| Autor(es): Murillo Camarotto | Do Recife |
| Valor Econômico - 01/06/2011 |
Desenvolvimento: Para especialistas, boom de investimentos no Estado terá de superar cultura empresarial A solenidade que marcou a inauguração de uma unidade da Gerdau no Cabo de Santo Agostinho, na semana passada, contou com o suporte técnico da Global do Brasil, empresa pernambucana de médio porte especializada em organização de eventos corporativos. Determinado a surfar a onda de investimentos que chega a Pernambuco, o dono da empresa, Isio Jacobovitz, investe já há alguns anos na modernização de seu negócio, visando marcar território entre os grandes empreendimentos que desembarcam no Complexo Portuário de Suape, distante 50 quilômetros do Recife. Aparentemente natural, a proatividade de Jacobovitz destoa entre o empresariado pernambucano. Vivendo a plenitude da reindustrialização de sua economia, o Estado tem na cultura empresarial um dos maiores entraves para a internalização do desenvolvimento. A avaliação é de economistas, acadêmicos, empresários e até mesmo do governo. Para alguns, o problema pode ser ainda mais sério do que a falta de mão de obra treinada, outro gargalo relevante. "Quando se fala em mão de obra, sempre digo que temos aqui boas escolas, boas universidades, temos pelo menos onde botar o pé. A cultura empresarial me preocupa bem mais", avalia a respeitada economista Tânia Bacelar, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócia da Ceplan Consultoria. Na literatura dos gurus de negócios entende-se por cultura empresarial a maneira de pensar e agir, o modelo de comportamento, consciente ou inconsciente, forjado ao longo do tempo, que norteia as decisões tomadas em todos os níveis da organização. Em um cenário de grande pujança econômica em determinada região, ela pode ser decisiva para absorção ou não das oportunidades que chegam a reboque de pesados investimentos. Até o início da década de 80, a indústria teve peso significativo na economia pernambucana, sobretudo aquela ligada à cadeia sucroalcooleira. Para atender as usinas, se desenvolveram no Estado as indústrias têxtil e metal-mecânica. Os empresários da cana viveram décadas sob a "proteção" do governo, que garantia a destinação da produção por meio do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Com a extinção do órgão, em 1990, e o avanço da produção na região Sudeste, muitas usinas fecharam, deixando como herança um empresariado carente de planejamento e visão estratégica. "Pernambuco teve o seu desenvolvimento baseado na cana, o que criou uma aristocracia do açúcar. Se você tem uma elite assim, ela fica meio presa a essa atividade, e isso atrapalhou muito a possibilidade de uma visão mais diversificada da economia", analisa o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco. Estimativas feitas pela Ceplan a partir de dados oficiais apontam para investimentos superiores a R$ 50 bilhões em Pernambuco nos próximos anos, valor que representa quase 60% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual registrado em 2010. Desse montante, quase R$ 40 bilhões serão dirigidos para a área industrial, a grande maioria em setores estreantes no Estado. Entre os empreendimentos de maior porte estão a Refinaria Abreu e Lima (Petrobras), o Estaleiro Atlântico Sul, a fábrica de automóveis da Fiat, a Petroquímica Suape e a Companhia Siderúrgica Suape. Ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o senador pernambucano Armando Monteiro Neto (PTB) também vê a necessidade de um choque de modernidade no empresariado local. Segundo ele, cuja família é famosa pelos negócios nas indústrias sucroalcooleira e metal-mecânica, a chegada de grandes empreendimentos abre um imenso leque de oportunidades, que se divide em dois grupos: fabricação de bens para as novas cadeias e prestação de serviços. No último grupo, o senador acha indispensável um compromisso maior com inovação e profissionalismo. Ciente dessa demanda, a Global do Brasil prepara novidades para seus próximos eventos. "Vamos passar a oferecer apresentações em 3D e com novas definições de imagem, além de equipamentos com menor consumo de energia", adiantou Isio Jacobovitz, o dono da empresa. "Para nós não faz tanta diferença o tamanho do investimento das companhias que chegam. O importante é saber que a exigência de qualidade será muito maior", completou. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), alerta justamente para o fato de que o padrão de qualidade e profissionalismo demandado pelas grandes indústrias que chegam deixará de fora os empresários locais acostumados ao antigo paternalismo do Estado, cujos resquícios ainda são perceptíveis. "Assim como a política tem que mudar, aqueles que vão vender a sua força de trabalho têm que mudar. Os que querem empreender também têm que mudar a cabeça, a visão. Não adianta ficar achando que o governo vai arranjar contrato com a Petrobras." No caso dos grupos locais que almejam se integrar na cadeia como industriais, Monteiro Neto aponta para a dificuldade do empresário pernambucano em se associar. Segundo ele, essa característica pode impedir que muitas oportunidades sejam aproveitadas. A opinião é compartilhada por Tânia Bacelar, para quem é fundamental que as empresas juntem forças em busca, por exemplo, de maior