domingo, 13 de maio de 2012

Mineração em terra indígena avança na Câmara


As reservas indígenas do país poderão ter suas portas abertas para a exploração de recursos minerais, uma prática que hoje é proibida por lei. O tema polêmico ficou no limbo durante quase duas décadas, mas voltou à baila no início deste ano, com a retomada pelo Congresso do Projeto de Lei 1.610, que trata da mineração em terras indígenas. Uma Comissão Especial foi criada na Câmara para tratar exclusivamente do assunto, em discussão na Casa desde 1996. A previsão é que um substitutivo do texto original seja votado e encaminhado ao Senado na primeira quinzena de julho, para depois seguir à sansão presidencial. A proposta, se for adiante tal como está, tem tudo para alterar radicalmente a fotografia da exploração mineral no país.

A reportagem é de André Borges e publicada pelo jornal Valor, 09-05-2012.

Pelas novas regras, a entrada de empresas nas terras indígenas ficaria condicionada ao pagamento de royalties aos índios que tiverem áreas afetadas pela lavra. A empresa que explora o minério teria de desembolsar aos índios algo entre 2% e 3% da receita bruta aferida no negócio durante todo o tempo de exploração. Para administrar esse dinheiro, será criado um fundo específico de captação. A gestão dos recursos e dos repasses que serão feitos aos índios ficaria nas mãos de um conselho administrativo formado por representantes do governo, da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Ministério Público Federal e da população indígena afetada.

A proposta em andamento também altera o modelo de autorização para exploração mineral. Hoje, a permissão de lavra é dada pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) ao primeiro empreendedor que apresentar o estudo técnico e o pedido de exploração da área, isto é, o critério é a ordem de chegada. No caso das reservas indígenas, essa exploração ficaria condicionada à realização de leilões. A empresa interessada teria de ganhar uma concessão para explorar a região, a qual teria a sua viabilidade exploratória atestada por levantamentos preliminares feitos pelo governo. A licitação das áreas só ocorreria após a realização de audiências com as comunidades indígenas e a emissão de laudos antropológico, ambiental e mineral, além da emissão da Licença Ambiental Prévia concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Outro ponto polêmico trata dos critérios de decisão sobre as áreas que poderiam ser ou não exploradas. Ficou estabelecido que terras indígenas ocupadas por aldeias que nunca foram contatadas devem ser mantidas como estão, sem nenhum tipo de ação exploratória. Em todas as demais, porém, a palavra final sobre a possibilidade de execução de lavra seria dada pelo Palácio do Planalto. Na prática, significa que os índios sempre seriam ouvidos e teriam espaço para apresentar seus pedidos de compensação para liberar a terra, mas não teriam poder de veto sobre a execução de um projeto.

Funai apoia a proposta
. "Acompanhamos o assunto de perto e esperamos que essa solução saia neste ano", diz Aloysio Guapindaia, diretor do Departamento de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai.

Mesmo com as resistências que o assunto enfrenta (ver texto abaixo), o relator do projeto original, senador Romero Jucá (PMDB), afirma que a proposta tem tudo para ser aprovada já no próximo semestre. "O projeto está maduro, o governo acompanha esse assunto de perto e o Ministério de Minas e Energia defende a regulamentação", diz.

Para o relator do projeto atual na Câmara, deputado federal Édio Lopes (PMDB-RR), a proposta conseguiu alcançar um "ponto de equilíbrio" entre o interesse nacional e as demandas indígenas. "Pela primeira vez, temos uma grande possibilidade de aprovarmos essa matéria. Está na hora de regularizar a mineração em terras indígenas. O país não pode mais prescindir desse potencial, sobretudo no arco Norte do país", comenta.

