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terça-feira, 14 de agosto de 2012

USDA corta suas projeções para oferta de milho e soja



Autor(es): Por Fernando Lopes | De São Paulo
Valor Econômico - 13/08/2012
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/8/13/usda-corta-suas-projecoes-para-oferta-de-milho-e-soja
 

A deterioração do quadro de oferta de grãos nos EUA nesta safra 2012/13 promete amplificar a pressão "altista" sobre as cotações internacionais de commodities como milho e soja nos próximos meses, o que tende a exacerbar as críticas sobre o mandato do etanol no país e as preocupações em torno de uma crise "agroinflacionária" mundial.
Segundo relatório divulgado na sexta-feira pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os reflexos da estiagem e do calor que assolam o Meio-Oeste do país derrubarão a colheita de milho para 273,79 milhões de toneladas, 16,9% menos que o previsto há apenas um mês e volume 12,8% inferior ao efetivamente colhido em 2011/12. Será o pior resultado desde 2006.
As estimativas ainda podem piorar, tendo em vista que a colheita americana só começará a ganhar força em algumas semanas. Em relação às projeções iniciais de produção, a quebra deverá ultrapassar 100 milhões de toneladas. Para efeito de comparação, o USDA passou a estimar a colheita de milho no Brasil em 72,8 milhões de toneladas em 2011/12, um novo recorde também sinalizado pela Conab e puxado pelo desempenho da safrinha.
A tenebrosa situação nos EUA tem reflexos diretos e irreversíveis no tabuleiro global do cereal. Apesar de ter revisto para cima as colheitas de Argentina, Brasil e China em 2012/13, o baque americano deverá reduzir a produção mundial de milho para 849,01 milhões de toneladas na temporada, 6,2% menos que o estimado em julho e volume 3,2% menor que o de 2011/12, sempre conforme as estatísticas do USDA.
A seca e o calor nos EUA também provocam reflexos deletérios sobre as lavouras de soja. Conforme o USDA, a produção americana tombará para 73,27 milhões de toneladas em 2012/13, quase 12% abaixo do previsto em julho e da colheita de 2011/12. Assim, a produção mundial na safra atual foi revisada para 260,46 milhões de toneladas, 2,5% menos que o estimado em julho.
Mesmo assim, o volume é 10,3% maior que o de 2011/12, diferentemente do que deve acontecer no mercado de milho. Os estoques globais finais de soja também tendem a aumentar um pouco em relação ao ciclo passado, ao contrário do que ocorrerá com o milho. Mas, em ambos os casos, os níveis são baixos.
Em tempos de Olimpíadas, os problemas da soja nos EUA darão ao Brasil inéditas medalhas de ouro na produção e na exportação do grão em 2012/13, desde que o clima na safra que começará a ser semeada em meados de setembro colabore. Depois da seca que afetou a região Sul do país em 2011/12, tudo indica, até agora, que os meninos - La Niña e El Niño - vão de fato se comportar melhor, o que deverá resultar, conforme o USDA, em uma produção de 81 milhões de toneladas, 3,8% mais que o estimado em julho e 23,7% acima do volume do ciclo 2011/12.
Em 2012/13, conforme o USDA, o Brasil exportará 37,6 milhões de toneladas de soja em grão, à frente de EUA (30,21 milhões) e Argentina (13,5 milhões), pervertendo uma ordem que vigorou por praticamente uma década, até 2011/12. No ciclo passado, os EUA exportaram 36,74 milhões de toneladas, conforme o USDA, e superaram Brasil (36,7 milhões) e Argentina (7,8 milhões).
Na bolsa de Chicago, as primeiras reações às novas estimativas do USDA foram moderadas. Os analistas alegaram que as projeções para o milho vieram de acordo com as expectativas e as cotações do cereal caíram. A erosão do quadro da soja causou alguma surpresa, mas os ganhos registrados foram moderados. No mercado de trigo, onde o USDA revisou para baixo produção e estoques finais mundiais, mas elevou as projeções para os EUA, onde as condições das lavouras melhoraram, os preços também retrocederam.
Em parte, essa "reação controlada" a uma oferta de grãos mais combalida decorre de projeções de retrações nas demandas. Exceto no caso do trigo, cujo consumo poderá aumentar em função da crise do milho (ambos podem ser usados em rações), no milho e na soja o USDA reduziu as previsões de demanda em parte por causa dos preços já superelevados, que começam a provocar resistência em compradores, do México ao Irã, passando pelo Brasil.
Vale observar, contudo, que a crise do biênio 2007-2008 foi provocada sobretudo por um choque de demanda. Agora, a crise é causada por um choque de oferta, que gera resistência em consumidores e tende a arrefecer no médio prazo, até porque as ofertas tendem a ser recompostas. Mas, para os próximos meses, a tendência é de preços em alta.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Produtor rural carece de apoio para gerir recursos hídricos


