quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Avanço das UPPs muda desenho do mercado de drogas do Rio

Qua, 01 Dez, 07h05
Por Pedro Fonseca
RIO DE JANEIRO (Reuters) - A estratégia das forças de segurança de retomar favelas cariocas dominadas pelo tráfico de drogas, ressaltada pela ocupação do Complexo do Alemão no fim de semana, implicará em transformações profundas num mercado de venda de drogas que fatura entre 300 e 600 milhões de reais anuais.
Sem o domínio de territórios imposto pela autoridade de um fuzil, as facções criminosas que durante as últimas três décadas controlaram a venda de entorpecentes na cidade passarão a ter um mercado mais restrito, enquanto os consumidores de drogas das classes média e alta passarão a buscar outras formas de fornecimento, na avaliação de especialistas de segurança pública e violência no Rio ouvidos pela Reuters.
Se confirmadas, essas mudanças podem transformar o Rio de Janeiro num local mais seguro, desde que as autoridades de segurança pública continuem desarmando os grupos criminosos. Do contrário, é possível antecipar um aumento no número de sequestro e assaltos a bancos, além da transferência das ações criminosas para o interior do Estado.
"A experiência internacional e histórica indica que, pelo menos num primeiro momento, quando você asfixia uma determinada atividade ou uma área de ação criminosa, ocorre o deslocamento, seja para outro tipo de atividade seja o deslocamento para outras regiões. É ai que precisa entrar a ação do Estado", alerta o cientista político João Trajano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
O sufocamento ao tráfico citado por Trajano é representado principalmente pela implementação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), que provocou saída de chefes do tráfico de favelas onde esse tipo de policiamento foi instaurado.
As 13 UPPs montadas em morros da cidade não erradicaram o tráfico desses locais, mas devastaram as vendas dos pontos de varejo nessas áreas. O que antes era feito à céu aberto, protegido por um verdadeiro exército, passou a ter o risco da presença policial constante.
Somente no Complexo do Alemão, o principal quartel-general de uma das facções criminosas, mais de 40 toneladas de drogas e uma centenas de armas foram apreendidas após a invasão policial-militar de domingo. Mesmo que o tráfico permaneça após a implantação de uma UPP no local, prevista para o primeiro semestre do ano que vem, é impossível imaginar que se volte a esses níveis.
Por enquanto os chefes do tráfico ainda têm outras comunidades sob seu domínio para se esconder, mas a promessa do governo é levar as UPPs para as centenas de favelas da capital até 2014. O tráfico já teria começado buscar novas formas de atuação.
"Tráfico tem em qualquer lugar do mundo, mas o tráfico em outros lugares não é armado, não anda pela rua com AR-15, não tem controle territorial, e extrai provavelmente lucros muitos maiores do que o tráfico extrai aqui", avalia o sociólogo Ignácio Cano, coordenador de diversos estudos sobre a violência no Rio.
Novo mercado
Um estudo da Secretaria de Fazenda do Rio elaborado em 2008 revela que os custos das quadrilhas da cidade para manter o antigo sistema de venda de drogas giravam em torno de 290 milhões de reais anuais --incluindo o pagamento a cerca de 16 mil funcionários e as perdas com apreensões de armas e drogas.

O lucro resultante das operações, considerando a menor estimativa de receita, "seria muito pouco para repartir para outros agentes que pudessem prover apoio mais amplo no asfalto e outras áreas de interesse para o desenvolvimento deste comércio", segundo os autores do estudo, Sergio Guimarães Ferreira e Luciana Velloso.
O novo mercado de drogas no Rio já começou a se desenhar com a chegada das primeiras UPPs, a partir de 2008, na zona sul da capital --a região mais rica e maior mercado consumidor.
Usuários de cocaína e maconha das classes média e alta, que tradicionalmente se deslocavam até as comunidades em busca dessas drogas, já passaram a recorrer a outras formas de comprá-las, incluindo um serviço de entrega. Além disso, há uma tendência cada vez maior nesse grupo de pessoas do uso de drogas sintéticas, que não são negociadas pelos grupos armados.
Por outro lado, as favelas tendem a se tornar locais de venda de crack, a droga mais consumida entre os mais pobres e que por muito tempo nem mesmo era negociada no Rio devido ao preço baixo e ao alto índice de morte entre os viciados.
Durante as ações da polícia no Alemão e na Vila Cruzeiro, favela vizinha tomada dias antes pelos policias, era possível ver dezenas de usuários de crack ao redor das comunidades.
"O que a gente tem hoje é uma reconfiguração do tráfico de drogas no Rio", diz João Trajano. "Esse modelo territorizalizado baseado no uso de armas e no controle desses território pobres tende a enfraquecer, como já está até ocorrendo."