Nesta semana, a Comissão Especial de Mineração da Câmara foi até São Gabriel da Cachoeira (AM), para realizar um seminário sobre o assunto com a comunidade indígena. No dia 11, os parlamentares estarão no município de Presidente Figueiredo, também no Amazonas. No fim de semana, seguirão em viagem até o Canadá, país onde o modelo de exploração de terras indígenas mediante o pagamento de royalty já é aplicado há muito tempo. A ideia, segundo o deputado Padre Tom (PT-RO), é colher detalhes do modelo canadense para aprimorar a proposta do país.

O Brasil tem hoje 608 terras indígenas demarcadas, áreas que somam 109 milhões de hectares, o equivalente a 13% do território nacional. Desse total, 98% estão concentrados na chamada Amazônia Legal, área que envolve os Estados do Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e parte do Maranhão.

O Estado de Roraima, por exemplo, tem quase metade de seu território dentro de reserva indígena. No Amazonas, essa fatia é de 20%. O censo demográfico realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 817 mil pessoas se declararam indígenas, o que equivale a 0,42% da população do país. O número superou em 11% o volume registrado no censo de 2000.
Tema pode esbarrar no Judiciário

A liberação das reservas indígenas para a mineração ainda não é um consenso no governo e tudo indica que haverá dificuldades para levar a proposta adiante. O próprio presidente da Comissão Especial de Mineração na Câmara, deputado Padre Tom (PT-RO), admite que o governo ainda não assumiu claramente o ônus político que o projeto pode gerar, principalmente em um momento em que se aguarda uma definição sobre os rumos do Código Florestal e do próprio Código da Mineração, que promete alterar substancialmente as regras e os encargos pagos pelas empresas na extração de minérios.

"É preciso que o governo tome uma postura decisiva. O Ministério de Minas e Energia já informou que é absolutamente favorável, mas falta uma definição mais clara do Ministério da Justiça [que controla a Funai] e também da Casa Civil", comenta o deputado Padre Tom. A Funai é favorável à regulamentação, segundo Aloysio Guapindaia, diretor do departamento de promoção ao desenvolvimento sustentável da fundação. A Casa Civil foi procurada pelo Valor, mas não enviou um posicionamento sobre o assunto até o fechamento desta edição.

O receio dos parlamentares, principalmente aqueles da
bancada ruralista, é de que a proposta tenha o mesmo desfecho de outras disputas polêmicas que já envolveram terras indígenas, como a demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. O deputado Édio Lopes, que agora relata o novo texto PL 1.610, foi um dos opositores da demarcação contínua da Raposa Serra do Sol. Em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que arrozeiros e fazendeiros que viviam na terra indígena deixassem a área de 1,7 milhão de hectares, o equivalente a 12 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Na semana passada, o STF chegou a mais uma conclusão em favor dos índios, derrubando títulos de propriedades que foram dados a fazendeiros e agricultores no Sul da Bahia. Em sua decisão, o STF reconheceu o direito dos índios de ocuparem os 54 mil hectares de uma região que, segundo a Funai, faz parte de uma reserva indígena, embora não estivesse homologada.

Seja qual for a decisão final sobre a exploração mineral nas reservas, é certo que o caminho deverá estar repleto de brechas para disputas judiciais. Para o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organização vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a abertura das reservas à mineração irá potencializar os conflitos com as aldeias. "Somos contrários a essa proposta. Na prática, o que vemos é que essa condição de pagamento de royalty ao índio é tão ou mais danosa que a própria extração do minério", diz Cleber Buzatto, secretário-executivo do Cimi. "Essa condição mexe profundamente com a cultura do povo indígena e cria uma série de dependências. Nós não temos sequer noção das consequências que isso pode gerar no futuro."

Na realidade, a aprovação do PL 1.610, segundo Buzatto, seria uma tentativa de driblar o que estava previsto numa regulamentação anterior, que altera o estatuto do índio. O Projeto de Lei 2.057, em tramitação há 21 anos, trata da questão da mineração em um de seus capítulos e garante ao índio a decisão final sobre a autorização da lavra
. No texto atual do PL 1.610, esse poder de veto indígena foi retirado, uma imposição que os índios não estão dispostos a acatar.

