terça-feira, 10 de maio de 2011

BIS alerta para teor tóxico de certos tipos de ETF

Autor(es): Assis Moreira | De Basileia
Valor Econômico - 09/05/2011
 
 
O Banco Internacional de Compensações (BIS), espécie de banco central dos bancos centrais, deflagrou o sinal de alerta sobre fundos de investimentos conhecidos como ETF (Exchange Traded Funds) pelo novo potencial de risco que alguns deles trazem para a estabilidade dos mercados financeiros. Os ETF são fundos de ações cujas cotas são negociadas em bolsa.
O mercado de ETF tem crescido de maneira acelerada e alcançou US$ 1,4 trilhão de ativos este ano. Representa uma pequena fatia do mercado de fundos, mas sua evolução tem sido de 40% por ano em média na ultima década, comparado a 5% para os fundos mútuos.
Os ETF são referenciados em índices de ações, como o Ibovespa, ou algum índice setorial como o imobiliário. Permitem ao investidor diversificar seu portfólio e ganhar acesso a diferentes classes de ativos pagando menos taxa pela gestão. E como são cotados nas bolsas, têm transparência.
Agora as autoridades de supervisão começaram a identificar potencial de riscos para o sistema com uma ligeira mudança no perfil do instrumento. Com as taxas de juros no seu mais baixo nível histórico, os bancos se tornaram mais criativos nas estruturas de ETFs na busca por rendimentos maiores.
Embora 75% dos ETF estejam investidos em ações, principalmente nos EUA, a variedade de produtos e complexidade aumentaram, variando de região. Os fundos se propagaram para outras classes de ativos - renda fixa, crédito, ativos de emergentes, commodities - onde liquidez e transparência são consideradas tipicamente menores.
Sobretudo, explodiram os ETF sintéticos, que usam derivativos ou produtos estruturados. Eles representando 45% desse mercado na Europa, por seu baixo custo e regulação menos restritiva no uso de derivativos. Também são muito usados nos mercados da Ásia.
Todos os ETF são suscetíveis a turbulências do mercado e problemas de liquidez, como ocorreu no "flash-crash" de maio de 2010 em Wall Street. Mas os ETF sintéticos estão sujeitos a riscos adicionais. Alem disso, surgiram vários ETF usando alavancagem, outros comprando ativos mais arriscados. Alguns tentam obter o desempenho de hedge funds ou buscam retornos no mercado de moedas.
Nesse cenário, estudo publicado agora pelo BIS faz a "desconfortável comparação" entre ETFs sintéticos e produtos estruturados como o CDO (collateralized debt obligations) que explodiram na crise financeira, pela sua complexidade e falta de transparência. E aponta paralelos entre a atual falta de compreensão dos riscos que esses fundos podem trazer e os produtos estruturados que propagaram o contágio entre diferentes ativos na crise iniciada em 2008.
Também o Instituto Internacional de Finanças (IIF), que representa os maiores bancos do mundo, alerta para a dificuldade de avaliar o risco que os sintéticos trazem e sugere que a adequação desses instrumentos aos investidores no varejo deve ser examinada cuidadosamente.
Pela rapidez com que cresceram, os ETF estão mudando os fluxos de maneira imprevisível. Os que investem em ações dos mercados emergentes alcançaram US$ 200 bilhões em 2010 comparado a US$ 1 bilhão em 2001, segundo o IIF. Os ETF de commodities representam 40% de todos os investimentos em matérias-primas. [voilà!]
Embora 30% dos ETF de renda fixa estejam concentrados em títulos públicos, o primeiro fundo de indice de empresa com grau especulativo foi lançado recentemente. Em 2010, enquanto os fundos mútuos nos EUA sofreram retirada de US$ 228 bilhões, os ETF receberam fluxo de US$ 117 bilhões. Embora os ativos de ETF representem apenas 8% da capitalização de mercado nos EUA, respondem por um quarto do volume de negócios em ações americanas. No Brasil, foram lançados apenas em 2008 na BM&FBOVESPA e representam menos de 1% do volume da bolsa, que aposta no produto para popularizar o investimento em ações. Em abril, os oito ETFs existentes alcançaram o volume recorde de negociação de R$ 942,43 milhões.
Para especialistas, um sério problema é que, diante da rapidez de desenvolvimento da fatia de ETF sintéticos, é incerto se a atual regulação será suficiente em condições de estresse do mercado para evitar que riscos de contraparte se tornarem riscos para o sistema financeiro como um todo. Alguns analistas comparam os sintéticos a "produto tóxico" e acham que o mercado não entendeu até agora toda a extensão dos riscos. O Conselho de Estabilidade Financeira (FSB), em Basileia, não vai esperar para agir.

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