Dúvidas sobre o desempenho da economia mundial provocaram queda de metais, produtos agrícolas e petróleo, que recuou quase 9% - O Estado de S.Paulo NOVA YORK
SÃO PAULO O mercado financeiro global ensaia uma correção de rota após a divulgação, nas últimas semanas, de vários indicadores que mostram que a economia dos países desenvolvidos ainda não ostenta o vigor que muitos imaginavam. Ontem, essa percepção se refletiu em uma forte queda nos preços das commodities mundo afora. O petróleo, por exemplo, perdeu quase 9% no mercado nova-iorquino, maior queda diária desde abril 2009. O barril para entrega em junho encerrou a quinta-feira valendo US$ 99,80. Foi o primeiro fechamento abaixo de US$ 100 desde março. No Brasil, esse movimento fez o dólar subir quase 1% ante o real, para R$ 1,626. A moeda americana acumula valorização de 3,3% ante a brasileira nesta primeira semana de maio. O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) perdeu 0,33% ontem (e 4,12% no mês). Especialistas apresentaram uma variedade de explicações para a queda do petróleo e de outras commodities, inclusive os modestos dados sobre o desemprego divulgados nos Estados Unidos e a valorização do dólar no mercado mundial - o que tende a tornar todas as commodities denominadas em dólares mais baratas para quem tem essa moeda e mais caras para os detentores de outras moedas. "A bolha estoura", disse Michael Lynch, presidente da Strategic Energy and Economic Research, uma empresa de consultoria. Nos últimos quatro dias, os preços do petróleo caíram cerca de 12%, o declínio mais rápido até este momento do ano. Baixas semelhantes ocorreram tanto para o petróleo leve, que serve de referência nos EUA, quanto para o Brent, de referência para a Europa e a Ásia. Quase todas as commodities tiveram queda de preço ontem. O ouro para entrega em junho caiu 2,2%, ou US$ 33,90, para US$ 1.481,40 a onça, enquanto a prata perdeu 8% ou US$ 3,148, para US$ 36,24 a onça. As cotações de outros metais - como níquel, cobre, paládio e platina - baixaram consideravelmente. Café, milho, algodão, trigo e soja também declinaram. "Um dia não faz uma tendência, mas essa correção era necessária", afirmou Addison Armstrong, diretor sênior de pesquisa de mercado da TraditionEnergy, uma empresa de consultoria. "Hoje (ontem), a venda é impulsionada por um movimento incrivelmente forte do dólar e pelo início da destruição de alguma demanda. Os fundamentos não têm sido suficientemente bons para justificar esses níveis." Dois fatores detonaram o mau humor especificamente ontem. O primeiro foi a divulgação de que os pedidos de auxílio-desemprego nos EUA cresceram na semana passada, para 474 mil. Analistas esperavam uma queda. O outro fator foi a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de manter a taxa básica de juros inalterada em 1,25% ao ano. Na entrevista que concede após os encontros de política monetária, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, indicou que não elevará o juro em junho, como parte do mercado esperava. A explicação: a economia da região não exibe tanto vigor. / LEANDRO MODÉ E AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
Petróleo cai e dólar sobe com novas incertezas
| Duvidas sobre demanda derrubam petróleo e metais |
| Autor(es): Gregory Meyer | Financial Times, de Nova York |
Valor Econômico - 06/05/2011
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/5/6/petroleo-cai-e-dolar-sobe-com-novas-incertezas |
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Sérias dúvidas sobre o processo de recuperação das economias dos países desenvolvidos alimentaram o temor de que a demanda por bens não vá crescer nos próximos meses. Aliadas à decisão do Banco Central Europeu de manter os juros, provocaram, ontem, quedas dramáticas nas cotações do petróleo, das commodities agrícolas, de metais e das bolsas de valores internacionais, simultaneamente a um processo de correção do valor do dólar. No Brasil, a moeda americana subiu 1,24%, o maior ganho percentual desde 21 de outubro, para R$ 1,625.
