terça-feira, 14 de junho de 2011

Política do dólar fraco entrega sua fatura

Eduardo Campos
Valor Econômico - 13/06/2011
 

Como não existe almoço grátis, chegou a hora de pagar a conta. A política do dólar fraco finalmente entrega sua fatura na forma de menor crescimento da atividade mundial, queda no preço das matérias-primas, bolsas de valores com viés de baixa e consumidores menos confiantes.
Tudo isso em um momento em que não há de onde tirar mais ajuda. Os juros seguem próximos de zero no mercado internacional, o Federal Reserve (Fed), banco central americano, já é o maior credor do Tesouro dos Estados Unidos após comprar de títulos na casa do trilhão de dólares e a Europa está no jogo do empurra para ver que fica com os papéis podres de governos sem capacidade de financiamento ou perspectivas de um dia conseguir saldar seus débitos.
Desde o fim do ano passado, a estratégia do governo americano de tirar força do dólar (com juro zero e impressora ligada, pintando o mundo de verde) vinha funcionando muito bem.
A economia dos EUA crescia, as bolsas se valorizavam, puxando a confiança do consumidor e sua disposição às compras. E o fantasma da deflação foi exorcizado, já que o excesso de liquidez se traduziu em alta das commodities.
Mas essa estratégia começou a ruir justamente por essa ponta. A alta do petróleo restringiu o consumo e a recuperação nascente da atividade já sofre sua primeira baixa.
Junto com isso, o terremoto e tsunami no Japão mostraram consequências sobre o sistema produtivo do mundo todo.
De volta às commodities, a inflação decorrente desse processo levou os bancos centrais das economias emergentes a entrar em modo de aperto da política monetária.
Ou seja, a fonte mais estável de demanda dentro do quadro pós-crise precisou "fechar para balanço".
Mudando o foco para a Europa, não é coincidência que o dólar baixo era sinal tranquilidade para os países endividados.
Dólar barato significa liquidez elevada, o que facilita a vida do Banco Central Europeu (BCE) no gerenciamento dessa crise da dívida.
Agora que o dólar ameaça subir - o que é um sinal claro de menor liquidez -, a vida do Banco Central Europeu (BCE) e dos credores dos Piigs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) fica mais difícil.
Não por acaso o BCE acena alta de juros na zona do euro.
A questão não parece ser mais a inflação (já que a perspectiva é de commodities para baixo e atividade também), mas sim a necessidade de capital.
"O BCE parece entrar no jogo de países subdesenvolvidos que sobem juros não por inflação, mas sim porque precisam de recursos externos para se financiar. Se o BCE não acenar com alta de juros, corre o risco de catalisar um movimento de queda do euro e alta do dólar, o que dificultaria o financiamento da região", diz um estrategista que pediu anonimato.
De acordo com o estrategista, o momento de ressaca da política do dólar fraco ainda vai longe e não está descartada a possibilidade de algum choque. Um daqueles momentos nos quais o mercado mostra toda a sua "racionalidade" e sai vendendo tudo a qualquer preço.
O presidente do Fed, Ben Bernanke, já deu sua visão sobre tudo isso. Em discurso recente, o mandatário da autoridade monetária americana apontou que o momento seria de acomodação, com a situação voltando aos trilhos no segundo semestre. Por isso, não há um novo plano de estímulo em gestação. Algo que desagradou muita gente.
Há de se dar algum crédito a tal observação de Bernanke, já que o movimento de recuperação não é uniforme. Ainda mais se levarmos em conta que os meses de maio a agosto são, geralmente, de menor movimentação nos mercados por lá em função das férias de meio de ano.
Fora isso, toda a liquidez injetada pelo Fed e outros BCs de países desenvolvidos continua em circulação. Esse dinheiro pode buscar "segurança" no Treasury e no dólar, mas logo, logo a mão coça por retornos mais atraentes.
Passando para o mercado local, quanto pior o quadro externo, melhor para o Banco Central (BC). Como bem disse um tesoureiro: "economista não tem coração". A queda da atividade e das commodities ajuda no controle da inflação e da demanda.
Se o quadro externo continuar piorando, há quem acredite que não só BC brasileiro, mas outros BCs de mercados emergentes podem decretar o fim do ciclo de aperto monetário.
No câmbio, esse quadro pode resultar em movimentos pontuais de alta do dólar. Mas nada além de pontuais. Sinal de que a cena para o real não mudou muito é que os estrangeiros seguem vendidos em mais de US$ 20 bilhões no mercado futuro. Além do que, nosso juro real ainda é o maior do mundo.

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