Vivendo em negação
| Autor(es): Alexandre Schwartsman |
| Valor Econômico - 03/02/2011 |
Se houvesse um campeonato mundial de negação da realidade, não tenho dúvidas que algumas autoridades nacionais seriam fortes candidatas ao título. À luz da aceleração recente da inflação, mesmo em face de sinais inequívocos de sobreaquecimento da economia, ainda há quem busque em fatores externos a explicação para o forte desvio da inflação relativamente à meta, que, a valerem as expectativas, deverá se repetir em grande estilo também em 2011. A última novidade no quesito "não é minha culpa" atribui ao aumento do preço internacional de commodities a aceleração inflacionária. À primeira vista a lógica do argumento parece impecável. Preços de commodities (medidos pelo CRB) não apenas se encontram 40% acima de sua média de 2006 para cá, mas também o grosso do aumento se concentrou nos últimos seis meses, quando os preços subiram pouco mais de 25%. No entanto, o que interessa para a inflação local não são os preços de commodities em dólares, mas sim seus preços em reais. Estes aumentaram quase 20% no mesmo período, o que mostraria inequivocamente o papel do choque externo nos preços domésticos, levando à conclusão inevitável que, contra este pano de fundo, pouco (ou nada) caberia ao Banco Central fazer. Entretanto, quem examinar o período anterior aos últimos seis meses notará que o comportamento recente dos preços de commodities em reais parece anômalo. Com efeito, entre o começo de 2006 e o terceiro trimestre de 2010 os preços locais de commodities apresentaram um desempenho bastante distinto dos preços internacionais. Enquanto estes últimos subiram de maneira quase ininterrupta de 2006 até a eclosão da crise internacional, os preços em reais permaneceram dentro de um intervalo relativamente estreito (em torno da média do período acrescida de uma margem de variação de 10%). Da mesma forma, quando a crise levou ao colapso dos preços internacionais de commodities e a recuperação mundial subsequente os fez retomar a trajetória ascendente, os preços em reais continuaram teimosamente dentro do mesmo intervalo (com uma pequena e breve exceção), até escapar de forma marcante a partir do último trimestre de 2010. Em outras palavras, até muito recentemente não só a volatilidade local era muito menor que a internacional, mas mesmo a tendência internacional de alta não parecia se materializar domesticamente (preços locais passaram quase 5 anos "andando de lado"). O que explicaria este padrão? A resposta, é claro, reside na conhecida relação entre a taxa de câmbio e preços de commodities. Como já tive oportunidade de explorar em mais de uma ocasião, o real tende a se fortalecer quando preços de commodities se elevam. Este comportamento reflete, por sua vez, a relação entre esses preços e os termos de troca brasileiros (a razão entre os preços das coisas que exportamos e as que importamos), que, devido ao peso de commodities na pauta exportadora, tendem a melhorar quando os preços de commodities aumentam. Estimações que fiz com Tatiana Pinheiro sugerem que um aumento de 10% nos preços de commodities tende a apreciar o real em torno de 6%, fenômeno que dissiparia grande parte do aumento internacional quando expresso em moeda local (neste caso, por exemplo, preços locais aumentariam pouco menos de 3,5%). Não por acaso, portanto, a volatilidade dos preços locais é cerca de 40% da volatilidade externa. A partir do último trimestre de 2010, porém, esta regularidade parece ter se rompido, como expresso pela "fuga" dos preços locais do intervalo em que estiveram confinados por quase cinco anos. Não deve escapar aos observadores mais atentos que este comportamento se materializou justamente no período em que o governo - sob o pretexto de combater a "guerra cambial" - intensificou suas intervenções (incluindo as administrativas) sobre a taxa de câmbio. Embora a intervenção em si pareça inócua em períodos mais longos (como sugerido pelo meu trabalho com Tatiana Pinheiro), a sequência de medidas e o receio do mercado quanto à possibilidade de novas interferências têm, aparentemente, evitado no curto prazo uma apreciação mais vigorosa do real, a despeito do aumento dos preços de commodities. Trata-se, contudo, de uma vitória de Pirro, pois impede que o mecanismo de dissipação do choque externo funcione, permitindo a transmissão integral da elevação de preços em dólares. Posto de outra forma, não é o aumento dos preços internacionais que tem acelerado a inflação, mas sim a inconsistência das políticas monetária e cambial, que buscam objetivos conflitantes (câmbio estável e inflação sob controle) sob as condições atuais, fato que deixa clara a responsabilidade das autoridades locais na aceleração da inflação. Caso estas continuem a negar este fenômeno, o resultado será apenas o acirramento das pressões inflacionárias, e o risco real de perder a meta de inflação em 2011. Alexandre Schwartsman - economista-chefe do Grupo Santander Brasil, doutor em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil |
Medidas cambiais importaram inflação
| Autor(es): Raquel Landim e Leandro Modé | ||||
| O Estado de S. Paulo - 10/02/2011 http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/2/10/medidas-cambiais-importaram-inflacao/?searchterm=Schwartsman,%20infla%C3%A7%C3%A3o | ||||
Antes de adotar medidas para evitar a valorização do real, a chamada âncora cambial tinha o efeito de compensar os aumentos das commodities As medidas do governo para conter a valorização do real adicionaram mais lenha na fogueira da inflação. O real forte atuava como um amortecedor interno do aumento dos preços das matérias-primas no exterior. Agora, a contaminação se tornou direta e já acendeu um sinal de alerta no Banco Central (BC) e no mercado. Em economês, se diz que o País perdeu, ao menos momentaneamente, a chamada "âncora cambial". "Desde que o ministro da Fazenda (Guido Mantega) falou em guerra cambial (em outubro do ano passado), vemos uma clara inconsistência entre a política monetária e a política cambial no País", afirmou o economista-chefe do banco Santander e ex-diretor do BC, Alexandre Schwartsman. "A política monetária tem como objetivo baixar a inflação, mas a cambial pressiona ainflação para cima", acrescentou Schwartsman. Procurado pela reportagem, o ministro Guido Mantega não quis se pronunciar sobre o tema. Durante todo o governo Lula, a valorização do real sempre contrabalançou os momentos de alta das commodities. Entre janeiro de 2009 e julho de 2010, por exemplo, o índice CRB (Commodities Research Bureau, espécie de síntese das oscilações das principais commodities) subiu 32% em dólar, mas só 1% em real. Nesse período, o dólar saiu de R$ 2,40 para R$ 1,77. "O câmbio compensou a alta das commodities", disse o economista do JP Morgan, Júlio Callegari. Intervenções. Graças às intervenções do governo brasileiro no mercado cambial, que se intensificaram a partir de outubro, com o aumento da alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o real praticamente se estabilizou. Valia R$ 1,679 em 1.º de outubro e R$ 1,674 em 31 de janeiro, ou seja, praticamente não oscilou durante quatro meses. Além das altas sucessivas do IOF, outras medidas para conter a valorização do câmbio incluem compra de reservas e redução das posições vendidas dos bancos em dólar futuro. Resultado: o amortecedor cambial quebrou e o índice CRB acelerou 26% em dólares e 19% em reais considerando o intervalo de julho de 2010 a janeiro de 2011. Um indicador do próprio Banco Central mostra que a situação pode ser ainda mais grave. A autoridade monetária começou a divulgar há dois meses um índice de commodities que inclui apenas os produtos que interessam ao Brasil. O IC-BR subiu, em reais, 9,7% entre janeiro de 2009 e julho de 2010 e expressivos 33,8% de julho de 2010 a janeiro deste ano. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), os diretores do BC reconheceram que estão preocupados com o assunto. "Os preços das commodities se elevaram, sem a contrapartida de movimentos, em sentido contrário, de ativos domésticos", informava o documento. Por ativos domésticos, leia-se taxa de câmbio. Alta das commodities turbina inflação
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''Temos de diminuir a expansão para 4%''
| Autor(es): Alexandre Rodrigues |
| O Estado de S. Paulo - 04/03/2011 http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/3/4/temos-de-diminuir-a-expansao-para-4/?searchterm=Schwartsman,%20infla%C3%A7%C3%A3o |
Para ex-diretor do BC, só um freio no crescimento fará a inflação voltar para perto do centro [br]da meta de 4,5% O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC), não tem dúvidas: a inflação vai forçar uma desaceleração da economia em 2011 para menos de 4%. Para ele, o País não tem como crescer os 5% esperados pelo governo sem superar a meta de inflação. É para comemorar a alta recorde do PIB de 7,5%? É bom, mas a gente vem de uma queda de 0,6% em 2009. Com esse resultado em 2010, a gente mais ou menos voltou à tendência de crescimento que tínhamos antes de 2008. O resultado altera as projeções para o crescimento em 2011? Reavaliamos e baixamos bem a previsão para este ano. Não que a economia esteja fraca. Se quiser trazer a inflação para baixo, é preciso diminuir a demanda, fazer com que o PIB efetivo cresça menos do que o potencial por algum período. Temos de diminuir essa velocidade do crescimento para algo em torno de 4% anualizado. Seria um ritmo sustentável? É abaixo do potencial, mas tem de ser, para trazer a inflação para baixo. Sem baixar o crescimento a menos desse número, não se consegue. Está confiante de que o governo adotará as medidas para esse ajuste? De uma forma ou de outra, alguém vai ter de fazer. A nossa projeção de inflação para este ano é de 6%. Para realmente trazer a inflação para a meta, é preciso um esforço muito maior. O governo diz esperar crescimento de 5% este ano. Se o PIB este ano crescer 5%, a inflação não vai para baixo. O consumo manteve forte alta em 2010, mesmo com as medidas de contenção. Há inconsistência na política econômica? Praticamente só há inconsistências na política econômica. Não sei qual é a surpresa em relação ao consumo, se já havia indicações das vendas do varejo em dezembro. Há um elemento que não se consegue quantificar. O governo adotou medidas de restrição de crédito no fim de 2010, cujo efeito começa a ser sentido agora. Deve trazer alguma desaceleração no consumo, Quais as inconsistências? Várias. O governo está botando o pé no freio da política monetária e no acelerador da fiscal. |