Caio Albuquerque, da Assessoria de Comunicação da Esalq
email caioalbuquerque@usp.br 
Disputas pelo uso da água vêm aumentando, principalmente no setor agrícola
Pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, mostra que os produtores rurais brasileiros percebem que a disponibilidade hídrica passa por mudanças, com aumento das disputas pela posse da água. O trabalho desenvolvido pela engenheira agrônoma Janaína Paulino alerta para a insuficiência dos serviços de extensão e transferência de tecnologia rural no Brasil em relação a promoção do uso sustentável dos recursos hídricos.
A pesquisa contou com uma equipe técnica de profissionais de diversas áreas de atuação, com mais de 13 colaboradores, que trabalharam por mais de dois anos no planejamento, obtenção e sistematização de dados e elaboração de relatório. De início, foi realizado o levantamento dos potenciais locais e instituições que seriam aptos a responder de maneira expressiva as questões sobre a utilização do recurso hídrico na região. Assim sendo, recorreram-se às tabelas que apresentavam informações sobre estabelecimentos agropecuários com uso de diferentes métodos de irrigação e diferentes explorações animais. Após a seleção dos municípios (180), foram mapeadas as instituições ligadas ao uso da água (357).
Ao mesmo tempo, foi elaborado um questionário de pesquisa, dividido em cinco partes. “Com o retorno dos questionários, os dados foram analisados e interpretados de maneira integrada e também por região administrativa, tentando ao máximo buscar a percepção do produtor e do extensionista quanto ao entendimento do recurso água, sua importância e seus usos”, diz a pesquisadora. Um evento nacional, denominado “Uso sustentável da água no meio rural — uma proposta pedagógica” foi organizado na Esalq para apresentar e discutir os resultados que, posteriormente, foram apresentados de maneira presencial, em algumas das instituições que participaram do workshop, nas cinco regiões administrativas brasileiras (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste).
“Na prática, a pesquisa mostrou que os usuários da água no setor rural já estão percebendo alteração na disponibilidade hídrica das fontes e que as disputas pelo uso da água vêm aumentando ao longo do tempo, ocorrendo principalmente entre o próprio setor agrícola”, afirma Janaina. O estudo mostra que essa percepção revela uma demanda por materiais que visem formar capacidades nos usuários e nos trabalhadores das instituições de extensão rural. “Os serviços de extensão e transferência de tecnologia rural no Brasil não estão funcionando da maneira que deveriam ou em alguns casos são inexistentes”, continua.
Recursos
Entre as regiões, a região Norte foi a que apresentou maior carência de ações voltadas à gestão dos recursos hídricos. A maior atividade usuária da água é a irrigação e muitos avanços devem ocorrer neste setor. Os usuários precisam de suporte técnico e poucos são os profissionais atuantes e preparados para atender tais demandas. Mesmo existindo relatos de iniciativas sobre o reúso da água em algumas regiões, como a Sul, por exemplo, verifica-se que há carência de ações visando este assunto.
“O País precisa destes serviços para conseguir ter uma política de desenvolvimento no meio rural que coloque ou mantenha-o nos níveis adequados para enfrentar o mundo globalizado”, alerta Janaína. “O papel da educação ambiental no processo de formação de capacidades na gestão dos recursos hídricos é primordial, pois só por meio dela é possível, em longo prazo, romper a herança cultural de que a água é um recurso abundante, renovável e ilimitado”, conclui.
A tese de doutorado de Janaína, orientada por Marcos Vinícius Folegatti, professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas (LEB), foi desenvolvida no programa de Pós-Graduação em Irrigação e Drenagem da Esalq. Elas está inserida no objetivo de dois grandes projetos, “Diagnóstico de demanda e oferta por capacitação e extensão tecnológica em temas relacionados à gestão das águas, nos níveis técnico e superior para cada uma das 5 regiões administrativas do País”, do Ministério da Ciência e Tecnologia, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundo Setorial para Recursos Hídricos (CT-HIDRO) e Agência Nacional de Águas (ANA); e “Estudo para o desenvolvimento da capacitação de usuários de recursos hídricos no meio rural, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Ambos foram desenvolvidos por mais de dois anos, envolveram pesquisadores de diferentes áreas ligadas à gestão de recursos hídricos e tiveram a coordenação do professor Folegatti e coordenação técnica do pesquisador Rodrigo Máximo Sánchez-Román. “Os dois projetos se completam e, em um âmbito geral, levantaram informações sobre dos usos da água no meio rural; diagnosticaram a demanda e a oferta de capacitação e extensão tecnológica para a gestão dos recursos hídricos nos níveis técnico e superior; determinaram o formato para o funcionamento de uma rede de capacitação e extensão tecnológica, a “Rede Yara”; além de propor um série de materiais didáticos para capacitadores e para usuários da água”, explica a engenheira agrícola.
Imagem: sxc.hu
Mais informações: (66) 8136-4505; emailsjpaulino@esalq.usp.br ou eng_janaina@yahoo.com.br , com Janaína Paulino

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

DENOCS X Convivência com o Semi-árido



ESCRITO POR ROBERTO MALVEZZI (GOGÓ)   
TERÇA, 31 DE JANEIRO DE 2012


O DENOCS (Departamento Nacional de Obras contra a Seca) foi criado em 1909, ainda como IOCS (Inspetoria de Obras Contra a Seca), depois como IFOCS (Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca). Durante décadas foi considerado como a maior empreiteira da América Latina.

A concepção do Departamento era equivocada em si mesma, isto é, combater a seca. Claro, nenhum país do mundo criou algum departamento para combater a neve, ou combater a chuva, ou combater o deserto. Entretanto, em sua longa existência, o Departamento construiu a maior açudagem do mundo, cerca de 70 mil, com capacidade para armazenar 36 bilhões de metros cúbicos de água de chuva. O professor João Abner, hidrólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, costuma dizer que, antes desses açudes, o semi-árido era mesmo um deserto. Afinal, o que sempre faltou não foi chuva, mas a capacidade de armazenar a água que a chuva oferece.

Acontece que o Departamento criou ilhas de água, mas nunca fez sua distribuição horizontal. Essa lacuna fundamental é hoje admitida até por quem já esteja na chefia do órgão por quase uma década, como Manoel Bonfim Ribeiro. Essa é a proposta fundamental do Atlas do Nordeste, diagnóstico feito pela Agência Nacional de Águas para o meio urbano da região.

Mas foi ali também que a chamada “indústria da seca” grassou como praga. Sempre exigindo novas verbas para novas obras, foi o ralo do enriquecimento pessoal de multidões de coronéis nordestinos, que fizeram a maior parte dos açudes e poços em suas propriedades particulares, além de construírem seu poder econômico e político manipulando a sede do povo. O que aconteceu esses dias com o apadrinhado do deputado Henrique Alves é apenas uma amostra grátis de décadas de drenagem do dinheiro público para cofres particulares.

Em 1959, intelectuais como Celso Furtado, setores da Igreja como D. Hélder Câmara, propuseram a criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste. Em seu discurso inaugural, Celso Furtado pronuncia a expressão “convivência com o semi-árido” - retirando do centro o enfoque no combate à seca e focando a industrialização -, que já tinha lastro em outros intelectuais da academia Nordestina. Mas na lógica do capital e do patrimonialismo, a SUDENE repetiu a indústria da seca do DENOCS. Com a criação da SUDENE, o Departamento perdeu poder.