Rota do tráfico muda para o Centro-Oeste

Autor(es): Edson Luiz
Correio Braziliense - 03/12/2010
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/12/3/rota-do-trafico-muda-para-o-centro-oeste

Operação da Polícia Federal prende 18 pessoas e comprova que estados próximos ao DF, como Goiás e Tocantins, se tornaram o principal caminho para a entrada de drogas no país


Uma nova ação da Polícia Federal, desencadeada ontem em seis estados, e que resultou em 18 prisões, está comprovando que o narcotráfico realmente vem mudando sua rota e se estabelecendo na Região Centro-Oeste. A Operação Cinco Estrelas desbaratou uma quadrilha que tinha como base os estados de Goiás e de Tocantins, para onde eram enviadas grandes quantidades de cocaína, que abastecia o Sudeste do país ou seguia para o exterior. Autoridades brasileiras avaliam que o tráfico pode aumentar na região, à medida que as rotas tradicionais estão mais fiscalizadas após a tomada do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
As investigações começaram há um ano, após a apreensão de 350 quilos de cocaína em Paraíso do Tocantins (TO). A partir daí, a Polícia Federal começou a localizar as ramificações da quadrilha, que levava a droga da Bolívia por Rondônia. O pó ficava armazenado em cidades tocantinenses e em Goiânia, onde ficava o elo principal do grupo. No Brasil, o entorpecente era preparado em quantias menores, que seriam vendidas em outros centros, como o Rio de Janeiro, onde a Operação Cinco Estrelas também realizou prisões no dia de ontem. Além disso, houve mais prisões em Palmas (TO), Rondônia, Pará, Mato Grosso e Goiás.

O tráfico era financiado por pessoas que moravam em Tocantins, que também forneciam a logística e os contatos para a quadrilha, além de auxiliar no transporte. Os núcleos de Goiás e de Rondônia eram responsáveis pelo fornecimento da cocaína e intermediavam as negociações dentro do território brasileiro. O pó chegava ao Centro-Oeste pelas estradas — por meio de caminhões de cargas — ou por aviões. No ano passado, a Força Aérea Brasileira (FAB) chegou a dar tiros de advertência em uma aeronave com a droga, que fez pouso forçado em Luziânia, com mais de 150 quilos de pasta-base.

Segundo as autoridades brasileiras, com o aumento da fiscalização nas principais rotas, a tendência é aumentar o chamado tráfico formiguinha. “A tendência dos traficantes é reduzir os volumes de droga, e tentar passar com pequenas quantidades”, acredita o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto. Ele destacou ainda que 11 regiões do país — que fazem divisas com outros países — estão com reforço policial para evitar a entrada de droga. “Também está havendo uma integração maior entre os estados com o mesmo fim.”



A conexão Alemão-Paraguai

Autor(es): Agencia o Globo/Sérgio Ramalho
O Globo - 06/12/2010
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/12/6/a-conexao-alemao-paraguai

Fornecedor de maconha do complexo domina 70% do plantio da droga no país vizinho



Se comparada a uma partida de xadrez, a ocupação dos complexos do Alemão e da Vila Cruzeiro deixou em xeque a maior facção criminosa do Rio. Porém, o movimento que pode levar a um xeque-mate depende do governo federal e deve ser feito a 1.614 quilômetros do estado, na fronteira com o Paraguai. No país vizinho, um consórcio de traficantes cariocas e paulistas domina 70% das áreas de plantio de maconha em Capitán Bado e Pedro Juan Caballero, cidades na fronteira com o Mato Grosso do Sul. Um negócio milionário que tem à frente o traficante Marcelo da Silva Leandro, o Marcelinho Niterói.



O domínio das áreas de plantio garante lucros astronômicos às duas facções criminosas. Para se ter uma ideia das cifras, um quilo da droga no Paraguai é comprado por valores que variam de R$15 a R$30. Vale lembrar que R$1 equivale a 2.700 guaranis, a moeda paraguaia. No Rio, o quilo da droga varia entre R$1 mil e R$1,5 mil, garantindo uma margem de lucro superior a 3.000%. A promotora Jiskia Trentin, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Mato Grosso do Sul, estima em US$20 milhões (R$34 milhões) as cifras movimentadas mensalmente pelo tráfico de maconha na fronteira.



As áreas de plantio da droga no país ocupam seis mil hectares, aproximadamente 64,8 mil metros quadrados ou seis mil campos de futebol. O número consta do relatório mundial sobre drogas 2010 da ONU e foi estimado em 2008 pela Secretaría Nacional Antidrogas (Senad), do Paraguai. Juntas, as facções carioca e paulista dominam as regiões, onde estão concentrados 4,2 mil hectares - 48,6 mil metros quadrados - de terras usadas no cultivo da Cannabis sativa. A cidade paraguaia de Capitán Bado figura como o principal reduto do bando.



