sábado, 14 de maio de 2011

Sistema bancário pode vir a se concentrar

Autor(es): Claudia Safatle
Valor Econômico - 13/05/2011

A recuperação da economia no pós-crise global e o forte crescimento do nível de atividade em 2010 não foram suficientes para resolver os problemas das instituições financeiras de pequeno e médio porte, gerados sobretudo pelo elevado custo de captação e pela diminuição dos recursos advindos dos grandes bancos.
A isso se somam a perda de apetite dos grandes para comprar carteiras de crédito, o conjunto de medidas macroprudenciais editadas pelo Banco Central no fim do ano passado para conter a expansão do crédito, e a imposição de regras mais restritas para os correspondentes bancários, que são um elo importante na cadeia de geração e renovação do crédito consignado.
O produto resultante é um ambiente mais difícil para os bancos pequenos e médios, que cresceram a partir de 2003 com o surgimento do consignado e estão, atualmente, numa roda viva. O custo médio de captação desse segmento é elevadíssimo, algo em torno de 130% ou mais do CDI.
A solução tende a ser uma concentração "horizontal" do sistema - ou seja, bancos médios comprando os médios e pequenos, já que os grandes não se mostram interessados. Fontes oficiais avaliam que além desse, outro caminho seria a negociação dessas instituições com fundos estrangeiros. Há interesse de alguns fundos internacionais em entrar no mercado financeiro brasileiro. Exemplo disso é um fundo de US$ 5 bilhões do Oriente Médio que quer investir no Brasil e na China e já procurou representantes do governo para conversar sobre isso. Mas é pouco provável que esse tipo de investidor se interesse pelo segmento dos pequenos e médios bancos.
O processo de mudança no sistema começou com a compra do Panamericano, em janeiro, pelo BTG Pactual (que adquiriu 37,64% do capital social depois que a Caixa Econômica tinha comprado 36,6% das ações do banco). Em março o grupo JBS comprou o banco Matone, instituição especializada em crédito consignado. Em abril foi a vez do BMG, que captou recursos no exterior e comprou o banco Schahin por R$ 230 milhões. "Esse é um exemplo que deve resultar numa instituição robusta", avaliam fontes do setor público. Mas nem todos os pequenos e médios bancos estão aptos para o cenário que se avizinha. Foi o caso do banco Morada, que sofreu intervenção do Banco Central, cuja venda também para o BMG não se viabilizou porque o banco não tinha garantia suficiente para dar ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito).
Fontes do mercado, porém, levantam dúvidas sobre uma solução dessa natureza, de concentração horizontal. "Dois bancos frágeis não geram um sólido", comentou um dirigente de uma grande instituição privada.
Uma parcela relevante dos bancos que cresceram com o surgimento do consignado funciona mais como "promotores de originação" do que propriamente com uma casa bancária. Eles usam os "pastinhas" para buscar clientes e formar carteira de crédito. A esses, pagam algo entre 20% a 30% do valor do crédito originado. Como não conseguem encarteirar as operações, passam-na adiante. O "pastinha", porém, não deve fidelidade a nenhuma instituição e pode levar clientes de uma para outra, em busca da comissão.
Os grandes bancos, que no início não aderiram ao consignado e depois passaram a absorver as carteiras dos pequenos e médios, hoje estão formando suas próprias carteiras. "Eles aprenderam o caminho e não querem mais comprar carteiras de outros", disse um diretor de um banco privado. Há duas boas razões para isso: ter sua própria carteira de consignados é mais lucrativo do que dividir a rentabilidade com o banco que a originou, e a estratégia dos bancos é fidelizar sua clientela para aumentar a rentabilidade por depositante.
O Banco do Brasil é, atualmente, uma das poucas instituições bancárias que compram carteira de crédito não porque quer, mas porque não consegue ter "braços" fora de suas agências para capturar clientes pessoa física, disse um alto funcionário da instituição. Dos 7,2 milhões de pensionistas e aposentados que recebem atraves de suas agências, o BB consegue fazer negócios com menos de 10% desse universo (com venda de seguros, cartão de crédito, cheque especial entre outros). Antes de buscar novos, a direção do BB quer investir nos seus correntistas.
Até a crise global de 2008, os pequenos e médios bancos operavam para aumentar o crédito em fronteiras que os grandes não alcançavam. Para isso, usavam "funding" das grandes instituições que, na crise, se retiraram e não voltaram. O BC, na ocasião, tomou uma série de medidas para dar liquidez às instituições menores. Criou, inclusive, os Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGE) com recursos do Fundo Garantidor de Crédito para aliviar a situação desses bancos que perderam depósitos a prazo no auge da crise.
A partir de 2012 começa um cronograma de redução do DPGE e essa garantia [que] acaba em 2016. Também deve entrar em vigor no próximo ano a resolução nº 3.533, já por vezes adiada, que muda as regras de contabilização da compra e venda de carteira, impedindo que o banco vendedor antecipe as receitas no seu balanço. Isso sem mencionar as alterações que serão implementadas nos próximos anos por Basileia 3, que apertam mais as provisões e o requerimento de capital.
O Banco Central, segundo fontes do governo, está atento a essa situação e avalia que tudo que está sendo feito destina-se ao " fortalecimento do sistema financeiro".
O quadro não é dramático nem se delineia uma eventual crise bancária. Mas está em curso uma reorganização do sistema financeiro nacional e novos casos de aquisição ou fusão deverão ocorrer ao longo deste ano.
Assim como há bancos em relativa dificuldade, outros estão nascendo. Este ano o BC autorizou a criação de duas novas instituições: o Banco Caterpillar e do Banco Vipal. E há uma fila de pedidos de autorização para aberturas de novas casas. "Bancos são como restaurantes, nascem e morrem", comentou uma fonte da área econômica do governo.

