domingo, 12 de junho de 2011

Brasil se desindustrializa e canta como cigarra a música da China

PESSIMISTA, PROFESSOR DA UNICAMP PREVÊ FIM DE "FARRA DAS COMMODITIES" E RECLAMA DA AUSÊNCIA DE UMA ELITE INDUSTRIAL E DE UM GOVERNO MAIS "NACIONALISTA" NO PAÍS

ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

A desindustrialização no Brasil avança. O país está regredindo. Não basta ter uma política industrial. É preciso mexer no câmbio e reduzir muito os juros. O diagnóstico é do economista Wilson Cano, 73. 
Nacionalista e admirador de Celso Furtado, Cano tem sua vida acadêmica ligada à história da Unicamp. Doutor e livre-docente em economia, hoje aposentado, ele é professor voluntário na Universidade. 
Autor de diversos livros sobre desenvolvimento industrial, Cano está pessimista. Sente falta de empresários com visão estratégica e critica o modelo que "está exterminando o futuro", diz. Prevê o fim da farra dos altos preços das commodities, já que a China constrói novas fontes de abastecimento. Para ele, o Brasil erra como uma cigarra que canta com música chinesa.



 

Folha - Está ocorrendo desindustrialização? 
Wilson Cano - O termo tem dois sentidos. No primeiro é um fenômeno que se vê com naturalidade: é a diminuição da proporção da renda e do produto gerado pela indústria no PIB geral.
Isso ocorre em sociedades que já atingiram um padrão de produção e de consumo, onde a urbanização é praticamente total e a diversificação de serviços é extraordinária. Nesses locais é normal aceitar que o peso da indústria no PIB esteja reduzido a 20%, como se aplica aos países da Europa Ocidental e aos EUA.
No mau sentido da palavra, desindustrialização significa uma precoce diminuição da presença da indústria num país em que ainda há muita coisa a fazer em termos de industrialização, como é o caso do Brasil.

Como explicar isso?
Nos anos 1980 o peso da indústria de transformação no PIB era de 33%. Hoje é de 16%. Tínhamos toda uma frente por desenvolver: espacial, petroquímica, química fina, informática, eletrônica, fármacos.
Entretanto estamos há 31 anos em crise. Nos 80 veio a crise da dívida. Depois o neoliberalismo com um crescimento medíocre, até 2003.
De 2004 para cá estamos vivendo um processo ilusório, em parte, porque estamos crescendo sem investimento. Estamos crescendo pelo consumo, pelo crédito. E a situação no mercado internacional que é excepcional, com os elevados preços de produtos primários.

O sr. escreveu recentemente que as políticas cambial e de juros podem ser exterminadoras do futuro. Como explica essa afirmação?
A relação manufaturados/exportações totais chegou a atingir 59% e hoje está na casa dos 40%. Se olharmos as estruturas produtivas e exportadoras segundo o grau de intensidade tecnológica estamos regredindo. Estamos na contramão da história econômica.

Há a questão do déficit comercial de produtos industrializados.
Ele é enorme e crescente. Principalmente em dois compartimentos: o automobilístico -que paradoxalmente é o que recebe o maior número de favores do Estado- e setor eletrônico, mostrando claramente as perdas que a nossa indústria vem sofrendo.

Quão grave é o processo?
Tínhamos homens como [Abraham] Kasinski, [José] Mindlin (1914-2010), que eram dois baluartes da indústria de ponta, moderna. Um teve que vender a fábrica para os americanos. O outro vendeu e se transformou em montador de motocicletas em Manaus e acabou vendendo para os chineses.
Há coisas que são irreversíveis. Como quando se destrói segmentos da elite industrial brasileira. Eram homens que sabiam o que significa uma indústria nacional.

Onde está a visão estratégica?
A estratégia deles é ganhar dinheiro lá fora pegando o dinheiro do BNDES para matar boi nos EUA. Os empresários estão preocupados em ganhar dinheiro com dólar barato. Fazem negócio lá fora ou simplesmente aplicam no sistema financeiro. Com essa taxa de juros, quem tem o dinheiro aplica no mercado financeiro sem ter que se preocupar com trabalhador, processo produtivo, imposto.

E o que deve ser feito?
O próprio ministro do Desenvolvimento disse a empresários que não tem jeito. Parece ser um governo conformista. O nacionalismo está meio fora de moda.

Isso compromete o futuro?
Sim, porque estamos cantando como uma cigarra. Estamos cantando com a música chinesa. Cantando por exportar galinha e soja e minério de ferro. Mas isso nunca deu futuro a ninguém. As lideranças aceitam que é muito bom ficar exportando essas coisas, mas esquecem da regressão industrial.