Esses dias a presidente Dilma Roussef disse que não iria mais fazer a parceria com a Articulação no Semi-árido Brasileiro, que tirou do papel a lógica da convivência com o Semi-árido e a fez realidade. Com um fiapo de dinheiro e tecnologias simples, tem um impacto social maior na população mais pobre que cem anos de DENOCS. Agora o governo voltou atrás e disse que vai prosseguir na parceria, mas vai continuar com sua distribuição de 300 mil cisternas de plástico pela CODEVASF, pelas mãos do ministro Fernando Bezerra Coelho. Portanto, uma no cravo e outra no calo do povo.

Operar no Semi-árido sem conhecer sua história é voltar a cometer os erros crassos do passado.  Um pouco de humildade do governo evitaria tamanho descalabro, como as cisternas de plástico e a nova cara dessa nefasta indústria da seca, agora como hidronegócio materializado na Transposição.

Dilma tem feito um esforço retado para ressuscitar a indústria da seca.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Semiárido e a polêmica das cisternas de plástico. Entrevista especial com Roberto Malvezzi

Foi com surpresa e indignação que a população do semiário e a Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA receberam a notícia de que o governo pretende investir em cisternas de plástico em vez de dar continuidade ao projeto de construção de cisternas de placas. Na avaliação de Roberto Malvezzi, a proposta governamental “é um desastre”, porque o governo "não está apenas trocando uma tecnologia por outra, mas desmantelando todo um processo educativo de convivência com o semiárido”.

Segundo ele, a cisterna de placa é o melhor modelo para armazenar água e garantir sua qualidade, porque não há riscos de vazamento e contaminação da água. Desde 2003, cerca de 400 mil famílias já foram beneficiadas com o Programa 1 Milhão de Cisternas, atendendo a 2 milhões de pessoas.
Em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail,Malvezzi enfatiza que as “oligarquias nordestinas não se conformavam em ver o povo mais autônomo e buscavam um meio de retomar o controle da água sobre essas populações. Talvez conseguirão ao serem os doadores das cisternas de plástico”. E reitera: “O governo está sinalizando na direção de continuar a parceria com a ASA, mas não parece a fim de desistir das cisternas de plástico. Portanto, parece que pensa em levar as duas tecnologias à frente. Logo, se assim for, resgatará o clientelismo eleitoral através da água, que julgávamos definitivamente enterrado”.
Roberto Malvezzi é graduado em Estudos Sociais e em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia Ciências e Letras de Lorena, em São Paulo. Também é graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo. Atualmente atua na Comissão Pastoral da Terra – CPT.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como avalia a proposta de o governo federal investir em cisternas de plástico em vez de cisternas de concreto? O que justificaria esta mudança? Como a população do semiárido reagiu a essa notícia?

Roberto Malvezzi –
 Com indignação profunda. Essa decisão foi uma surpresa total para toda a Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA. Afinal, a cisterna de concreto é um trabalho premiado no mundo inteiro, inclusive pelo próprio governo brasileiro. Cerca de 400 mil famílias já foram beneficiadas, atendendo a 2 milhões de pessoas. Aproximadamente 12 mil pedreiros foram capacitados em 10 anos. Então, ninguém entende essa mudança, inclusive integrantes do governo.

IHU On-Line – Por que é preferível investir nas cisternas de placas?

Roberto Malvezzi –
 Várias tecnologias para armazenamento da água de chuva já foram testadas. O princípio da coleta da água da chuva remonta aos tempos bíblicos. O problema é a forma adequada de guardá-la. Tentamos usar a cisterna de pedra e cal, mas não deu certo. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra tentou uma cisterna de plástico em assentamentos, em Sobradinho e não deu certo.
A única cisterna que comprovadamente funcionou foi a de placas de cimento. Acontece que ela é uma invenção de um pedreiro baiano, chamado Néo, que hoje mora em Sergipe. Ele foi trabalhar em São Paulo e aprendeu a fazer placas de cimento para construção de piscinas. Essa técnica é totalmente voltada para que a água não vaze. Quando voltou ao sertão, ele decidiu fazer um reservatório para guardar a água de chuva utilizando a técnica das placas para fazer piscina. Sem querer, ele descobriu o “ovo de Colombo”. Daí a generalização para todo o semiárido. Os pedreiros aprendem a construí-la, sabem fazer sua manutenção. A de plástico fica totalmente dependente da empresa. Uma vez rachada, vira um pacote de lixo.

IHU On-Line – Qual é a realidade das populações que vivem no semiáriodo? Quantas pessoas dependem do abastecimento de água das cisternas?

Roberto Malvezzi –
 Nosso cálculo é que aproximadamente um milhão de famílias precisa dessa tecnologia. Ela – a tecnologia –fez uma revolução no cotidiano das populações. Hoje não se fala mais em migrações intensas na região, em “frentes de emergência”, em tanta mortalidade infantil, em saques. O que mudou? Uma série de políticas que chegam à ponta, na casa das famílias, como o salário mínimo da aposentadoria rural, a energia elétrica, o Bolsa Família, mas, sobretudo, a água para beber.

É bom lembrar que temos outro programa, pouco falado, o P1+2 (Uma terra e duas águas), cuja captação da água de chuva é para a produção. Uma coisa fantástica. Ora, qual empresa vai instalar a cisterna de plástico e ainda fazer o trabalho educativo para a produção agroecológica com água de chuva?

Portanto, o governo não está apenas trocando uma tecnologia por outra, mas desmantelando todo um processo educativo que chamamos de convivência com o semiárido. Essa é a região brasileira que mais avançou nos últimos anos em termos sociais. A migração se inverteu e hoje volta mais gente para o Nordeste do que sai para o Sul. Portanto, em todos os sentidos, a decisão governamental é um desastre.

IHU On-Line – Que cidades da região mais sofrem com a falta d'água?