"Não somos contra a discussão da mineração e estamos abertos ao debate até que essa consulta ampla chegue a toda comunidade, mas precisamos ter assegurada a garantia de nossos direitos", diz Kleber Luiz Santos Karipuna, liderança indígena no Amapá. "Quem quiser dizer sim à mineração, que diga com tranquilidade. Quem quiser dizer não, que tenha respeitada essa posição."

A falta de entendimento sobre o assunto e a dificuldade de debatê-lo com as comunidades também incomoda Francisca Novantina Ângelo, lider indígena no Mato Grosso. "Queremos participar efetivamente para ter clareza sobre o que será feito. É um tema de difícil compreensão para o movimento indígena, que não tem o domínio técnico e político da discussão e, por isso, pode ser prejudicado", diz.

Mais contundente ainda é a posição da Articulação dos Povos Indígenas Brasil (Apib). "Estamos sendo pressionados para dizer sim a esse projeto, e não para participar de um debate. E se dissermos não? Nós seremos respeitados?", questiona Rosane Kaingang, representante da Apib.

Governo sucumbe mais uma vez a interesses ruralistas


10/05/2012

Ao aceitar condicionantes para a aprovação da PEC do Trabalho Escravo, líderes governistas do Congresso abrem precedente perigoso

O que era para ser uma articulação política em torno de uma proposta central para que o país dê um passo no combate do trabalho escravo virou um festival de barganhas em benefício próprio protagonizado pelos ruralistas. Como no trâmite da proposta de revisão do Código Florestal, os grandes fazendeiros dominaram o jogo político ao estabelecer as bases do que estão dispostos a colocar em negociação, fazendo valer o seu peso no Congresso e postergando qualquer intenção que não seja a deles mesmos.
Sessão extraordinária na Câmara dos Deputados em que deveria ter acontecido a votação da PEC 438. Fotos: Daniel Santini
Em manobra orquestrada nesta quarta-feira (9), o setor que representa os latifundiários conseguiu não apenas adiar em duas semanas a votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001, que determina o confisco das propriedades de quem for flagrado explorando mão de obra escrava, como também inverteu a lógica das discussões, desviando o foco da emenda em si - cujo conteúdo foi apresentado pela primeira vez em 1995, há 17 anos - para a suposta necessidade de uma lei complementar associada sobre a caracterização do trabalho escravo contemporâneo.

Segmentos governistas acharam que "convenceriam" os ruralistas com um par de arriscadas promessas de "compensação", mas o que acabou ocorrendo foi justamente o contrário. Os grandes proprietários aproveitaram a "boa vontade" dos que estão empenhados em aprovar a matéria a todo custo e impuseram as suas "vontades". E, mesmo com todas as concessões, acabaram esvaziando a votação e reforçando a sua posição de formuladores preferenciais de uma legislação que buscará balizar o tema.

A bancada ruralista insiste no argumento de que a adoção da emenda provocaria insegurança jurídica, uma vez que pretensas "arbitrariedades" de órgãos de fiscalização trabalhista poderiam colocar propriedades privadas em risco. Como se a manutenção de condições análogas à escravidão - crime previsto no art. 149 do Código Penal, em convenções internacionais e em decisões judiciais de tribunais superiores - não fosse "arbitrariedade" alguma.

A injustiça, para os ruralistas, está na atitude de quem fiscaliza, e não na própria conduta dos fiscalizados, que vêm sendo sistematicamente flagrados, ao longo dos últimos anos, submetendo pessoas a trabalho froçado, jornada exaustiva, condições degradantes e restrições de locomoção por dívida. Mais de 42 mil trabalhadoras e trabalhadores forem libertados desde 1995.