As histórias de que a sólida demanda mundial estimula os altos preços do petróleo começaram a se esfumar ontem, quando, em um dado momento, o preço do petróleo bruto caiu em mais de US$ 12 o barril. A variação foi chocante em sua severidade e lembrou os dias mais sombrios que se sucederam ao colapso do Lehman Brothers, quando vendas maciças diárias eram coisa normal. As quedas significativas obrigaram o mercado do petróleo a abrir uma nova rodada de discussões. Será que a queda repentina do petróleo bruto reflete a desaceleração da demanda? Ou será que o petróleo é apenas mais um ativo especulativo de risco a passar pela tão necessária correção? E, se a correção continuar, será que isso não será bom para a economia como um todo?
O primeiro contrato de petróleo tipo Brent caiu US$ 10,39, para US$ 110,80 o barril, perda de 8,57%. A retração foi a maior, em termos percentuais, desde a crise financeira, e a mais elevada de todos os tempos em termos absolutos - ultrapassando a alta volatilidade de 2008-2009 e da primeira Guerra do Golfo. O barril do West Texas Intermediate, o referencial dos EUA, negociado na Nymex, caiu US$ 9,44 - ou 8,64% -- para menos de US$ 100 pela primeira vez desde março. "Essa é a maior variação desde os tempos de 2008", diz Chris Thorpe, sócio executivo da HCEnergy, corretora de opções de petróleo de Nova York. "O mercado foi pego de surpresa depois de um longo período de baixa volatilidade e de um mercado que vinha subindo lentamente." O movimento de venda em massa refletiu temores de que a demanda mundial de petróleo, que alcançaria novos recordes este ano, segundo previsões, poderá começar a desacelerar num momento em que os preços altos corroem a demanda do consumidor. Os EUA informaram esta semana que a demanda por gasolina de abril foi 1,9% menor que a do mesmo mês do ano passado, num momento em que um contingente maior de americanos está fazendo compras on-line para economizar a gasolina, a US$ 4 o galão (de 3,785 litros), necessária para ir ao shopping. Os EUA, o maior consumidor mundial de petróleo, não ajudou em nada a melhorar esse sentimento ao noticiar um salto surpresa dos pedidos de seguro-desemprego semanais, o que veio reforçar a recente série de dados decepcionantes no país depois de a economia americana ter registrado um crescimento anualizado de 1,8%, no primeiro trimestre. A demanda por petróleo continua crescendo nos mercados emergentes, mas a elevação dos preços do petróleo e de outras commodities poderá lançar as sementes de uma desaceleração, diante da elevação das taxas de juros promovidas pelos BCs para conter a inflação. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que todo o crescimento da demanda mundial por petróleo virá dos mercados emergentes este ano, o que puxará o total do consumo para mais de 89 milhões de barris ao dia. Outros argumentam que a venda maciça de contratos de petróleo foi uma forma necessária de afastar rumores especulativos. O saldo líquido das posições de compra em futuros e opções do WTI ficou perto da alta recorde, segundo dados da Comissão de Negociação de Contratos Futuros de Commodities (CFTC, pelas iniciais em inglês). O CME Group, operador da bolsa Nymex, anunciou contratos não-exercidos, ou por liquidar, não apenas de petróleo bruto mas para o monótono universo do gás natural, em que uma enxurrada de oferta de novos volumes manteve os preços apáticos. Esse fator, juntamente com a queda vertical da prata esta semana, sugere uma grande massa de recursos de investidor sendo investidos e resgatados, indiscriminadamente, em contratos de commodities. Com a queda do petróleo, as ações passaram por uma retração mais comedida - o índice de ações S&P 500 recuou 0,3%. "Um dos elos perdidos do resgate de contratos de risco e um bom indicador de que essa medida é uma correção de posições neste momento é o fato de que, embora as ações tenham registrado queda, elas não caíram significativamente", diz Alan Ruskin, estrategista do Deutsche Bank. "Em última instância, preferimos as ações, e não contratos de commodities, como um sinal das perspectivas de crescimento dos Estados Unidos", afirmou. As ondas de vendas de ativos de risco e de alta de papéis considerados seguros, como os bônus do Tesouro dos EUA, ganharam força, antecipando-se ao informe sobre o emprego de abril, a ser divulgado hoje. A volatilidade do petróleo aumentou desde que a crise política no Oriente Médio afetou a oferta. Embora oscilações desenfreadas como a de ontem causem dor de cabeça aos investidores, elas aumentam a lucratividade dos bancos de investimento e dos operadores no mercado de petróleo, que ganham mais com a volatilidade. A Glencore, maior empresa de negociação de commodities e segunda maior de petróleo, informou em comunicado, na quarta-feira, em meio aos preparativos para sua oferta pública inicial de ações, que suas operações "começaram 2011 com força". "Em particular, após um 2010 desafiador, a divisão de petróleo registrou resultados substancialmente melhores, como resultado da volatilidade do mercado e das condições de oferta mais apertada", destacou a empresa. (Colaboraram Michael Mackenzie, de Nova York, e Jack Farchy, de Londres)