Roberto Malvezzi –
 Debatemos sobre isso desde que o governo decidiu transpor o São Francisco. Segundo a Agência Nacional de Águas – ANA, cerca de 1800 municípios nordestinos precisarão de algum serviço de abastecimento de água até 2025, para não entrar em colapso hídrico. Vai o governo esperar isso acontecer antes de implantar as adutoras e serviços de água?

Nosso trabalho de cisternas é mais dedicado ao meio rural, onde está a grande maioria da população rural brasileira. O meio rural do semiárido é o mais povoado no Brasil e no mundo.

IHU On-Line – Que avaliação o senhor faz do Programa Água Para Todos, do governo federal? Quais são os avanços e os limites deste programa?

Roberto Malvezzi –
 A iniciativa em si é fantástica; é a ampliação em nível nacional de uma iniciativa do governo da Bahia. Qualquer um que está nessa luta há décadas, como eu, fica imensamente feliz quando um governo decide abordar essa questão com uma política pública. Mas, veja o paradoxo: o governo, ao investir em uma política pública, começa desmantelando a única iniciativa que deu certo em séculos no semiárido. O argumento é a aceleração do programa. Mas que adianta fazer algo mal feito, substituindo e até cancelando o que estava perto da perfeição? A velocidade não é tudo. Fazer bem feito é fundamental, sob pena de termos que refazer tudo.

IHU On-Line – Criado em 2003, o Programa 1 Milhão de Cisternas tinha a meta de construir um milhão de cisternas em cinco anos, mas, sete anos depois, ainda não conseguiu atingir a meta. O que dificulta a construção dessas cisternas?

Roberto Malvezzi –
 É aí que o governo se apega para propor suas cisternas de plástico, isto é, diz que estamos indo muito devagar. As cisternas de plástico acelerariam o atendimento das famílias. Sempre argumentamos que não somos uma empreiteira: há um trabalho pedagógico com as famílias, caso contrário o trabalho se perde. Este é o limite da presidente Dilma: ela é uma excelente gerente, entende tudo de metas, mas não entende nada de processos pedagógicos. Para ela, o processo educativo não vale nada. Para nós ele é essencial. E, vendo por outro ângulo, nós conseguimos fazer em 10 anos o que todos os governos não fizeram em 500 anos. Então, porque somos acusados de lentidão?

IHU On-Line – Como acontece o acompanhamento para garantir a qualidade da água das cisternas?

Roberto Malvezzi –
 Sem a preparação da comunidade, as pessoas não sabem o que fazer com a cisterna, não sabem cuidar, a água fica contaminada, nem acreditam que chova o suficiente para encher a cisterna. Um educador vai até a comunidade para ministrar o curso de gerenciamento de recursos hídricos. Essa é a dimensão essencial, que chamamos de educação contextualizada, que o atual governo ignora, mas que é fundamental para a funcionalidade correta da captação de água da chuva e de toda a lógica da convivência com o semiárido.

IHU On-Line – Como avalia a autonomia da população em relação à gestão do uso da água através das cisternas construídas até o momento?

Roberto Malvezzi –
 A autonomia muda profundamente. Mais independência, mais saúde familiar, menos peso sobre as mulheres e crianças, os responsáveis para pôr água em casa. Portanto, melhora também a questão de gênero.

Aliás, as oligarquias nordestinas não se conformavam em ver o povo mais autônomo e buscavam um meio de retomar ocontrole da água sobre essas populações. Talvez conseguirão ao serem os doadores das cisternas de plástico. Voltaremos ao clientelismo pela água, arma histórica da coronelada sobre as populações. Claro que estamos em outra época, já não é tão simples, mas ainda pode funcionar muito bem.

IHU On-Line – Em que consistiria uma política pública eficiente para garantir o acesso à água para a população do semiárido? Quantas cisternas são necessárias para atender à população do semiárido?

Roberto Malvezzi –
 Seria necessário, no mínimo, um milhão para consumo humano (Programa 1 milhão de cisternas) e, no mínimo, um milhão para a produção (Programa Uma Terra e Duas Águas), pressupondo a reforma agrária, ou a conquista das terras pelos quilombolas, indígenas, sem terra, etc. A segunda questão essencial, em termos de abastecimento humano, é a aplicação do Atlas do Nordeste ao meio urbano.

IHU On-Line – Como estão as negociações entre a ASA e o governo brasileiro?

Roberto Malvezzi –
 Depois da manifestação em Juazeiro/Petrolina, dia 20 de dezembro, já houve duas reuniões com o governo. O governo está sinalizando na direção de continuar a parceria com a ASA, mas não parece a fim de desistir das cisternas de plástico. Portanto, parece que pensa em levar as duas tecnologias à frente. Logo, se assim for, resgatará o clientelismo eleitoral através da água, que julgávamos definitivamente enterrado.
*As fotos foram enviadas pelo entrevistado.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

CONSUMIDOR DEVE PAGAR MAIS PELA ÁGUA DO SÃO FRANCISCO


FUTURO DA TRANSPOSIÇÃO, ALÉM DO ALTO CUSTO, ESBARRA EM PREÇO DA TARIFA DE ÁGUA
Autor(es): MARTA SALOMON
O Estado de S. Paulo - 30/12/2011
Com dificuldades para completar as obras da transposição do Rio São Francisco, cujo custo já explodiu, o governo analisa como cobrar do consumidor do semiárido nordestino o alto preço da água. Para vencer o relevo da região, as águas desviadas do rio terão de ser bombeadas até uma altura de 300 metros. O trabalho consumirá muita energia elétrica e esse custo será repassado, pelo menos em parte, à tarifa de água, que ficará entre as mais caras do País.

Estimativas preliminares apontaram custo de R$ 0,13 por metro cúbico de água (mil litros) apenas para o bombeamento no eixo leste, entre a tomada da água do São Francisco, no município de Floresta (PE), até a divisa com o a Paraíba. Nesse percurso, haverá cinco estações de bombeamento, para elevar as águas até uma altura maior do que o Empire State, em Nova York, ou do tamanho da Torre Eiffel, em Paris, ou ainda 96 metros menor do que o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. O maior arranha-céu de São Paulo nem chega perto.