Petros confirma aplicação no banco Morada

Autor(es): David Friedlander
O Estado de S. Paulo - 13/05/2011
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/5/13/petros-confirma-aplicacao-no-banco-morada
 

Fundo de funcionários da Petrobrás tem R$ 70 milhões em banco sob intervenção do BC

O fundo de pensão dos funcionários da Petrobrás (Petros)confirmou ter R$ 70 milhões aplicados em investimentos criados pelo banco Morada, sob intervenção do Banco Central (BC) desde o fim do mês passado. Por meio de sua assessoria, a direção da Petros afirmou que espera resgatar as aplicações nas datas combinadas em contrato e não enxerga um "potencial prejuízo" pela frente.
Outras fundações ligadas a empresas estatais também tinham dinheiro aplicado no Morada, mas seus nomes ainda não são conhecidos. A Petros foi, no entanto, a que mais investiu nos papéis do banco, segundo fontes envolvidas no processo. O Morada é um banco de apenas uma agência, no Rio de Janeiro.
A Petros informou ao Estado que inicialmente aplicou R$ 100 milhões em papéis do Morada, mas R$ 30 milhões já tinham vencido antes da intervenção e foram resgatados normalmente.
Os fundos de investimento do Morada são formados por carteiras de crédito consignado cedidas pelo próprio banco. Eles ficam fora da estrutura do banco, alojados em Sociedades de Propósito específico (SPE). Por isso, não são alcançados pelo processo de intervenção nem podem ser garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) - instituição criada para cobrir parte dos prejuízos de clientes de bancos falidos.
A remuneração mensal dos papéis foi interrompida pelo interventor do BC, Sidney Ramos Ferreira, até que a avaliação sobre a situação dos fundos seja concluída. Embora os fundos estejam fora do Morada, são administrados por ele.
O investimento funciona assim: o Morada concede um conjunto de empréstimos consignados, aqueles com desconto automático na folha de pagamento, forma fundos de investimento e os repassa a uma SPE. Essa empresa vende cotas do fundo a investidores, que são remunerados à medida que os tomadores pagam suas prestações.
Há dois riscos embutidos nesse tipo de operação. Um deles é a inadimplência, teoricamente minimizado pelo desconto automático na folha. O outro é de fraude - por meio do desvio de pagamentos antecipados ou da inclusão de uma mesma carteira de empréstimo em fundos diferentes, como aconteceu no caso do Banco Panamericano.
Intervenção
O BC interveio no Morada por causa do comprometimento patrimonial, do descumprimento de normas legais e porque seus controladores não apresentaram um plano de recuperação viável.

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