A farra das commodities vai acabar?
A China está abrindo frentes de produção na África e na América Latina para a produção de minério e de petróleo, grãos, carne. Estão buscando novas fontes abastecedoras. A China sabe que não pode continuar crescendo a 10% e pagando o preço que está pagando por essas matérias-primas.

Isso vai resultar em queda no preço das commodities no longo prazo?
Sim, sem dúvida.

O governo deveria controlar mais os capitais externos?
Há várias formas de controle sobre o fluxo internacional de capital. Estamos vendo uma anormalidade com esse dólar. O governo não tem feito muita coisa, porque para fazer alguma coisa teria que alterar profundamente esse modelo econômico.

Mas o país não está menos vulnerável?
Estamos cantando que diminuímos a nossa vulnerabilidade externa porque temos reservas internacionais de U$ 300 bilhões e a dívida externa pública diminuiu. Mas a privada aumentou. Temos reservas, mas temos mais de U$ 350 bilhões de investimento estrangeiro em carteira que podem rapidamente se mobilizar e sair do país.

Quais deveriam ser os principais pontos da política industrial que o governo está preparando?
Investir, inclusive em ciência e tecnologia nos setores de ponta que não conseguimos avançar na passagem dos anos 1980, notadamente fármacos e microeletrônica, em especial chips.
Eliminar a guerra fiscal e reformular a Zona Franca de Manaus. Rever profundamente a nossa política de comércio exterior.

Basta ter uma política industrial se câmbio e juros continuarem como estão?
Com a atual política econômica, nenhuma política industrial terá sentido. Não foi assim com as políticas dos países desenvolvidos, em especial todas as asiáticas.

O sr. fala que é preciso investir, inovar, exportar e financiar tudo isso. Qual sua receita para o governo?
Há que ter vontade política e consciência crítica para alterar o modelo macroeconômico. É preciso baixar os juros, mas para isso não podemos conviver com esse câmbio. É uma camisa de força.





Gustavo Franco: ''É preciso facilitar a multinacionalização''

Autor(es): Alessandra Saraiva
O Estado de S. Paulo - 12/06/2011
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/6/12/gustavo-franco-e-preciso-facilitar-a-multinacionalizacao

Se o BC dividisse com o setor privado a tarefa de acumular reservas, o câmbio se estabilizaria e ajudaria a indústria local
 - O Estado de S.Paulo
ENTREVISTA
Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos

Uma segunda abertura do Brasil para o mercado internacional é defendida pelo ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco. Para estabilizar o câmbio em nível mais razoável ao desenvolvimento da indústria local, ele sugere a remoção das restrições aos brasileiros que buscam adquirir ativos no exterior.
Com uma medida nesse sentido, argumenta, o Banco Central poderia dividir com o setor privado a incumbência de reter reservas internacionais. Franco comenta que a estratégia do governo de conter o avanço da inflação, tem atraído mais dólares ao Brasil e contribuído para o que considera "o excesso de uma coisa boa". A seguir, trechos da entrevista concedida à Agência Estado.
O Conselho de Política Monetária (CMN) define este mês a meta inflacionária para 2013. Há espaço para mudança do atual patamar de 4,5% ao ano?
Sem dúvida, 4,5% é muito. Acho que temos várias escolhas abertas. Uma é de reduzir; a outra é de estabelecer uma mecânica de metas de médio prazo, multianuais. Ou seja, estabelecer um horizonte de três anos, de cinco anos, em que teremos de chegar a 2%, por exemplo. Mas acho que é preciso olhar um pouco além do próprio sistema de metas. Hoje, o problema número um que a economia tem é a taxa de juros. É a maior do mundo há muitos anos. Esse é o grande desafio, e ele não deve ser pensado como consequência direta de uma meta de inflação ambiciosa. Um raciocínio simples leva a pensar que sim. Leva as autoridades a ficarem presas a uma meta de inflação muito leniente, como a de 4,5%
O que poderia ser feito para reduzir a taxa de juros real?
Acho que a experiência já é útil sobre o caminho a seguir. O Banco Central, em suas apresentações habituais, sempre traz um gráfico muito interessante sobre a taxa de juros real ao longo do tempo. Ela experimenta uma queda tendencial muito relevante, a despeito de suas flutuações decorrentes dos momentos em que o regime de metas exigiu que o BC fosse mais ou menos agressivo, subindo ou descendo (a Selic). O fato é que há uma queda tendencial de juros que reflete os fundamentos da economia, uma situação fiscal do governo melhor. Longe da ideal, do meu ponto de vista. Em um país como o nosso, onde o governo é fundamental, a política de juros praticamente se confunde com a política de dívida pública. Se melhoramos a situação fiscal, isso melhora também as potencialidades para reduzir juros.
No combate à inflação, a estratégia do governo está focada demais em política monetária, em detrimento de ajuste fiscal forte?
Sim, em letras maiúsculas. Regredimos no assunto fiscal desde a crise de 2008. A crise serviu como álibi para liberar restrições que estavam em vigor desde então, e que causavam melhorias na situação fiscal e na condução de juros. Topicamente, naquele momento, foi uma crise externa de viés deflacionista. Então, pudemos, contrariamente ao que se passou em outras crises, reduzir os juros, em vez de subir. Mas, passada a crise, a situação fiscal está pior do que antes. E é por aí que devíamos centrar esforços de combate à inflação.
A política do governo de reajuste do salário mínimo prejudica o combate à inflação?
Não tenho simpatia por essa regra de reajuste que foi adotada (inflação do ano anterior, medida pelo INPC, somada ao porcentual de crescimento do PIB de dois anos antes). Criamos uma bomba. E aí o resultado de fazer essa política vai ser mais juros (para combater a inflação). É uma bondade mais aparente do que real. Ou vai gerar inflação, ou vai elevar juros.
E quanto às medidas macroprudenciais? São eficazes no combate à inflação?
A relevância é muito pequena. Acho que é um nome bonito para uma prática antiga no Brasil, que é, principalmente, a de usar os compulsórios e os direcionamentos de crédito. Nenhum outro país do planeta utiliza compulsórios como o Brasil, nem direcionamento de crédito. Só a China. E em vez de chamar isso de repressão fiscal e resolver esse problema como uma distorção, agora virou virtude. Acho que está tudo errado.
Este ano, as importações estão ajudando a segurar a inflação. Isso tende a continuar?
Há uma tendência muito clara da taxa de câmbio real brasileira para baixo. Se recuarmos a meados dos anos 80, isso se torna mais flagrante. Não há nada de artificial nisso. É o retrato de uma economia na qual os fundamentos estão melhorando e aconteceu com outros países que transitaram da posição de subdesenvolvido para a de emergente e mesmo para desenvolvido. Mas têm coisas que podemos fazer para diminuir o problema. E a primeira delas seria reduzir juros. Porém, não conseguimos isso com o problema fiscal do tamanho que é hoje. Ao contrário, estamos tendo de aumentar a taxa de juros e, portanto, agravar o "problema" cambial. Entre aspas, pois é um paradoxo: o excesso de uma coisa boa. O dólar sempre foi um problema para o País. Olhamos o déficit em conta corrente com preocupação; fazemos políticas para reduzir esse déficit que só faz aumentar a abundância de dólares, que vêm de todos os lados, por razões variadas, não ligadas só à taxa de juros. Poderíamos pensar um pouco mais no que outros países fizeram em situação parecida, que foi, na essência, uma espécie de mudança de paradigma nas relações com o exterior.
Como assim?
Uma espécie de abertura, onde os brasileiros pudessem constituir ativos no exterior de forma significativa. Estamos falando de empresas e indivíduos poderem adquirir ativos no exterior sem burocracia. Hoje, tudo funciona como se o BC fosse a única entidade autorizada a reter reservas internacionais. O BC poderia dividir esse trabalho, por assim dizer, se o setor privado pudesse ter ativos no exterior de forma mais fácil para que pudéssemos nos multinacionalizar com mais facilidade. Tudo isso ajudaria a taxa de câmbio a se estabilizar num nível não tão valorizado, que não fosse tão complicado para a indústria local.
Há motivos de preocupação com a grande entrada de capitais em um horizonte de longo prazo?
Esse cenário vai continuar numa perspectiva de médio prazo e, em boa medida, por culpa nossa, porque temos a maior taxa de juros. Outro ponto: não tenho objeções à utilização marginal de um certo tipo de instrumento, do IOF, usado de forma seletiva. Mas acho que a partir de certo tempo as distorções começam a ficar maiores que os benefícios. Creio que já esgotamos essa caixa de ferramentas do lado restritivo. Agora, está na hora de tratar do outro lado, de remover restrições para a saída de capital brasileiro para o exterior. Capitais especulativos, capitais em excesso fazem parte da paisagem da economia globalizada, querendo ou não.

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