quarta-feira, 11 de maio de 2011

Bovespa cai 6,76% no ano apesar das commodities

O que é que há com a bolsa?
Autor(es): Angelo Pavini e Antonio Perez | De São Paulo
Valor Econômico - 10/05/2011
 

Apesar dos bons resultados das empresas, da perspectiva de continuidade do crescimento do país e da alta das commodities, o Índice Bovespa acumula queda de 6,76% no ano. Ao mesmo tempo, na bolsa americana, o índice Standard & Poor"s 500 sobe 7,05%. E mesmo em relação aos países emergentes a bolsa brasileira perde, como mostra o índice MSCI Emergentes, com alta de 0,96%.

Algo está fora de ordem na bolsa brasileira. Apesar dos resultados bons das empresas, da perspectiva de continuidade do crescimento do país e do cenário de alta das commodities, o Índice Bovespa, que reúne os principais papéis do mercado, acumula queda de 6,76% no ano. Ao mesmo tempo, na bolsa americana, o índice Standard & Poor"s 500 sobe 7,05%. E, mesmo em relação aos países emergentes, a bolsa brasileira perde, como mostra o índice MSCI Emergentes, com alta de 0,96%. Aos 64.621 pontos, o índice Bovespa está nos níveis de agosto de 2008.
Uma parte dessa frustração tem a ver com as projeções do início do ano, lembra Frederico Sampaio, vice-presidente responsável pelos fundos de renda variável da Franklin Templeton Investimentos Brasil. "As commodities deveriam ir bem com a recuperação dos países desenvolvidos e, com o peso das empresas ligadas às matérias-primas no Ibovespa, especialmente petróleo e mineração, o índice deveria subir", explica. Isso apesar de o Brasil e outros emergentes estarem crescendo menos para controlar a inflação.
As previsões se confirmaram, e as commodities dispararam. Mas fatores locais impediram que o efeito da alta puxasse o Ibovespa. Apesar da alta do petróleo Brent de 21,85% no ano, por exemplo, a Petrobras cai 8,92% no ano no caso da ação preferencial (PN, sem voto). "O papel foi um desastre em relação aos seus pares internacionais, pois, em abril, os investidores perceberam que, atendendo ao governo, a estatal não ia repassar o aumento do petróleo para os preços locais, e a alta ia virar custo", diz Sampaio. Isso comprometeu cerca de 20% do Ibovespa.

Outro impacto veio da Vale. A empresa vai muito bem no ano, com a alta do minério. Mas seu papel PNA cai 6,55% em 2011. "Há o receio com a intervenção maior do governo na empresa", diz o gestor. E aí foram pelo ralo mais 15% do índice.
O resultado é que a Vale está barata, diz Sampaio, negociada com um preço que equivale a seis vezes seu lucro projetado, a chamada relação Preço/Lucro, que dá uma ideia em anos do retorno do investimento. Os bancos também estão sofrendo pela ameaça de novas medidas macroprudenciais do governo. "Mas se o governo não lançar nenhuma medida drástica, os papéis estão interessantes, caso do Banco do Brasil, que está sendo negociado a sete vezes o lucro e um retorno em dividendos de 5% ao ano", diz Sampaio.
Para o executivo, há uma divergência entre o cenário macro, da economia, e o micro, das empresas. "As empresas estão baratas, aumentando o lucro, mas as incertezas com a economia local e externa não deixam os papéis subirem", diz Sampaio, que estima um crescimento de 20% nos lucros deste ano. "Com esses preços, acho difícil a bolsa cair mais". Para ele, esta é a hora de se conseguir boas oportunidades.
A chave para entender o desempenho negativo da bolsa brasileira nos últimos tempos está na alta das commodities e nas pressões inflacionárias dela derivadas, afirma Lika Takahashi, estrategista-chefe da Fator Corretora. "E mais inflação leva a aperto monetário, com crescimento menor, o que é ruim para a bolsa", afirma.
No caso da Bovespa, diz Lika, esse movimento global foi potencializado pelas dúvidas envolvendo a política econômica da presidente Dilma Rousseff, que apostou em uma mistura de medidas macroprudenciais, como controle de crédito, e altas graduais da taxa de juros para conter a inflação.
Isso tudo acabou com as projeções otimistas que circulavam no mercado no fim do ano passado, de crescimento de 4,5% este ano, com juros abaixo de 12%, diz Lika. "Acho que o crescimento vai ser menor, de 3,5%, e os juros vão subir mais", acrescenta.
Lika acredita que haverá uma revisão, por boa parte do mercado, de projeções para o preço-alvo de diversos papéis e para o próprio Ibovespa após o fim da temporada de balanços do primeiro trimestre. Apesar do ambiente de crescimento menor, a estrategista da Fator projeta Ibovespa aos 75 mil pontos no fim do ano, valorização potencial de 16% ante o fechamento de ontem. Tachada muitas vezes de pessimista, Lika diz que sua aposta pode até ser considerada otimista, dadas as incertezas no ambiente externo "Aqui dentro, as coisas no ambiente macro tendem a se tornar mais claras, mas lá fora continua tudo muito complicado", ressalta a estrategista.
Na lista de problemas externos constam a cada vez mais provável reestruturação da dívida soberana grega, as dúvidas sobre o fôlego do crescimento da economia americana e a crise no Oriente Médio e no norte da África.

Nenhum comentário:

Postar um comentário