acesso a crédito. "Precisam se organizar, virar sociedade anônima, abrir capital", receitou a economista. Responsável pela implantação do Estaleiro Atlântico Sul, que presidiu até março último, o engenheiro paulista Angelo Bellelis acredita que a falta de informação está entre os principais males que assolam o empresário pernambucano interessado em participar da industrialização. "Ninguém sabe direito qual é a demanda. Ela tem que ser identificada com precisão. Só não sei quem vai fazer esse meio de campo, se o governo, se a entidade das indústrias...", questionou. O deputado federal e presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Jorge Côrte Real (PTB), assume a responsabilidade: "É um dos nossos grandes desafios: aumentar o resultado desses investimentos com a inserção das empresas nessa cadeia. Mas a indústria terá que se modernizar. É necessária a capacitação também do empresário, do executivo", afirmou. Segundo ele, a entidade, ao lado do governo estadual, tem organizado reuniões, onde as grandes empresas apresentam suas necessidades e exigências para os potenciais fornecedores. Enquanto isso, o dono da Global do Brasil, fazendo jus ao nome da empresa, embarca para os Estados Unidos, onde negocia com investidores americanos uma sociedade para a produção de luminárias de tecnologia LED em Pernambuco. Pelo menos por enquanto ele vai continuar surfando, sem sustos, a sua onda. |
Segunda geração avança nos negócios
| Valor Econômico - 01/06/2011 http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/6/1/segunda-geracao-avanca-nos-negocios |
Em meio à necessidade de aperfeiçoamento do empreendedorismo, filhos de empresários tradicionais de Pernambuco começam a se destacar à frente dos negócios. Nascidos em berço esplêndido, eles tiveram a chance de estudar em boas universidades do Brasil e do exterior, tornando-se executivos mais preparados para colocar as empresas familiares na rota do desenvolvimento que chega ao Estado. Um dos casos mais emblemáticos é o de Marcos Roberto Dubeux, filho de um dos três fundadores da Moura Dubeux, maior construtora de Pernambuco. Há poucos anos, a empresa desistiu de abrir o capital em nome da "tradição". É que na época, quando várias construtoras brasileiras foram buscar dinheiro na bolsa, os sócios ficaram receosos de que o controle acionário pudesse ser diluído, pondo em risco o "histórico" CNPJ que se mantém desde a fundação. Aos 32 anos, Marcos está hoje à frente da Cone Suape, empresa do grupo criada para oferecer uma vasta gama de soluções de infraestrutura aos empreendimentos que chegam à região do porto. Prevendo o grande número de projetos que seriam atraídos para a região, a empresa comprou em 2007 uma área de 15 milhões de m2 contígua ao ancoradouro. Hoje muitos trechos do terreno já viraram canteiros de obras. As máquinas que operam no local são a especialidade de Marcos Hacker Melo, de apenas 23 anos, diretor-executivo do grupo Veneza. Fundada pelo pai, a empresa é um dos principais concessionários de máquinas pesadas da Hyundai no Nordeste, onde a demanda está altamente aquecida. Recentemente, já sob o comando do herdeiro, tornou-se a importadora oficial da marca sul-coreana para a região, o que já alavancou exponencialmente os negócios. Apesar de concordar com a necessidade de modernização da cultura empresarial, Dubeux ressalta que Pernambuco tem tradição na formação de grandes conglomerados, citando como exemplo os grupos Votorantim e Queiroz Galvão. Diante disso, ele acredita que ainda há tempo para que o empresariado local possa se beneficiar do desenvolvimento. "Pernambuco vive uma transformação após muitos anos de dúvidas. A refinaria, para quem não lembra, demorou a se concretizar. O mais importante é saber que o futuro não pode ser desenhado com base no passado. É preciso, sim, se conscientizar e investir em pesquisa, tecnologia e planejamento. Em governança, em balanços auditados, em sistemas. Caso contrário a demanda pode mesmo não se estabelecer", sugere. |
Empresários baianos não aproveitaram Camaçari
| Valor Econômico - 01/06/2011 http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/6/1/empresarios-baianos-nao-aproveitaram-camacari |
Assim como acontece hoje em Pernambuco, com Suape, a Bahia já viveu um processo intenso de industrialização de sua economia, especialmente depois da instalação da fábrica da Ford, em 2001, que consolidou a diversificação do polo petroquímico de Camaçari. A grande demanda que chegou junto com os principais empreendimentos também encontrou empresários que estavam pouco preparados para atendê-la, gerando perda de oportunidades. Profundo conhecedor do processo, o presidente da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), José de Freitas Mascarenhas, lembra que os empresários baianos tiveram bastante dificuldade para se inserir na cadeia produtiva do polo. "Na prestação de serviços foi um pouco melhor", recorda o dirigente. Ele avalia como natural, entretanto, o fato de o empresariado pernambucano ainda não estar apto para atender a demanda que vem de Suape. "O padrão de exigência com o qual se convivia antes era bem inferior. Agora os novos empreendimentos vão elevar essa exigência. É um processo educativo", contemporizou. |
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