O intento ruralista de vincular a PEC 438 com uma legislação que pode fragilizar o conceito de trabalho escravo contemporâneo parece ter sido perigosamente aceito e incorporado por lideranças parlamentares governistas, inclusive pelo próprio presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS). A avidez por "boas notícias" geradas no Parlamento fez com que o comandante da Casa atuasse pessoalmente no sentido de firmar um "acordão" com a cúpula do Senado para que as ambições ruralistas de revisar o "conceito" de trabalho escravo fossem contempladas. Até a criação de um grupo de trabalho (composto por cinco membros da Câmara e cinco do Senado e dedicado a "regulamentar a efetivação" da emenda) chegou a ser acertada.
Esse grupo especial estaria incumbido de estabelecer, segundo as próprias palavras de Marco Maia, a diferenciação entre trabalho escravo e irregularidades trabalhistas quando do retorno da PEC 438 ao Senado, visto que a matéria foi modificada na votação em 1° turno na Câmara, em 2004, para incluir também o confisco de imóveis urbanos.
Detalhes
Após intensa pressão da sociedade civil (materializada em amplo ato no Auditório Nereu Ramos, na própria Câmara dos Deputados, que contou com a presença de ministros, artistas e movimentos sociais, seguida da entrega de abaixo-assinado com dezenas de milhares de assinaturas a favor da proposta) que se concentrou na última terça (8), a votação da PEC do Trabalho Escravo acabou sendo transferida temporariamente para o dia seguinte.

Depois de negociações entre diversos líderes e do já citado encontro entre as cúpulas das duas Casas ao longo desta quarta (9), a emenda foi finalmente colocada em pauta de votação em sessão extraordinária do Plenário da Câmara que se iniciou por volta das 20h15. Cerca de sete anos e nove meses depois da aprovação em 1° turno, em agosto de 2004, a PEC 438 estava sendo novamente submetida ao escrutínio, agora em 2° turno.

O início da manobra se deu com declarações feitas à imprensa feitas por Moreira Mendes (PSD-RO) - coordenador da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que aglutina a bancada ruralista - ainda no início da tarde, bem antes da sessão. Ele anunciou que os seus pares não votariam a PEC e que só estariam disposto a seguir para o voto caso a matéria seja vinculada a uma lei complementar com "definições" a respeito do trabalho escravo. Como se pôde ver algumas horas depois, a exigência ruralista surtiu efeito.

A despeito de enfáticas defesas pela aprovação da matéria como a dos deputado federal Sibá Machado (PT-AC) - para quem há uma diferença muito grande entre lucro e extorsão -, bem como de posições contrárias - Nelson Marquezelli (PTB-SP), por exemplo, classificou a emenda como "crime à democracia brasileira", pois até quem comete homicídio tem direito à defesa e, "se tiver um bom advogado, nem preso vai" -, o "veredito" foi dado pelo líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), à frente da segunda maior bancada da Casa, com 78 cadeiras, atrás apenas do PT (com 85).

Às 20h56, o líder peemedebista tomou a palavra para dizer que, "emoções à parte", não tinha segurança absoluta de que a emenda seria aprovada com tranquilidade. Naquele momento, 338 deputadas e deputados tinham confirmado presença no Plenário. Para ser aprovada, uma PEC necessita da aprovação de três quintos da Casa, ou seja, de ao menos 308 votos. Na sequência, sugeriu o adiamento "improrrogável" para 22 de maio e também citou a necessidade de uma "regulamentação para a efetividade" da emenda. "A intenção não é apenas de discutir. Queremos aprovar essa PEC".

Para o líder do PMDB, a negociação que chegou ao Senado atingiu 80%, mas não se conseguiu chegar a um "ponto de equilíbrio" para aprovação. Durante as próximas duas semanas, ele prometeu um "entendimento".
Congresso Nacional no dia em que a votação da PEC 438 foi adiada mais uma vez
Prontamente, ruralistas como Luiz Carlos Heinze (PP-RS), Abelardo Lupion (DEM-PR), Giovanni Queiroz (PDT-PA), Edmar Arruda (PSC-PR), Josué Bengtson (PTB/PA) e o próprio Moreira Mendes declararam apoio à sugestão de adiamento da votação por um prazo de duas semanas. Todos repisaram a necessidade de uma legislação complementar associada à PEC 438, deixando evidente a estratégia de deslocar a discussão da proposta em si. Domingos Sávio (PSDB/MG), que se pronunciou em nome da bancada tucana, também reforçou a tese da pretensa "insegurança jurídica".

