domingo, 17 de julho de 2011

Fome e seca: assim a África morre

 
A fome. A fome tem uma força tremenda, sacode, destrói, deforma, aniquila homens, regiões, povos. É metódica, trabalha com paciência, não tem pressa. Presenteia, entre todos, a morte mais humilde e tranquila.
A reportagem é de Domenico Quirico, publicada no jornal La Stampa, 14-07-2011. A tradução é de MoisésSbardelotto.
Nos olhos desses moribundos, não se lê sinais de vida ou de expressão. Molécula após molécula, a fome espreme as gorduras e seca as albuminas das células humanas. Torna os ossos tão frágeis que se quebram ao toque, faz encurvar as pernas das crianças, dilui o sangue que flui sem força e sem peso, faz girar a cabeça, disseca os músculos, corrói por fim o tecido nervoso.
Esse é o primeiro passo: depois, a fome esvazia a alma, afugenta a alegria e a esperança, tira a força de pensar e provoca resignação, egoísmo, crueldade, indiferença.
Em Ogaden, na Etiópia, mães, cegas pela fome, jogaram seus filhos nos poços secos, deixaram-nos na beira da estrada, apoiados em um arbusto. Sem se voltarem para trás, recomeçaram a caminhar, passo a passo. Alimento, comida, comer alguma coisa, qualquer coisa: grama seca, dejetos, arbustos, raízes, animais mortos. Por causa da fome, o homem perde o que o torna humano.
O lugar do que falamos chama-se Daab. Localiza-se no Quênia do Norte, a 80 quilômetros da fronteira com a Somália. Por que falamos disso? Dez, doze milhões de pessoas vítimas da carestia que correm o risco de morrer de fome no Chifre da África? Os números são coisas abstratas, não nos dizem nada. Os rostos sim. Os que encontramos em Daab, o maior campo de refugiados no mundo: 400 mil pessoas, 54 mil apenas em junho, três vezes mais do que em maio.
Depois, na semana passada, o ritmo acelerou ainda mais, 20 mil. Agora, todos os dias chegam quase 2 mil. E depois há os outros, aqueles que permaneceram na selva marcando a estrada, sobretudo crianças menores de cinco anos, esqueletos castigados pelos ventos áridos e secos do deserto, para guardar outros esqueletos, os rebanhos mortos diante de poços já secos que ardem na onda de calor feroz.
Um quarto dos somalis fogem do seu país reduzido a uma plaga amaldiçoada pela guerra e pela seca. A sua culpa, se fosse possível dizer, é de não saber qual é a sua culpa. Se a caridade internacional os recusa, se a piedade os rejeita, nada mais os acolherá, e ninguém vai salvá-los. Os homens do Alto Comissariado para os Refugiados da ONUse consomem para alimentar, cuidar, acolher. Um novo campo deve ser construído não muito longe daqui, outros já estão em projeto. Mas a caridade internacional se cansou, aSomália evoca confusões, desastres e decepções.
Ontem, o secretário das Nações UnidasBan Ki-moon, lançou um apelo pelos "11 milhões de homens que, na África do Leste, não podem esperar", porque "é preciso pôr fim ao sofrimento agora, já". Ele lembrou que só a metade do um bilhão e meio de dólares necessários para a operação de socorro está disponível. Agora, todos falam da seca, acusam a Natureza.
Como Elisabeth Byis, porta-voz do escritório de coordenação de assuntos humanitários da ONU: "Não se via nada semelhante há 60 anos. A seca se somou à do ciclo anterior da qual estas áreas ainda não haviam se levantado. O gado, sem nutrição, começou a morrer, e depois os homens, porque os preços dos alimentos explodiu". Eis os elementos daquela que poderia se tornar, nos próximos dias, "uma tragédia de proporções inigualáveis".
Certamente, a natureza tem a sua culpa: a seca chegou e devorou tudo, o verde, as culturas, os rios, as acácias que definham na savana cobertas de poeira. No entanto, é preciso gritar tudo isso, para que não haja confusão, para que, divididos pela responsabilidade, nem todos nos confraternizemos, no fim, na mentira.
Grande Fome (novamente, como há 20 anos, nos mesmos lugares: isso não lhes diz nada?) não depende da meteorologia, mas sim de um círculo fechado desumano. NaSomália, no Ogaden da Etiópia, no norte do Quênia, as pessoas convivem com a seca desde sempre, se deslocam, se esforçam, desfrutam todo riacho, toda poça, resistem. O que os mata, o que os transforma em fugitivos que dependem de caridade são a guerra e a política. Há 20 anos, de uma carestia à outra, a Somália não tem paz: antes, os senhores da guerra, depois os shabab, os islâmicos que querem construir sobre a tragédia a sua sociedade perfeita, divina.
Tudo está abalado e invertido, não há Estado, nem mesmo aquele miserável e degradado da África desesperada. Um povo inerme é refém da loucura política. O Ocidente, prepotente e falador, observou tudo isso com uma curiosidade intensa que desperta coisas assustadoras. Depois, zangado, alimentou a guerra para se livrar dos islâmicos, sem sujar suas mãos.
Por fim, se esqueceu deste pedaço de humanidade muito complicado e periférico. Agora, os shabab anunciaram que permitirão que organizações de ajuda entrem nos territórios por eles controlados para prestar ajuda. Antes que seja tarde demais. Outra vez.
Para ler mais:



‘A fome e a obesidade são duas caras de uma mesma moeda’
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=33433
 
Esther Vivas é uma velha conhecida de The Ecologist. Agora, junto a Josep Maria Antentas, acaba de publicar o livro Resistências Globais. De Seatle à crise de Wall Street. Em seu foco, desde muito tempo, está o sistema agroalimentar global. Obesidade e fome são conseqüências de um modelo criminoso em grande escala.
Entre os trabalhos jornalísticos recentes de Esther Vivas, destacamos a entrevista comTeresa Forcades. Nela, a conhecida freira beneditina sentencia: “ Estamos em um contexto onde se tomam decisões em níveis cada vez mais distantes da cidadania. Com oTratado de Lisboa isso será aprofundado. É um processo que vai mais rápido que a consciência que temos do mesmo. No caso da gripe A, têm existido alguns consensos estranhos e uma falta de debate no terreno político, que somente foi rompido um pouco quando saiu a ministra polonesa questionando essas políticas” . Também acontece isso na agroalimentação. As decisões se tomam sem ter em conta as necessidades dos cidadãos e olhando somente os interesses das grandes companhias do setor.
A entrevista é Pablo Bolaño e publicada na revista The Ecologist, nº41. A tradução é dePaulo Marques para o blog Brasil autogestionário e reproduzido por EcoDebate, 14-06-2010.
Esther Vivas é membro do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais de la Universitat Pompeu Fabra en Barcelona, ativista e co-autora de livros como Del campo al plato (Icaria editorial, 2009) e Supermercados, no gracias (Icaria editorial, 2007), entre outros.
Eis a entrevista.
Aumentam a desnutrição e a obesidade ao mesmo tempo. Estas duas histórias, têm uma mesma origem?
A fome e a obesidade são duas caras de uma mesma moeda, de um sistema agroalimentar privatizado e mercantil. Hoje, a produção agrícola já não responde a nossas necessidades alimentares mas sim está subordinada aos interesses econômicos da indústria agroalimentar. Esta lógica nos têm conduzido a uma situação de grave crise alimentar, onde uma de cada seis pessoas no mundo passa fome, apesar de que se produz mais que em qualquer outro período da história, mas, se você não têm dinheiro suficiente para pagar o preço dos alimentos, não comes. Isto é o que aconteceu com o estouro da crise alimentar dos anos 2007 e 2008, com um aumento espetacular dos preços.
Uma situação de fome que persiste na atualidade. Ao mesmo tempo, os alimentos se produzem, se transformam e se distribuem ao menor custo empresarial possível, explorando todos os atores que participam na cadeia comercial da origem ao fim e estabelecendo um alto diferencial entre o preço pago na origem e no destino.
Isto repercute também na qualidade dos alimentos, já que seu objetivo já não é alimentar-nos de uma forma saudável mas sim reduzir seu custo produtivo. A maior parte dos alimentos que comemos estão altamente processados, com uma quantidade importante de aditivos ( colorantes, edulcorantes, conservantes), transgênicos…e isto repercute em nossa saúde, gerando graves problemas cardiovasculares, de colesterol, obesidade, alergias, entre outros. E são, majoritariamente, as famílias com menores recursos econômicos que mais sofrem as conseqüências deste modelo alimentar.
Determinados estudos científicos mostram que comer produtos refinados, como açucar, saturado de gorduras… produtos que estão carregados de resíduos tóxicos… expõe nosso organismo a substancias químicas que podem atuar como disruptores hormonais que inibem a capacidade de nossos corpos de auto-regular seu peso. Mas, na realidade, os melhores alimentos não são os mais caros… A soberania alimentar é algo mais que o direito a comer o suficiente para sobreviver?
Efetivamente. A soberania não só exige que todo o mundo tenha acesso aos alimentos, senão que também proponha um modelo de produção, distribuição e consumo que situe em seu centro o pequeno produtor e nosso direito a comer alimentos sãos e saudáveis.
A soberania alimentar põe de ponta cabeça a lógica deslocalizadora, intensiva, quilométrica, petrodependente…que rege o sistema agroalimentar global, pondo em questão a privatização dos bens naturais ( a água, a terra, as sementes…) e o monopólio empresarial em toda a cadeia alimentar, assim como a convivência política e institucional com a mesma.