A estimativa de custo do bombeamento da água no eixo leste foi feita pelo Ministério da Integração Nacional e projetava o início do funcionamento dessa parte da transposição ainda em 2010. Como a obra só deve começar a operar completamente em dezembro de 2015, conforme a última previsão do ministério, o custo deverá aumentar.

Sem revisão, o valor já representa mais de seis vezes o custo médio da água no País. Novo estudo sobre o custo foi encomendado à Fundação Getúlio Vargas.

Imbróglio. Trata-se de uma equação não resolvida. O governo federal se comprometeu a bancar o custo total da obra, estimado inicialmente em R$ 5 bilhões e que deverá alcançar R$ 6,9 bilhões, mas não definiu como financiar a operação do projeto, com a manutenção dos canais e o consumo de energia para o bombeamento.

O custo da construção já inclui a estimativa de gasto de mais R$ 1,2 bilhão para concluir um saldo de obras entregues a consórcios privados que não conseguirão entregar o trabalho, como revelou o Estado na edição de ontem.

O Ministério da Integração Nacional, responsável pela obra, não se manifesta, por ora, sobre a concessão de subsídio à água a ser desviada do Rio São Francisco para abastecimento humano e também para projetos de irrigação e industriais, segundo informa o último Relato de situação do projeto da transposição.

O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), também não acredita em subsídio direto por parte dos Estados: "O custo pela água efetivamente consumida pelos Estados deverá ser rateado entre o ente estadual e os consumidores finais, seja para consumo humano ou para outros usos, como a irrigação". A União e os Estados assumiriam o custo de manutenção e conservação dos canais e bombas, completou o governador.

O assunto é debatido com os quatro Estados que receberão as águas transpostas do São Francisco: além da Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. As companhias de abastecimento desses Estados deverão integrar um consórcio comandado pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) para administrar o projeto, segundo proposta em discussão no Ministério da Integração.

Consórcio. Até o final do governo Lula, o ministério trabalhava com a hipótese de criação de uma nova estatal para gerir a transposição. Agora, a equipe do ministro Fernando Bezerra trabalha também com a possibilidade de uma parceria público-privada para administrar a distribuição da água e a manutenção da infraestrutura da transposição.

Mas essa PPP enfrentaria dificuldades para se viabilizar, como a "alta complexidade institucional e financeira", aponta documento do ministério. A formação de um consórcio público, em estudo, dependeria de autorização de leis federais e estaduais.

O centro de controle do projeto já tem localização definida, no entanto. Será no município de Salgueiro, em Pernambuco, que também abriga a última estação de bombeamento do eixo norte.

A transposição do Rio São Francisco prevê a construção de mais de 600 quilômetros de canais de concreto em dois grandes eixos para o desvio das águas. Ao longo do caminho, o projeto prevê a construção de nove estações de bombeamento de água. No eixo norte, haverá três estações de bombeamento, que elevarão as águas até uma altura de 180 metros. Depois da fronteira com o Ceará e no Rio Grande do Norte, o eixo contará com a gravidade para levar as águas. Com isso, o custo final da água deverá ser menor do que no eixo leste.

De acordo com o Ministério da Integração, os equipamentos para o bombeamento da água já foram encomendados. Relatório da pasta registra 77,8% de avanço no cronograma de compra de bombas e demais equipamentos, com R$ 459 milhões já desembolsados, de um total de R$ 2,8 bilhões que a transposição do rio custou até aqui.

A obra faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). É o projeto mais caro bancado com dinheiro da arrecadação de impostos. A primeira fase de operação deverá ser iniciada, no eixo leste, só ao final de 2012.

CUSTO EXPLODE E OBRA DO S. FRANCISCO TERÁ LICITAÇÃO DE R$ 1,2 BI

GOVERNO FARÁ LICITAÇÃO DE R$ 1,2 BI PARA SALVAR TRANSPOSIÇÃO E EVITAR PARALISIA
Autor(es): MARTA SALOMON
O Estado de S. Paulo - 29/12/2011
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/12/29/custo-explode-e-obra-do-s-francisco-tera-licitacao-de-r-1-2-bi
 

Ministro diz que vai refazer contratos da transposição do rio porque consórcios precisariam receber até 60% a mais; gasto com projeto chega a R$ 6,9 bilhões
O governo Dilma Rousseff lançará duas novas licitações no valor total de R$ 1,2 bilhão para terminar trechos da transposição do Rio São Francisco já entregues a consórcios privados, informa a repórter Marta Salomon. Iniciado em 2007, o projeto já consumiu R$ 2,8 bilhões, mas tem trechos parados e outros que precisarão ser refeitos. O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, calcula que o custo inicial da obra saltou de R$ 5 bilhões para R$ 6,9 bilhões. As novas licitações foram a forma encontrada por Bezerra para driblar um problema: os consórcios não conseguiriam terminar o trabalho mesmo que o valor aumentasse 25%, limite legal para aditivos em contratos. "Vimos que teríamos de fazer aditivos de até 60%", disse o ministro, que admitiu erros no projeto, como a número insuficiente de sondagens de solo.


Para tentar terminar as obras da transposição do Rio São Francisco em mais quatro anos, o governo Dilma Rousseff recorrerá a uma nova licitação bilionária de obras já entregues à iniciativa privada. O custo estimado do negócio é de R$ 1,2 bilhão, informou ao Estado o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, responsável pela obra mais cara do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) bancada com dinheiro dos impostos.

A obra começou em 2007 como um dos grandes projetos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A transposição desviará parte das águas do São Francisco por meio de mais de 600 quilômetros de canais de concreto para quatro Estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Depois de R$ 2,8 bilhões gastos, a transposição registra atualmente obras paralisadas, em ritmo lento e até trechos onde os canais terão de ser refeitos, como é o caso de 214 metros em que as placas de concreto se soltaram por entupimento num bueiro de drenagem. As falhas foram testemunhadas por reportagem do Estado, no mês passado.