Em postura dissonante, Ivan Valente (PSol-SP) não compactou com o adiamento e renovou o apelo para que a PEC 438 fosse votada imediatamente, uma vez que, pelo regimento, o texto não pode sofrer alterações na votação em 2° turno. "A não ser que se tenha a intenção de não apenas regulamentar a PEC no retorno ao Senado, mas mudar o conceito de trabalho escravo. Isso é inaceitável", pontuou. De acordo com ele, o país não pode retroceder para concepções atrasadas da escravidão dos grilhões e das bolas de ferro e deve manter os fundamentos que já vem adotando, que são reconhecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Quando o placar da Câmara registrava um quórum de 413 deputados (100 a menos que a totalidade dos 513), às 21h32, a deputada Luciana Santos (PCdoB-PE) manifestou a compreensão no que diz respeito à ausência de garantia de aprovação da matéria, mas deixou registrado o seu desejo de que a votação fosse realizada ainda na noite de quarta (9). "Sabemos que podemos sair derrotados", completou o líder petista Jilmar Tatto (PT-SP), que disse também que a nao aprovação da PEC do Trabalho Escravo "está se tornando uma vergonha para essa Casa e para o país".

Com a transferência da votação para o próximo dia 22, toda a pressão e mobilização social em torno da aprovação do confisco dos bens de escravagistas acaba sendo deslocada, como almejavam e manejaram de forma oportunista os ruralistas, da adoção imediata da medida em si para uma nova polêmica sobre a caracterização do trabalho escravo, questão essa que não faz (nem pretende fazer) parte das reividindicações da sociedade civil.

Tetra Pak identifica 2,7 bilhões de novos consumidores para a indústria do leite



Uma nova pesquisa da Tetra Pak, líder mundial em soluções para processamento e envase de alimentos, identifica que 2,7 bilhões de novos consumidores serão a próxima grande oportunidade de mercado para a indústria de laticínios. Essa expectativa surge da população de baixa renda que deve emergir nos países em desenvolvimento, graças ao esperado aumento da prosperidade, do poder de compra e do desejo de consumo de produtos lácteos líquidos.

De acordo com o estudo Tetra Pak Dairy Index - que acompanha em todo o mundo fatos, números e tendências na indústria de laticínios - o consumo de lácteos da população de baixa renda em mercados em desenvolvimento deve aumentar de 70 bilhões de litros em 2011 para quase 80 bilhões de litros em 2014. Muitos destes consumidores passarão a comprar o leite embalado, ao invés do leite cru.

Segundo Dennis Jönsson, Presidente e CEO da Tetra Pak, os consumidores de baixa renda representam quase 40% da população mundial e, além de viverem em economias que impulsionam o crescimento da indústria, o poder aquisitivo dessa classe está aumentando. "Isso representa uma das maiores oportunidades de crescimento para a indústria láctea e a chave para o sucesso de amanhã está em atingir esses consumidores hoje", defende Dennis.

Atualmente estes consumidores têm uma renda média de US$ 2 a US$ 8 por dia e são virtualmente inalcançados pelos produtores de lácteos. Chamados pela Tetra Pak de consumidores do meio da pirâmide - ou Deeper in the Pyramid (DIP), em inglês - representam cerca de 50% da população dos países em desenvolvimento e consomem 38% dos produtos lácteos líquidos. Metade destes consumidores DIP vivem na Índia e na China. A pesquisa da Tetra Pakfoi focada em seis países, que representam mais de 76% do consumo dos produtos lácteos líquidos destes consumidores na Índia, China, Indonésia, Brasil, Paquistão e Quênia.

