carta Capital
O jurista ainda afirma que não é possível levar a sério qualquer pesquisa sobre a origem do armamento do crime organizado nativo que não seja feito por quem o deveria controlar: o Estado
Para o colunista e especialista em crime organizado internacional, Wálter Maierovitch, não há discussão sobre o tráfico de armas no Brasil e a origem do armamento do crime, enquanto não entendermos que fazemos parte de uma conjuntura mundial liderada pelas máfias transnacionais que abastecem todos os conflitos armados no planeta: desde os revoltos líbios até os narcotraficantes cariocas. “O que interessa é que o crime organizado tem armas e consegue as armas que quiser”.
Na entrevista à CartaCapital, o jurista traça um panorama sobre o tráfico internacional de armas, a política de segurança pública e criminal nativa e a ineficiência do controle do comércio de armas local.

CartaCapital: Como você vê a questão das armas no Brasil e no mundo?
Walter Maierovitch: A primeira imagem que me vêm quando falamos sobre a questão das armas, é um filme em que o saudoso Alberto Sordi fazia o papel de traficante de armas. Esse filme é de 1974. Ele saia para vender armas pela África, por vários países, evidentemente ilegalmente. Toda vez que o secretário dele se aproximava e dizia que estava tendo uma revolução na África ou algo parecido, ele soltava a seguinte frase: “enquanto houver guerra, há esperança”, que vem a ser o título original do filme em italiano.

CC: E como funciona esse mercado ilegal internacional de armas?
WM: O comércio ilegal de armas movimenta 290 bilhões de dólares todos os anos e 35% dessas movimentações são feitas por uma criminalidade organizada. Para se ter ideia, a Convenção de Palermo de 2000 foi a primeira sobre crime organizado sem fronteiras da ONU. Houve um protocolo sobre armas e munições, mas não houve quorum para sua aprovação. Os lobbies fizeram com que os países interessados caíssem fora porque não querem nenhum controle sobre as armas. Nós temos dados preocupantes, como por exemplo, o Iraque, que de 1965 a 90 comprou 93 bilhões de dólares em armas e munições. Há três blocos sólidos da indústria bélica: em primeiro lugar os EUA e a Rússia, em segundo França, Grã-Bretanha e China e em terceiro Brasil, Argentina, Áustria, Suíça e Itália.