Cena internacional pode ajudar BC
| Eduardo Campos |
Valor Econômico - 06/05/2011
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/5/6/cena-internacional-pode-ajudar-bc |
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O dia de pânico nos mercados de commodities e câmbio também ajudou a fazer preço na curva de juros futuros. Depois de três dias de pouca oscilação e limitado volume, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) de longo prazo caíram na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). As conversas de menor crescimento mundial, depois de dados negativos nos Estados Unidos e Europa, aliadas a essa retração acentuada no preço das matérias-primas, são dois vetores favoráveis à inflação doméstica. Tal cenário começa a mudar a cara do mercado de juros. A expectativa de mais duas altas de 0,25 ponto percentual na Selic passa a ser questionada como o "piso" de ações esperadas para ganhar contorno de "teto". No fechamento de ontem, a estrutura a termo de juros ainda mostrava duas altas de um quarto de ponto e mais um pouco. A questão agora, não só para o mercado de juros, mas para câmbio, commodities e bolsas, é se tal movimento é mera realização de lucros ou se estamos assistindo a alguma mudança de tendência. Para os partidários da realização de lucros, nada muda, pois a liquidez não foi afetada no mundo. O Federal Reserve (Fed), banco central americano, segue com a política do juros zero e compra de títulos. Fora isso, o Banco Central Europeu (BCE) parece mais reticente em aumentar os juros e o Japão despejou dinheiro após o terremoto. Na outra ponta, há os agentes que veem que a forte valorização das commodities até esse começo de mês, especialmente do petróleo, atuou como um freio ou mesmo um "muro" para o processo de recuperação da atividade mundial. "Essa queda das commodities é uma reavaliação do crescimento global. A gasolina cara tirou gás das economias desenvolvidas", diz um estrategista que pediu anonimato. Ainda de acordo com esse especialista, se a queda das commodities confirmar tendência, o Banco Central (BC) ganha um forte aliado na briga contra a inflação, dado que cerca de 30% da alta de preços no mercado doméstico tem relação com o valor das matérias-primas. "Se essa alta das commodities desarmar, podemos nos preparar para uma inflação bem mais tranquila", avalia, apontando que dentro desse possível cenário há muito prêmio para ganhar montando posição vendida em alguns vértices da curva de juros futuros. Falando em inflação, sai agora pela manhã o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril. As expectativas estão dispersas entre 0,70% a 0,90%. Quanto mais próximo do 0,90%, pior o resultado e mais certo que o teto da meta de inflação de 6,5% será rompido no acumulado em 12 meses. No entanto, tal assunto já integra o passado. Afinal de contas, o mercado e o próprio Banco Central já sabem disso. O foco está, agora, na inflação de maio em diante, que pode apresentar leituras mensais condizentes com a meta de inflação. A questão aqui é que, se essa expectativa for frustrada, ou seja, a inflação não der trégua, o mercado vai cobrar o BC, pois o cenário por ele delineado e defendido não se concretizou. Nesse instante, no entanto, os ventos estão a favor de Alexandre Tombini e sua equipe. Todo esse mal-estar do mercado também acende dúvidas sobre qual será a postura do Fed, que parece enfrentar um esgotamento das políticas monetárias e fiscais. Mesmo que o bc americano opte por colocar mais dinheiro no mercado, fica a dúvida se os benefícios seriam superiores aos custos. Passando para o câmbio local, firme ajuste de alta no preço à vista e mercado mais calmo no futuro. A linha de R$ 1,650 seria o novo objetivo de alta. Depois se avalia a retomada das vendas. Além do IPCA, o dia também reserva os dados de emprego nos Estados Unidos, que podem servir de gatilho tanto para uma retomada dos mercados quanto para mais um dia de firme correção.
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