O custo inicial da transposição, estimado em R$ 5 bilhões, já saltou para R$ 6,9 bilhões, calcula Fernando Bezerra, incluindo a nova licitação. "Só vamos ter certeza do valor quando concluirmos o processo licitatório e fecharmos os contratos", avalia o ministro. Ele espera lançar as novas licitações até março.

Relicitar parte dos trechos entregues a grupos de empreiteiras foi a forma que a equipe de Bezerra encontrou para concluir as obras e evitar que a transposição do São Francisco se transforme em um elefante branco.

Os oito consórcios privados, responsáveis por 12 lotes da obra, não conseguiriam terminar o trabalho para a qual foram contratados mesmo que o valor pago fosse aumentado em 25%, limite legal autorizado para aditivos contratuais. O ministro optou, então, por eliminar parte das tarefas previstas originalmente em contratos. Os consórcios receberão apenas pelo serviço feito. "Todos toparam", conta Fernando Bezerra. "Houve uma negociação e uma negociação que não foi fácil", destaca.

Desde que assumiu o cargo, no início do ano, Fernando Bezerra tenta renegociar os contratos. "Numa primeira avaliação, vimos que teríamos de fazer aditivos de até 60%", disse o ministro. "Não diria que foi erro de projeto, mas o projeto básico não estava detalhado e foi incapaz de identificar as situações de campo. O número de sondagens foi insuficiente para garantir o tipo de solo que seria encontrado", alegou.

Fernando Bezerra tenta negociar com o Tribunal de Contas da União (TCU) um reajuste maior do que o limite legal, de 25%, para a manutenção do consórcio responsável pelo lote número 14, que envolve a construção de túneis. "Seria uma exceção, porque os túneis são máquinas caras, a mobilização de novo maquinário não seria vantajosa. Seria importante ir com o aditivo acima dos 25%", argumenta.

Os outros sete consórcios já teriam sido chamados a renegociar o que o ministro chama de "aditivos supressivos". Eles fazem menos do que o planejado, recebem menos do que o previsto e passam o serviço adiante.

Bezerra defende a licitação de dois saldos remanescentes de obras, um no eixo Norte e outro no eixo Leste. "O ideal seria termos dois pacotes de obras complementares", avalia.

No eixo Leste, que Lula gostaria de inaugurar ainda durante seu mandato no Planalto, ainda faltam 30% das obras. A nova previsão é inaugurar no final do mandato da presidente Dilma Rousseff. Já o eixo Norte tem menos de metade das obras concluídas, e a inauguração ficaria para dezembro de 2015.

Fernando Bezerra insiste em que as obras não ficarão paradas à espera da nova licitação. Entre maio e novembro de 2012, a obra ganhará ritmo mais acelerado, imagina, com a conclusão de obras nos lotes tocados pela iniciativa privada e a chegada dos novos empreiteiros. Insiste também que trechos mal feitos serão reconstruídos sem custo extra para o governo. "Apesar de todas as dificuldades, foi ano positivo para a transposição."

domingo, 23 de outubro de 2011

Nos limites da terra

23/10/2011
 

 
A história do ambientalista Lester Brown, fundador do instituto Earth Policy, em Washington, e ex-analista da Secretaria de Agricultura do governo americano, começa numa pequena fazenda no sul de New Jersey, onde ele plantava tomates. Hoje com 77 anos, Brown ainda se orgulha de como aos 17 começou com o irmão mais novo, Carl, de 14, o cultivo que produziria 700 t de tomate numa safra particularmente boa em 1958. "Foi uma adolescência bem divertida", lembra o economista, um dos responsáveis pela popularização da ideia de desenvolvimento sustentável nos Estados Unidos.

A reportagem e a entrevista é de Carolina Rossetti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-10-2011.

Em 1974, Lester Brown fundou o Worldwatch Institute, primeiro centro de pesquisa do mundo dedicado a questões ambientais, do qual foi presidente por 26 anos. Estudioso de segurança alimentar, mudanças climáticas e energia renovável, ele foi eleito pela revista Foreign Policy um dos pensadores mais importantes de 2010. Na semana do Dia Mundial da Alimentação das Nações Unidas, segunda-feira, Brown falou sobre seu "plano B" para evitar um colapso dos recursos naturais do planeta

Parte do plano consiste em maneiras sustentáveis para dar de comer a 8 bilhões de pessoas em 2050. "Só hoje à noite teremos mais 219 mil pessoas no jantar", preocupa-se. "Os fazendeiros não estão dando conta dessa demanda, pressionados pelas mudanças do clima e a falta de água para irrigação. Neste ano esperávamos uma melhora, mas de novo os estoques de grãos estão baixos e os preços, altos. A escassez pode ser o novo normal."

Com um livro publicado no começo do ano, World on the Edge, pela editora W. W. Norton & Company, elogiado pelo ex-presidente Bill Clinton ("Devemos prestar atenção aos conselhos de Lester Brown"), o economista já trabalha em outros dois: um estudo sobre energias renováveis e uma autobiografia com lições tiradas da fazenda em New Jersey, onde os tomates deram lugar à soja, "para alimentar os chineses".

A geopolítica da escassez

"
No final de 2007 e início de 2008, a provisão de alimentos estava apertada e os preços dos grãos subiram drasticamente. Alguns dos principais produtores reduziram as exportações para manter o custo nacional sob controle. Rússia e Argentina, grandes exportadores de trigo, restringiram as vendas; Vietnã, o segundo maior exportador de arroz, proibiu a exportação por meses. Muitos países que dependem da importação de alimentos perceberam que não podem mais contar com o mercado. Foi então que, em 2008, Arábia Saudita, China, Coreia do Sul, começaram a comprar ou arrendar terra em outros países, particularmente na África, mas também na América Latina e Sudeste da Ásia, a fim de produzir alimentos para si. Os principais destinos de compra foram Etiópia e Sudão, onde milhões de pessoas são sustentadas com comida do Programa Mundial de Alimentos da ONU. A competição por terra e água em nível internacional é uma manifestação precoce da nova geopolítica da escassez. Essa não parece ser uma situação temporária, mas uma que pode se prolongar indefinidamente. No ano passado, depois da onda de calor na Rússia houve uma grande redução da colheita de grãos e os preços dispararam de novo. Em 2011, estávamos com a expectativa de restabelecer os estoques. Como os preços estavam altos na época do plantio, produtores plantaram mais e usaram mais fertilizantes que no ano anterior. Ainda assim, não conseguiram dar conta da demanda e os estoques de grãos continuam e o baixos e os preços, altos. Estamos mais vulneráveis a mudanças climáticas e ao impacto de desastres naturais sobre as plantações. Nessa situação instável, um novo mecanismo para estabilizar os preços de grãos é necessário. Talvez algo como um Banco Mundial de Alimentos, que poderia garantir alguma estabilidade. Seria uma reserva internacional de grãos, para regulamentar o sobe e desce dos preços dos alimentos. Um órgão independente, multilateral, com representantes dos países produtores e exportadores de alimentos. É uma ideia. [O Banco Mundial é quem financia essa especulação sórdida, na verdade.]