Muitos destes consumidores DIP devem ter melhor renda, passando da classe baixa para a média até o final da década, aumentando seu poder de compra e a gama de produtos que compram. O aumento do poder aquisitivo vem acompanhado de uma maior consciência da segurança alimentar e a busca por conveniência, de produtos prontos para beber, o que deverá aumentar a demanda por produtos embalados.

A população mundial DIP deverá cair a uma taxa composta anual de 3% de 2009-2020. A população que vive com mais de US$ 8 por dia deverá crescer 4% anualmente (CAGR), de acordo com a Boston Consulting Group, que ajudou a Tetra Pak a desenvolver a classificação DIP.

De acordo com Dennis Jönsson, os consumidores de baixa renda de hoje são a classe média de amanhã. "Consideramos que esta é uma oportunidade de ouro para os produtores de lácteos cultivarem a lealdade desta parcela da população e criarem uma nova geração de consumidores de lácteos nos países em desenvolvimento", afirma.

Tetra Pak identificou que os laticínios devem superar três desafios fundamentais. Desde já, os produtos devem ser economicamente acessíveis, atraentes e estarem disponíveis para os consumidores com rendas limitadas. Isso significa que as indústrias de lácteos devem oferecer produtos saudáveis, seguros, nutritivos e embalados, sem adição de custos insustentáveis. Eles também devem disponibilizá-los em pequenas lojas tradicionais em áreas rurais remotas ou em cidades congestionadas, onde os consumidores DIP compram.

Inovação e eficiência serão soluções vitais para ajudar a indústria a desenvolver produtos, embalagens e processamento para atender às necessidades desses consumidores de baixa renda, de acordo com o relatório. "Temos de desenvolver produtos de maneira diferente, distribuí-los de forma diferente e vendê-los de forma diferente para aumentar a disponibilidade de uma boa nutrição nos países em desenvolvimento", afirma Jönsson.

Tetra Pak identificou algumas de maneiras de tornar os produtos mais acessíveis. Dentre elas está a mudança na forma como os produtos lácteos e as embalagens são desenvolvidos. É possível utilizar, por exemplo, alternativas ao leite integral, como o soro de leite ou ácido lácteo, na produção de bebidas lácteas nutritivas e saudáveis com menor custo. Outra forma é reduzir o tamanho das embalagens, ou optar por formatos mais simples.

Descobrir maneiras de tornar os produtos lácteos embalados amplamente disponíveis aos consumidores DIP é também um desafio. Cerca de 70% das compras deste público são realizadas nos comércios tradicionais e em pequenas lojas familiares. Para atingi-los, as empresas estão chegando de formas inovadoras e estão produzindo localmente onde a demanda por produtos lácteos líquidos embalados está crescendo. Além de unir-se com os distribuidores que têm um histórico de trabalhar com lojas tradicionais, os fabricantes também investem no uso dos transportes adequados, como bicicletas, para distribuir seus produtos.

Tornar os produtos atraentes para os consumidores DIP, que se concentram em oferecer o melhor para seus filhos e, muitas vezes reduzem outras despesas antes de comprometer a alimentação nutricional básica, como leite, é o desafio final. De acordo com o Tetra Pak Dairy Index, as empresas precisam gerar vendas significativas para alcançar as economias de escala necessárias para fornecer melhor custo-benefício e qualidade nutricional para os consumidores DIP. Os fabricantes precisam também criar conscientização das suas marcas e envolvimento para produtos destinados às crianças que compram bebidas lácteas e lanches com seu próprio dinheiro.

Crescimento de produtos lácteos líquidos acelera entre 2011 e 2014

Ainda de acordo com a pesquisa Tetra Pak Dairy Index, a demanda por produtos lácteos líquidos será acelerada entre 2011 e 2014, principalmente pelo aumento do consumo na Ásia, África e América Latina. Este consumo global deve aumentar cerca de 2,9% ao ano (CAGR) entre 2011 e 2014, acelerando dos 2,5% entre 2008 e 2011, liderado por uma forte procura nos mercados emergentes.