Beira-Mar: 3 mortes garantiram domínio



O domínio da região por traficantes brasileiros começou em 2001, após os assassinatos de Ramón e Mauro, filhos de João Morel, então considerado o rei da maconha. Investigações da Senad e de promotores da Fiscalía de Amambay - estado onde estão localizadas as cidades de Pedro Juan Caballero e Capitán Bado - apontam Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, como mandante dos crimes. No processo que tramita na Justiça paraguaia consta o áudio de uma entrevista na qual Beira-Mar assume a responsabilidade pelas mortes dos irmãos, em 13 de janeiro. Uma semana depois, João Morel foi encontrado morto a facadas em sua cela, no presídio de Campo Grande (MS).



A partir das execuções dos chefes da família Morel, a facção de Beira-Mar ampliou o domínio territorial de Capitán Bado a Pedro Juan Caballero. Investigações conjuntas da Polícia Federal e da Senad indicam que com a prisão de Beira-Mar, hoje na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), Marcelinho Niterói passou a comandar os "negócios" da quadrilha na fronteira. Dados da PF mostram que 80% da maconha apreendida do Rio têm como procedência o Paraguai. Os demais 20% saem de plantações na Bolívia, país que apresentou aumento nas áreas de cultivo da droga, segundo relatório da ONU.



Aliado antigo de Beira-Mar, que o trata como "filho louro", Marcelinho Niterói é de uma família de classe média de Icaraí. Além do plantio, ele também coordena as rotas de transporte da droga para abastecer os pontos de venda da facção no Rio. Do Paraguai, a droga segue em caminhões atravessando o Mato Grosso do Sul e cidades do interior de São Paulo, de onde é enviada ao Rio. O mesmo acontece com a cocaína, que tem a Colômbia como procedência. Marcelinho Niterói está por trás da transformação do Complexo do Alemão em principal entreposto de distribuição de drogas da facção. Prova disso são as 36 toneladas de maconha encontradas na comunidade durante a ocupação.



A decisão de fazer do Complexo do Alemão um centro de distribuição de drogas foi tomada a partir do avanço das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A estratégia foi detectada pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio como maneira de a quadrilha tentar evitar prejuízos com apreensões de carregamentos nessas áreas. A partir da iniciativa, as drogas vendidas nas localidades de UPPs eram embaladas no Alemão e levadas por idosas, crianças e mulheres grávidas, como acontecia na Cidade de Deus. A implantação das UPPs resultou na perda de domínio territorial em comunidades nas zonas Sul e Norte, onde a facção de Marcelinho Niterói arrecadava grandes somas com a venda de drogas.



O domínio exercido pelo consórcio das facções carioca e paulista nas zonas de plantio de maconha acontece de três formas, segundo dados da Senad e da Polícia Federal. Na mais comum, os traficantes brasileiros distribuem sementes entre pequenos e médios produtores rurais paraguaios, que plantam a maconha associada a culturas como milho e soja. Na época da colheita, geralmente a cada quatro meses, eles recolhem o produto pagando valores muito inferiores aos de revenda no Rio.



Há casos ainda de brasileiros que arrendam ou mesmo compram fazendas para o cultivo da droga no país vizinho. Essa participação direta foi revelada em investigações da PF em Ponta Porã, cidade brasileira que faz fronteira com Pedro Juan Caballero. O levantamento resultou num processo no qual o juiz Odilon de Oliveira, da 3ª Vara Federal de Campo Grande (MS), determinou ano passado o sequestro de 32 fazendas no país vizinho, o que ainda não foi executado. Dessas, 19 estão em nome do brasileiro Luiz Carlos da Rocha, que também mantinha ligações com Beira-Mar. As outras 13 propriedades figuram em nome de Odacir Antônio Dameto, que já foi conhecido como rei da soja no Paraguai.



Para o juiz federal Odilon de Oliveira, não há dúvidas de que traficantes brasileiros passaram a dominar a maior parte da produção de maconha no Paraguai. O juiz - alvo de várias ameaças de morte de narcotraficantes - acredita que apenas com uma maior integração entre autoridades brasileiras e paraguaias o tráfico na fronteira será desarticulado:



- Atualmente, essa integração acontece apenas entre a Polícia Federal e a polícia paraguaia, que fazem operações conjuntas para erradicar plantações de maconha. Iniciativa que não basta para acabar com o poder dos narcotraficantes. É preciso haver maior integração entre os poderes Judiciário e Legislativo dos dois países.



Odilon acrescenta que o sequestro das 32 fazendas, usadas para o plantio da droga no Paraguai, não foi concretizado porque o governo paraguaio exige que os processos tenham sido julgados em todas as instâncias para, então, permitir o arresto dos bens. O juiz defende a aprovação de leis comuns entre os países do Mercosul para inibir a atuação dos narcotraficantes nas fronteiras.

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