Alimentando 8 bilhões

"Durante a maior parte do último meio século, os Estados Unidos tiveram um superávit de grãos e a Secretaria de Agricultura pagava aos produtores para que não plantassem em toda a extensão de suas propriedades. A quantidade de hectares posta de lado era ajustada todo ano de acordo com o mercado. Se uma monção na Índia ou uma seca na antiga União Soviética forçasse a subida do preço de grãos, os americanos retomavam o cultivo das terras em stand-by e a situação se estabilizava. Mas agora produzimos no limite da capacidade. Não há mais terra fértil ociosa e desocupada nos Estados Unidos. Perdemos a margem de segurança na economia mundial de alimentos. Não há mais jeito fácil de aumentar a produção quando os estoques encolhem. Os fazendeiros não estão dando conta da demanda, pressionados ainda pelas mudanças no clima e a falta de água para irrigação. São 80 milhões de pessoas a mais por ano no mundo, o que significa que só hoje à noite precisamos abrir espaço para 219 mil pessoas na mesa de jantar. Em 2050, serão 8 bilhões, segundo a ONU. Além do crescimento populacional, muita gente, particularmente na China, está tentando subir na cadeia alimentar e consumir mais grãos, carne, ovos e leite. Esse cenário, em que nunca temos o suficiente e o preço dos alimentos é flutuante, mas com uma tendência de alta, pode se tornar crônico. A escassez então seria o novo normal. Isso pressionará ainda mais as família de baixa renda, que hoje já gastam de 50% a 70% de seu dinheiro em comida. Nas décadas finais do século passado o número de pessoas com fome estava em declínio, caindo para o patamar de 825 milhões na virada do século. Mas no início do século 21, com o aumento do preço dos alimentos e a escassez nos celeiros do mundo, a fome voltou a crescer, atingindo hoje o desastroso recorde de 1 bilhão de pessoas.

Índia e China, bolhas de 'overpumping'

"Os países em situação mais preocupante são Índia e China. Em breve a Índia sofrerá uma queda na produção de alimentos. Segundo o Banco Mundial, 175 milhões de indianos (e 130 milhões de chineses) dependem de grãos produzidos com overpumping, a superexploração dos lençóis freáticos responsável por uma bolha de produção de alimentos que explodirá quando os aquíferos se esgotarem. A produção vai cair ao nível sustentável de acordo com a capacidade hídrica da Índia, que é inferior ao necessário para alimentar 1,1 bilhão de pessoas. O que a China está tentando, desesperadamente, é se manter mais ou menos autossuficiente na produção de grãos, com sacrifício da produção de soja e investimento em outros cultivos. Por ano, os chineses consomem 70 milhões de toneladas de soja - não só como tofu, mas principalmente como ração de aves e porcos - e só produzem 14 milhões. Por isso em quase todo o Ocidente planta-se mais soja que trigo ou milho. No Brasil, a produção de soja é maior que a de todos os outros grãos juntos. Nos Estados Unidos temos mais soja que trigo. Na Argentina a situação é ainda pior e a proporção chega ao dobro em relação aos demais grãos. O país virou praticamente uma monocultura de soja. E como é difícil aumentar o rendimento da produção de soja por hectare, só conseguimos mais soja ampliando a área de plantio.

Trabalhando a terra

"Nos países com agricultura avançada os fazendeiros estão alcançando os cientistas. Vemos isso na produção de arroz no Japão, um dos primeiros países a conseguir um aumento sustentável da produtividade de grãos. Depois de subir por um século, o rendimento por hectare de arroz no Japão não tem aumentado há 16 anos. Atingiu-se o limite. Na China o rendimento de grãos aumentou, mas podemos esperar um nivelamento similar ao Japão. O mesmo se dá na França, Inglaterra e Alemanha: o plantio de trigo também chegou ao limite da eficiência fotossintética. Mas hoje a palavra-chave é água. O mundo até que foi bem-sucedido em aumentar a produtividade da terra. De 1950 a 2010 triplicamos o rendimento de grãos por hectare, mas fizemos muito pouco para otimizar o uso de água.

Conselho a José Graziano, da FAO

"A FAO não é um braço forte das Nações Unidas e não tem um papel proeminente na economia mundial de alimentos como, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem no controle de doenças infecciosas. A FAO produz relatórios. Uma das coisas que José Graziano (brasileiro que será o próximo diretor da FAO a partir de 2012) precisa fazer é investir na educação e informar o mundo sobre o momento que vive a agricultura mundial, para mostrar como a água está escassa e como isso logo poderá se traduzir em escassez de comida. Ele precisa também focar na questão populacional. Há uma tradição de a FAO nunca mencionar a necessidade de mudança rápida para famílias menos numerosas, até porque isso aumenta o orçamento de outra agência e não o dela. Mas precisamos dar particular atenção aos 215 milhões de mulheres do Sul da Índia e África Subsaariana que não têm acesso a nenhum tipo de planejamento familiar.Graziano precisa falar sobre a relação entre mudanças climáticas e segurança alimentar. As decisões tomadas nos ministérios de energia têm mais efeito sobre o futuro da segurança alimentar do planeta que as tomadas nos ministérios de agricultura. NosEstados Unidos, por exemplo, 124 milhões dos 400 milhões de toneladas de grãos produzidas foram para as destilarias de etanol em 2010. É uma situação totalmente nova. Quem está no topo da FAO terá responsabilidade de trabalhar com os ministérios de energia, transporte, meio ambiente e recursos hídricos, não só os da agricultura. Uma abordagem estreita e tradicional do dilema da segurança alimentar do mundo pode ser, neste momento, desastrosa.

