terça-feira, 12 de abril de 2011

Com inflação, emergentes flertam com derrota na disputa cambial

Autor(es): John Authers | Financial Times
Valor Econômico - 11/04/2011
 

Para que serve a guerra cambial? Absolutamente para nada. Isso, pelo menos, poderia ser a moral da história dos últimos dias para o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega. Mais do que qualquer outro, ele veio a personificar a inquietação dos países emergentes com a desvalorização do dólar e alta de suas próprias moedas.
O cenário dificulta a situação para as economias emergentes sustentadas pelas exportações, enquanto ao mesmo tempo proporciona um impulso artificial para os Estados Unidos. Mantega reclamou sobre esse suposto comportamento de guerra de forma mais agressiva do que qualquer outro - assim como também foi o que mais fez a respeito.
O impacto, no entanto, foi mínimo: o real brasileiro continua sua trajetória ascendente em relação ao dólar e Mantega, no fim das contas, acabou tentando negociar uma trégua, ao admitir na semana passa que a "valorização do real é inevitável".
O mercado levou sua palavra ao pé da letra e o real agora está em seu maior patamar desde o terceiro trimestre de 2008. Para chegar ao recorde dos tempos de câmbio flutuante, atingido na bolha dos mercados emergentes que precedeu a crise mundial de 2008, falta uma alta de menos de 1%. O Brasil não está sozinho. As autoridades da Coreia do Sul tentaram limitar o avanço do won sul-coreano em relação ao dólar, mas a moeda está em seu maior patamar em dois anos e meio.
Sem contar os mercados emergentes, o valor do dólar em relação a uma cesta de moedas dos seis principais parceiros comerciais dos EUA está 6% acima de sua mínima atingida pouco antes da quebra do Lehman Brothers.
O euro valorizou-se 8,6% em relação ao dólar neste ano - algo impressionante na semana em que Portugal pediu socorro financeiro para ajudar a pagar suas dívidas soberanas. Muitos consideram o ouro como a moeda de última instância. O preço do metal também indica que o dólar está degradado, tendo atingido recorde em termos nominais nesta semana.
Qual o fator mais importante que continua puxando o dólar para baixo? Há vários. Dois fatores de curto prazo se somaram na semana passada. O impasse em Washington sobre o orçamento nos EUA, com a possível paralisação parcial do governo, continuava quando esta coluna era escrita. As questões políticas da paralisação vêm mostrando-se melodramáticas e seus possíveis feitos vêm sendo superestimados, mas claramente enfraqueceram o dólar.
O segundo é o cenário das taxas de juros. Chegaram ao fim na última semana dois anos de inatividade total no front das taxas dos maiores bancos centrais ocidentais, após o Banco Central Europeu (BCE) elevar seus juros básicos de 1% para 1,25%. O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), cuja taxa dos fundos federais está entre 0% e 0,25%, ainda tem alguns meses pela frente antes de elevar os juros. A elevação não foi surpresa, mas ainda assim foi de grande relevância. É a primeira vez em sua história relativamente curta que o BCE assume a liderança e inicia um ciclo de aperto de política monetária, em vez de esperar pelo Fed. Há espaço para debate entre os chamados "falcões" e "pombos" no combate à inflação, mas claramente o BCE é uma aposta melhor que o Fed na elevação dos juros e combate à inflação; e nos dois aspectos, isso sinaliza um euro mais forte e um dólar mais fraco.
Em termos mais amplos, a fraqueza do dólar é a melhor forma que o mercado encontrou para expressar seus receios com a inflação e seus efeitos diferenciais. Os preços das commodities estão nas alturas - o petróleo bruto do tipo Brent subiu cerca de 30% no ano e 245% desde a mínima atingida no fim de 2008.
Essa inflação aflige o mundo emergente, mas - ainda - não o mundo desenvolvido. Os países atingidos pela inflação precisam elevar as taxas de juros. Isso impulsiona suas moedas em relação ao dólar, divisa de uma economia que apesar de alguns sinais de vida, ainda parece bastante anêmica. A própria valorização cambial, como disse Mantega na semana passada, ajuda no combate à inflação.
Isso não impediu uma impressionante recuperação pós-crise dos mercados acionários. O índice de ações FTSE-All World dobrou nos últimos dois anos. Essa conta, no entanto, é baseada no dólar. Seria mais preciso, talvez, ver o mundo pela perspectiva do real brasileiro. Essa alta dos últimos dois anos foi baseada em taxas de juros excepcionalmente baixas no mundo e levou ao aumento dos preços das commodities. São fatores que abatem os ganhos aparentemente sólidos feitos pelos investidores com dólares e, para os investidores baseados no real, deixam uma alta, desde o ponto mais baixo do mercado acionário há dois anos, de pouco mais de 20%.
Se agora os emergentes estão admitindo uma derrota na guerra cambial e deixando suas moedas se valorizarem, isso implica em algo ainda pior. Os que impulsionaram a grande recuperação estão se sobreaquecendo.

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