CC: Qual é o ponto mais sensível do tráfico de armas?
WM: A ONU estabeleceu por convenção a necessidade de toda exportação ser condicionada a expedição de um certificado de destinação final. Imagine se do Brasil sai um barco com armas e munições com destino final a Angola. Digamos que seja um navio de bandeira eslovena, só que ao invés de Angola vai parar em outro lugar. Quem controla esse certificado? Ninguém.
CC: Nem a Interpol?
WM: A Interpol é uma piada, assim como a Europol. Não há uma autoridade brasileira que consulte Angola para ver se o carregamento chegou lá.
CC: Isso dentro do comércio legal de armas, sem considerar os barcos que nem sabemos que vão transportando armamento ilegal.
WM: A ONU criou esse certificado e apenas a criminalidade organizada o aproveita. O certificado é uma porta aberta à exportação. Essa proposta que se está estudando nos EUA de armar os rebeldes líbios, já aconteceu na guerra entre o Irã e o Iraque por meio do então maior traficante de armas do mundo. A própria CIA usou um traficante internacional de armas para, por baixo do pano, jogar armas para o Iraque, que a época era aliado.
CC: Talvez isso já esteja acontecendo, mas ainda não sabemos disso.
WM: O mercado das armas já aponta para isso. O Paraguai é o grande depósito ilegal de armas a fim de traficá-las. Antes da Primavera Árabe, podia-se comprar facilmente uma AK-47, a Kalashnikov. Vê se consegue agora? Não consegue mais porque os rebeldes da Líbia sabem usar esse tipo de arma. Já há uma mudança no mercado. Isso mostra que o Paraguai é apenas um entreposto para o tráfico. No Brasil, que está no terceiro bloco exportador de armas, e a correta chave de leitura é “exportador de violência”, tem também um mercado informal de armas muito forte. Armas que são fabricadas aqui, vão para o Paraguai e depois voltam de maneira ilegal. É um bumerangue.
CC: E as munições? O Brasil fabrica munições até para as armas que a sua própria indústria não produz.
WM: Esse é o grande problema. Se tiver dificuldade de reposição de munição não vai ter o objetivo do crime organizado que é o enfrentamento. Todas essas munições brasileiras são exportadas com o certificado de destinação final e a polícia brasileira não se importa em investigar. É uma grande farsa internacional.
CC: Quanta a origem do armamento dos criminosos brasileiros, é melhor acreditarmos na pesquisa da ONG Viva Rio que diz que a maioria das armas ilegais são de produção nacional ou da RCI First Security and Intelligente Advising, empresa de Segurança Privada sediada em Nova York, especializada em análise e gestão de risco, que diz exatamente o contrário?
WM: Esse tipo de debate mostra outra falha. Qual a origem das armas e munições apreendidas pela polícia de acordo com o banco de dados brasileiro? Não há esta estatística. Se tivesse um centro especializado em estatísticas e uma política mínima de segurança pública, haveria com facilidade um número com base nas apreensões. Mas não há, essas pesquisas são todas bobagens. Não há confiabilidade nessas estatísticas de organizações não-governamentais e de empresas privadas de segurança.
CC: Mas, de qualquer forma, é importante levar em conta essas estatísticas, como a da Viva Rio, que são reconhecidas pelo Ministério da Justiça.
WM: Vejamos o caso Castelinho (quando 12 criminosos foram massacrados por 100 policiais na rodovia Castello Branco, no interior de SP, em 2003). As armas que os membros do crime organizado tinham e que iam enfrentar a polícia, antes, estavam em depósito judicial. Alguém fez carga das armas, todas quebradas e arrebentadas, e entregou para os criminosos. Aquilo tudo foi orquestrado. Como se descobriu isso? As munições que eles utilizavam eram da polícia. Veja, essas discussões não geram nada. O que interessa é que o crime organizado tem armas e consegue as armas que quiser. Haja vista o fato de haver vários organizações do Paraguai que fazem entrega a domicílio aqui no Brasil. Uma vez que o Estado tem o monopólio da repressão policial, apenas se pode considerar os dados do Estado. No Rio de Janeiro, proteção à testemunha é feito por ONG, o que deveria ser dever do Estado defender a vida da testemunha. Está na lei brasileira de 1999 que é feita por ONG. O Brasil erra nesses pontos mais importantes.

CC: Então não podemos falar da questão das armas sem considerar uma nova política de segurança pública?
WM: E de política criminal, não apenas de segurança pública. E vem num contesto mundial de armas, que está inserido num mercado problemático. O Brasil tem uma Secretaria Nacional Pública que deveria ter o cuidado de fazer esse tipo de considerações e avaliações. O Brasil deveria lutar internacionalmente pela fiscalização desse registro de destinação final, essa é a grande porta aberta.
CC: O que você acha da hipótese de que quanto mais armas em circulação, menos crimes?
WM: Essa é a ideia americana, que está absolutamente equivocada. Arma é sinônimo de violência. Para se ter ideia da fragilidade da política brasileira nesse sentido, nós já vimos o secretário de segurança pública de São Paulo, no governo Paulo Maluf, recomendar a população, em função da fragilidade da polícia, que se armasse.
CC: Você acha que a fiscalização do transporte e do comércio de armas deve continuar nas mãos do Exército?
WM: No Brasil, nós temos que pensar o seguinte: funciona ou não? O problema não é se está na mão do Exército ou não, o problema é que não funciona. O Brasil mete o foco num assunto, mas não percebe que está tudo relacionado: armas, drogas… é tudo crime organizado. Mais do que isso, é uma geopolítica de nações. Fala-se quem armou os revoltosos líbios foram os franceses por meio de traficantes. O mundo tem que consumir as armas que fabrica e nós não apenas fazemos parte desta geopolítica, mas como somos um dos protagonistas.