Controlando as porções

"Em paralelo a tudo isso que discutimos, há importantes revoluções alimentares acontecendo no mundo em âmbito local. A pressão por produtos mais frescos, saborosos, nutritivos e saudáveis está crescendo. A produção local de alimentos ganha atenção nos Estados Unidos. Soluções como as hortas urbanas e as feiras de pequenos produtores estão, felizmente, se expandindo há anos. Tem gente que brinca que, com o aumento do preço do petróleo, as enormes saladas ceasar estão com os dias contados aqui na costa leste dos EUA, pois a alface vem da Califórnia e vai chegar o dia em que essa viagem se tornará cara demais. Em parte isso é verdade. Outro ponto importante é a questão do desperdício. Há meio século falamos sobre a necessidade de reduzi-lo. Sabe-se que grande parte do desperdício de alimentos se dá na estocagem por causa de celeiros ruins, sujeitos a chuva e insetos. Mas há outras formas de desperdício. Os restaurantes americanos servem pratos enormes como se ainda fôssemos uma nação de trabalhadores braçais, quando, na verdade, somos um país de funcionários de escritório. Ou o excedente vai para o lixo ou a pessoa come mais do que precisa, o que é também uma forma de desperdício. E aí temos outro grave problema que atinge tanto países desenvolvidos quanto subdesenvolvidos: a obesidade.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Contra crença de escassez, produção alimentar pode dobrar junto a maiores rios do mundo

  Comentários :: Publicado em 28/09/2011 na seção noticias :: Versões alternativas: Texto PDF




Estudo inédito lançado no Congresso Mundial da Água, no Brasil, mostra que maiores bacias do mundo têm capacidade de dobrar produção alimentar até 2050. O Rio São Francisco faz parte da solução. O ponto de partida era a anunciada crise mundial de alimentos e escassez de água. As projeções mostravam que as bacias dos principais rios estavam sob enorme pressão para produzir comida e água para uso doméstico, industrial e energético, e que uma catástrofe estava por vir.

"Mas o que descobrimos foi que, na verdade, as dez principais bacias do mundo, todas localizadas em países emergentes, têm capacidade para duplicar a produção alimentar até 2050 -- e de forma sustentável", revelou Simon Cook, que dirigiu um estudo inédito sobre o tema.

Essa é uma das conclusões da pesquisa feita pelo Challenge Program on Water and Food (CPWF) e do Grupo Consultivo para a Investigação Agrícola Internacional (CGIAR, na sigla em inglês). O relatório foi apresentado no dia 26 de setembro de 2011 no Congresso Mundial da Água, sediado até o dia 29 em Pernambuco, no Brasil.

E a bacia do rio São Francisco, como revela o estudo, tem grande potencial para ser parte do celeiro do mundo. Além do rio brasileiro, outros nove, entre eles Nilo, Ganges, Andes, Amarelo e Níger, têm água suficiente para abastecer mercados de todo o globo.

Segundo os pesquisadores, o maior potencial está na África. Na América Latina, por outro lado, apenas 10% da capacidade total são aproveitados atualmente. O estudo investigou, ao longo de cinco anos, a situação em dez bacias: uma área de 13,5 milhões de quilômetros quadrados que abriga cerca de 1,5 bilhão de pessoas - 470 milhões estão entre os mais pobres do mundo.

EM ÁGUAS BRASILEIRAS

A bacia do rio São Francisco ocupa 7,5% do território do Brasil - são 640 mil km2 de área num traçado que corta os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe e engloba ainda parte de Goiás e do Distrito Federal.

As principais atividades econômicas na região são mineração e siderurgia, agricultura e pecuária. No vale do rio, onde há irrigação especialmente no semi-árido, a produção é exportada para Estados Unidos e Europa. "O caso do São Francisco é muito interessante porque há dois sistemas que convivem. Um altamente comercial, operando em alto nível de atividade, e também os pequenos produtores, que sofrem com falta de investimento", comentou Cook.

Na bacia, onde residem cerca de 16 milhões de pessoas, 23% da população vive em área rural. Dados do governo brasileiro indicam que a região tem 35,5 milhões de hectares agricultáveis e a produção se concentra no cultivo de soja, milho e pecuária - com ênfase na bovinocultura e caprinocultura.

Simon Cook lembra, no entanto, a existência de conflitos em torno do uso da água. "Um bispo, por exemplo, fez greve de fome duas vezes por causa do projeto de transposição do São Francisco", diz o pesquisador, lembrando o caso de Dom Luís Flávio, que, em protesto, parou de comer pela primeira vez em 2005.

"Há um grande impulso para intensificar a agricultura irrigada pela chuva também no São Francisco", acrescenta Cook, defendendo que o mundo poderia ser alimentado sem que a pressão sobre as bacias hidrográficas aumentasse.

DESVIO DAS ÁGUAS

Chamado pelo governo brasileiro de Projeto de Integração do Rio São Francisco com Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional, o empreendimento é coordenado pelo Ministério da Integração Nacional. O objetivo é "a assegurar oferta de água, em 2025, a cerca de 12 milhões de habitantes de 390 municípios do Agreste e do Sertão dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte", justifica o governo.

Orçada inicialmente em 5 bilhões de reais, a obra de transposição deve ficar em 6,85 bilhões, segundo informou o ministério em agosto de 2011. A construção dos 750 km de canais de concreto que levarão águas do São Francisco para as outras regiões começaram em 2007. A mais recente previsão oficial indica que o primeiro eixo da transposição entrará em funcionamento nos últimos meses de 2014.

FONTE

Deutsche Welle
Autora: Nádia Pontes
Revisão: Roselaine Wandscheer