O consumo de bebidas à base de ácido láctico (LAD), leites infantis e leites aromatizados devem crescer à rápidas taxas entre 2011-2014. Os LAD que tendem a ser bebidas acessíveis e preferidas entre os consumidores DIP da Àsia, devem crescer cerca de 11,9% (CAGR), seguidos pelos leites infantis CAGR 9,0% e leites aromatizados, com 4,8% (CAGR
).

Segundo Dennis Jönsson, fornecer produtos lácteos saudáveis, nutritivos e embalados para os consumidores DIP não é apenas uma oportunidade de negócio. "É uma oportunidade de transformar vidas, tornar os alimentos nutritivos seguros e disponíveis para uma nova geração de consumidores emergentes", afirma o CEO.

Para saber mais

Clique aqui e baixe a quinta edição da pesquisa Tetra Pak Dairy Index(arquivo PDF).

Líder mundial

Tetra Pak é líder mundial em soluções para processamento e envase de alimentos. Trabalhando próximo aos fornecedores e clientes, fornece produtos seguros, inovadores e ambientalmente corretos que a cada dia atendem às necessidades de centenas de milhões de pessoas em mais de 170 países ao redor do mundo.

Com aproximadamente 22.000 funcionários baseados em mais de 85 países, a empresa acredita na gestão responsável e abordagem sustentável do negócio. O slogan PROTEGE O QUE É BOM reflete sua visão de tornar o alimento seguro e disponível, em qualquer lugar.

Mais informações sobre a Tetra Pak estão disponíveis nowww.tetrapak.com.br.

Ainda como investidor pequeno, Brasil está na corrida para fincar pé na África


Paula Adamo Idoeta
Atualizado em  9 de maio, 2012 - 05:50 (Brasília) 08:50 GMT
Presença brasileira é mais forte em Angola (foto) e Moçambique
O Brasil ainda abocanha uma parcela pequena das oportunidades de negócios na África, mas tenta ampliar seus investimentos para "fincar o pé" no continente. Para alguns analistas, porém, o país ainda está perdendo chances de crescer no outro lado do Atlântico.
Segundo estudo recém-lançado pela consultoria Ernst & Young, o Brasil está no fim da lista dos 30 maiores investidores da África, respondendo por apenas 0,6% dos novos projetos de investimentos diretos estrangeiros (FDI, na sigla em inglês) no continente entre 2003 e 2011.
Em comparação, os EUA abocanharam 12,5% dos novos projetos; a China (Hong Kong incluída), 3,1%; e a Índia, 5,2%.
Na última quinta-feira, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) realizou seminário, no Rio, para debater a cooperação com o continente africano.
Na ocasião, o banco BTG Pactual afirmou a intenção de captar US$ 1 bilhão para investimentos do setor privado brasileiro na África, em áreas como energia, infraestrutura e agricultura, relata O Estado de S. Paulo. A Eletrobrás também estuda hidrelétricas em Angola e Moçambique, e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, pediu mais aportes do G20 (grupo das maiores economias do mundo) ao Banco Africano de Desenvolvimento.
Investimentos e o desenvolvimento do continente africano também serão debatidos pelo Fórum Econômico Mundial, em reunião na Etiópia, entre quarta e sexta-feira, que tem como tema as transformações em curso na África.