Pingos nos is
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Quarta-feira, Janeiro 10, 2007 | ||
| Alexandre Schwartsman | ||
| A expansão do gasto público impõe limites à redução adicional de juros, cujos efeitos são maiores O DEBATE econômico brasileiro é, com raras exceções, de baixa qualidade. Duas características negativas permeiam quase toda discussão: falta de quantificação e a virtual ausência de qualquer consideração acerca do uso alternativo de recursos, ou seja, do custo de oportunidade das políticas públicas. A discussão recente acerca do papel do setor público num programa de aceleração do crescimento não foge à regra: há os que defendem um aumento (adicional) do gasto público como forma de acelerar o crescimento sem atentar para os custos dessa estratégia e com base numa visão, que acredito ser equivocada, acerca da eficiência do gasto público sobre o comportamento da demanda agregada. Deixando de lado, por motivos de espaço, o papel (potencialmente relevante) do investimento público na superação de gargalos de infra-estrutura, começo pela crença de que o aumento do gasto público em geral pode ter efeitos duradouros sobre a demanda agregada. Essa visão se baseia em modelos muito simples, que costumam ignorar os efeitos da política fiscal mais expansiva sobre preços, juros e a taxa de câmbio. De fato, modelos um pouco mais sofisticados já chamam a atenção para o fato de um aumento do gasto governamental implicar pressões sobre a inflação (e, portanto, sobre as taxas de juros) e apreciação da taxa real de câmbio, em particular em situações nas quais a economia já não tem tanta capacidade ociosa. Com efeito, em condições de alta mobilidade de capital e taxa de câmbio flutuante, espera-se eficácia muito baixa do gasto público para acelerar a demanda, essencialmente por conta do efeito negativo desses gastos sobre as taxas reais de câmbio e juros. Por outro lado, esses modelos sugerem que a política monetária produz efeitos mais vigorosos. Com base nisso, buscamos (eu e minha colega Tatiana Pinheiro) estimar um modelo dinâmico que capturasse as interações entre gasto público, câmbio, juros e demanda doméstica privada (isto é, consumo e investimento) ao longo do tempo. Os resultados foram muito interessantes. De acordo com nossas estimativas, um aumento (equivalente a um desvio padrão) do gasto tende a estimular a demanda doméstica privada num período relativamente curto (apenas um trimestre), mas esse efeito, após atingir seu pico no quarto trimestre, desaparece dois trimestres depois, em larga medida devido ao seu impacto sobre as taxas reais de juros. Por outro lado, o resultado de mudanças nas taxas reais de juros é mais demorado, porém mais potente e duradouro. Com efeito, a redução (também equivalente a um desvio padrão) da taxa real de juros começa a afetar a demanda privada com cerca de dois trimestres de defasagem. No entanto, produz um efeito equivalente ao pico do gasto público (em termos de desvios padrão da demanda privada) também no quarto trimestre e, no seu próprio pico (sete a oito trimestres depois da mudança), gera um efeito cerca de três vezes maior que o gasto público, persistindo ainda por mais alguns trimestres. Em outras palavras, nossos achados empíricos dão razão aos modelos teóricos que sugerem uma relevância maior da política monetária na determinação da demanda em pequenas economias abertas com câmbio flutuante. Muito mais importante que isso, porém, são as implicações do modelo para as políticas públicas, em particular para o Brasil em 2007. A expansão do gasto público já encomendada para este ano acelera a demanda privada no curto prazo e, mesmo decaindo ao final do ano, "rouba" espaço para aceleração dessa mesma demanda que poderia vir de uma queda da taxa de juros. Isto é, ao invés de permitir -por meio da contenção do gasto público, em particular do gasto corrente- uma queda mais forte da taxa de juros, a estratégia adotada impõe limites à redução adicional de juros, cujos efeitos são potencialmente maiores e mais persistentes. Assim, em troca de uma aceleração no curto prazo, destinada a desaparecer num futuro não muito distante, abre-se mão de uma expansão que poderia vir de forma mais lenta, porém duradoura. Há, portanto, custos de oportunidade nessa estratégia de busca do aplauso fácil; ignorá-los pode ser uma forma de lidar com eles, mas não de fazê-los desaparecer. P.S.: Em resposta às muitas perguntas, eu não sei quem é Almotásim, mas, se for quem imagino, nem sequer mora no Brasil. |
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