A soberania alimentar exige terra para quem nela trabalhe, sementes para quem as cultiva, alimentos saudáveis e de proximidade para quem os consome. Em suma, se reapropriar dos mecanismos de produção e distribuição de alimentos, que nunca deveriam nos ser espoliados.
Se tanto a esquerda com seus modelos anti-tradicionalistas e a direita com seus modelos neoliberais têm colocado em questão o papel da família… Como as crianças podem aprender a alimentar-se se não há vida em família, alimentação em família?
O modo como nos alimentamos também têm sofrido uma mudança radical. A alimentação de nossos avós pouco têm a ver com a nossa, e tampouco tem passado tantos anos. Temos perdido em diversidade agroalimentar, conhecimento e qualidade e somos muito pouco conscientes disso. Isto tem sua face mais dramática nos países do Sul gravemente golpeados pela crise alimentar, ainda que nos afete aqui no Norte.
Nos vendem a ilusão de que nos supermercados podemos encontrar uma ampla gama de alimentos. Mas a realidade é outra, muito distinta. No estado espanhol, sete empresas controlam 75% da distribuição de comida e essa tendência têm crescido, e em quase todos os supermercados encontramos os mesmos produtos. Onde está, então a tal variedade? Temos que recuperar o controle da produção, a distribuição e o consumo de alimentos e o saber alimentar.
O direito internacional garante a soberania interna e externa de um Estado. Mas, quem garante a sua soberania alimentar?
A soberania alimentar deveria estar garantida pelos Estados, mas hoje em dia os ditames da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional, com o beneplácito dos governos de distintos países, deixam a economia, a alimentação, o bem estar, a saúde, o meio ambiente… nas mãos do mercado. É necessário e urgente mudar essas políticas, mas para faze-lo é fundamental uma correlação de forças favoráveis em mãos dos “de baixo”, as e os resistentes. Há que trabalhar nesta direção.
O que chega ao supermercado, as ofertas da semana, o que no final chega a nosso prato…Do que depende? Ou melhor dito, quem decide?
Se avaliamos que a população camponesa tende a desaparecer, que no Estado Espanhol tão só 5% da população ativa trabalha no campo, que se vive uma crescente “descamponização” …Então, de quem depende nossa alimentação? A resposta é clara: multinacionais como Cargill, Monsanto, Nestlé, Carrefour, Alcampo, entre muitas outras, acabam determinando o que se consome. Como, de onde provém e o que se paga. Portanto, nosso direito a alimentação, como temos visto com a crise alimentar global, está gravemente ameaçado.
Generalitat (1) está proibindo que nas escolas entre “comida lixo” enquanto que em seus meios de informação fazem publicidade de todo tipo de produtos supostamente alimentares muito nocivos para a infância… O correto não seria fazer como na Alemanha e Itália em cujas escolas já existe alimentação ecológica em grande porcentagem, de caráter local e camponesa?
Poderíamos dizer que existe uma dupla moral. Desde as administrações públicas se faz propaganda da agricultura ecológica, mas suas políticas agrárias se subordinam aos interesses da indústria agroalimentar. Colocamos um exemplo: Na Catalunha, ao longo do ano de 2009, a Plataforma “Son lo que Sembrem” recolheu mais de 100 mil assinaturas impulsionando uma iniciativa Legislativa popular contra os transgênicos, mas quando esta chegou ao Parlamento Catalão foi rechaçada . Os parlamentares se agarraram aos interesses empresariais pró-transgênicos.
As regiões da Catalunha e Aragão são as zonas da Europa com a maior produção de transgênicos, inclusive com variedades proibidas em outros países europeus. A administração pública pode seguir falando de agricultura ecológica, mas se não for proibido os transgênicos, cedo ou tarde, com essa falsa co-existência, a agricultura convencional e ecológica desaparecerão.
As experiências dos restaurantes ecológicos na Itália são iniciativas que temos que ter em conta e seguir, uma vez que são uma das principais fontes de viabilidade da agricultura ecológica e camponesa na Itália. Tomemos nota.
Nota:
1.- Generalitat é a denominação do governo da Catalunha.
Para ler mais:

Nenhum comentário:

Postar um comentário