'Perdendo oportunidades'

Os investimentos brasileiros em terras africanas cresceram 10,7% entre 2007 e 2011, mas em índices menores que outros emergentes - a taxa da Turquia, por exemplo, foi de 49,5% no período, aponta o relatório.
"Nossa visão é de que as companhias brasileiras estão perdendo oportunidades na África", disse à BBC Brasil Michael Lalor, diretor do Africa Business Center da Ernst & Young. "Foram 33 projetos de investimento estrangeiro direto do Brasil na África desde 2003 - menos de 1% do total."
E, com o crescimento do mercado consumidor africano, "surpreende que empresas brasileiras de consumo - serviços financeiros, varejo, telecom - não estejam mais ativos no continente", agregou. Para o executivo, há também expectativas de que o Brasil "use seu expertise em biocombustíveis para investir mais fortemente nisso".
Projetos mais agressivos de investimento na África são de Índia e China (foto acima, no Congo)
Já há alguns ensaios nesse sentido. Em 2011, as empresas brasileiras Guarani e Petrobras assinaram um memorando de intenções de estudar a viabilidade de produzir biocombustível em Maputo, Moçambique.

Laços históricos

"O Brasil tem laços históricos e significativos com partes do continente", ressaltou Ajen Sita, presidente-executivo da E&Y na África, em referência aos fortes investimentos brasileiros em países de língua portuguesa, como Moçambique e Angola, visitados pela presidente Dilma Rousseff no ano passado.
O primeiro país abriga empreendimentos da Vale e da Odebrecht, uma das maiores empregadoras locais; o segundo é o maior receptor dos investimentos brasileiros no continente (R$ 7 bilhões, segundo estimativas de 2011 da Associação de Empresários e Executivos Brasileiros em Angola). Empresas como Petrobras e construtoras como Odebrecht e Andrade Gutierrez têm operações sólidas ali.
Indo além da África lusófona, porém, a presença brasileira ainda é tímida. "O Brasil ainda não investe (o suficiente) para fincar seu pé de uma maneira mais abrangente na África", agregou Ajen Sita.
Mas, para a diretora reginal da África da Economist Intelligence Unit, Pratibha Thaker, o Brasil está seguindo um curso natural. "Não acho que o país tenha desperdiçado oportunidades. Começou com os países de língua portuguesa e agora está avançando para outros - por exemplo a África do Sul, onde mira o varejo e a agricultura", afirmou à BBC Brasil.
"É a primeira vez que o continente africano está sendo encarado com seriedade pelo mundo (como um polo de oportunidades). E o Brasil, ao contrário da China, é bem visto por sua tendência a empregar mão de obra local, transferir tecnologia."
Ela adverte, porém, que espaços não ocupados por outros países na África serão tomados por investimentos chineses e indianos.

Avanços e recuos da África

Construção em Maputo, Moçambique
Demanda por infraestrutura ainda é grande no continente africano
O relatório da Ernst & Young aponta que, entre 2010 e 2011, cresceu 27% o número de projetos financiados por investimento direto estrangeiro na África. Os principais receptores são África do Sul, Egito, Marrocos, Argélia, Tunísia, Nigéria e Angola.
Mesmo assim, o continente abocanha apenas 5,5% do total dos investimentos estrangeiros - algo que, na opinião de Ajen Sita, "não reflete o potencial econômico da África".
Isso é atribuído à desconfiança de muitos investidores com relação à instabilidade política, à corrupção e às dificuldades em fazer negócios atribuídas aos países africanos.
No levantamento feito pela E&Y, empresários sem presença na África veem a região como "a menos atrativa para negócios do mundo". No entanto, diz a consultoria, quem já faz negócios na África tende a melhorar sua percepção sobre o continente e a considerá-lo quase tão atrativo quanto a Ásia.
Também cresce o volume de negócios entre países africanos, enquanto velhos desafios permanecem: a infraestrutura continental é deficiente e requer investimentos de mais de US$ 90 bilhões, apontou Sita.
Outro antigo desafio é a estabilidade continental - um problema antigo que atualmente se manifesta com os levantes da Primavera Árabe e com golpes de Estado em países como Mali e Guiné-Bissau.
Em resposta a isso, o relatório da E&Y afirma que, apesar de focos de conflitos, "a democratização africana é algo real, com os Estados unipartidários se tornando cada vez mais a exceção, em vez de a regra".