Ao examinar a outorga do Nobel segundo a cidadania dos premiados, deparei-me com esse placar, que reafirma o atraso do País no plano científico e o não reconhecimento internacional de personalidades brasileiras em outras áreas cobertas pelo prêmio. Em ciências ele é outorgado em Física, Química e Fisiologia ou Medicina, e há também uma láurea para Economia. Além disso, há os prêmios de Literatura e Paz. Essa contagem pela cidadania envolve dificuldades, pois às vezes se confunde com avaliações que consideram o país de nascimento. Mas, mesmo contando dessa forma, os argentinos ganhariam de goleada. O que fazer? Em várias áreas o Brasil vem avançando na formação de doutores e de outros pesquisadores. Publicações de seus artigos em revistas científicas no País e no exterior também aumentaram em número. Mas sabe-se também que recursos para o dia a dia das pesquisas continuam escassos e há outras dificuldades, como as burocráticas na importação de insumos indispensáveis ao trabalho em laboratórios. Como outros, nós, economistas, temos um olhar focado em processos e resultados. Mais que muitos, entretanto, acreditamos que estímulos econômicos favorecem o alcance de resultados, até porque contribuem para acelerar processos. Esses estímulos podem ser em dinheiro ou em outros valores atribuídos a esforços realizados e ao reconhecimento deles. Nessa linha, pode-se constatar que a premiação em dinheiro para avanços científicos e tecnológicos tem tradição secular e vem se acelerando nos últimos anos. Assim, a edição de 7/8 da revista The Economist destaca que os resultados de prêmios dessa natureza são avaliados como satisfatórios. A reportagem mostra que a sua concessão vem crescendo internacionalmente. O número dos que têm valor de US$ 100 mil ou mais aumentou de cerca de 50 em 1995 para perto de 300 em 2009. A mesma revista menciona estudos que encontraram relações entre as pesquisas premiadas e patentes subsequentes. A propósito, vale registrar que recentemente o professor José Goldemberg, conhecido cientista brasileiro, recebeu a edição de 2010 do Prêmio Ernesto Illy Trieste de Ciência, no valor de US$ 100 mil, outorgado a eminentes cientistas de países emergentes por significativas contribuições à ciência e a desenvolvimentos nela baseados. Soube da notícia num encontro casual com o próprio premiado, que, aliás, com razão, demonstrava evidente satisfação por ter sido contemplado. Baseado em considerações como essas e outras resultantes de discussões no âmbito da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o senador Alfredo Cotait (DEM-SP), que recentemente assumiu a cadeira do senador Romeu Tuma (PTB-SP), apresentou no Senado projeto de lei que cria o Prêmio César Lattes, assim proposto: "Ao cidadão brasileiro que, por atividades realizadas individualmente ou em instituições localizadas no Brasil, inclusive empresas, receber o prêmio ou láurea internacionalmente conhecidos como Nobel, o governo federal brasileiro lhe outorgará também o Prêmio César Lattes, de valor em reais equivalente ao recebido em coroas suecas." Com a "guerra cambial" que valorizou essa moeda, hoje o Prêmio Nobel envolve cifra perto de US$ 1,5 milhão. O mesmo projeto propõe também o Prêmio Santos Dumont, "a ser conferido em cinco categorias, à razão de um em cada caso, a cidadãos brasileiros que trabalhando individualmente ou em instituições localizadas no Brasil, inclusive empresas, criarem inovações capazes de resolver determinados problemas cuja solução seja de interesse nacional e gere benefícios para a população e/ou para as atividades econômicas brasileiras". Quanto ao mesmo prêmio, o projeto estabelece que "o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) definirá os primeiros cinco problemas para cuja solução será oferecido o prêmio", e que "vigorará o prazo de três anos para que os candidatos apresentem suas propostas de solução e o prêmio seja outorgado. Caso a premiação ocorra ou esse prazo se esgote sem que o prêmio seja conferido, um novo problema com igual prazo será proposto em substituição. As soluções serão avaliadas não apenas pela suas características científicas e tecnológicas, como também pela viabilidade de sua aplicação prática com ênfase na relação entre seus custos e benefícios". O valor do prêmio seria de R$ 1 milhão em cada categoria. Como exemplo de um problema cuja solução poderia ser estimulada por esse prêmio, a exposição de motivos do projeto menciona uma vacina contra a malária e/ou a criação de novos medicamentos contra essa doença, que minimizem ou eliminem os maus efeitos colaterais dos já existentes. A íntegra do projeto pode ser encontrada em www.se nado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=98439. A denominação dos prêmios homenageia o físico César Lattes, considerado o mais importante da história do País e o cientista brasileiro que mais perto esteve da premiação do Nobel, de Física. E Santos Dumont, pela sua engenhosidade como pioneiro da aviação. Espero que o projeto seja aprovado no Congresso e sancionado pela futura presidente Dilma, que por outros engenhos e artes vai receber o prêmio Lula na solenidade de sua posse. Evidentemente, não cabe esperar que os prêmios propostos sejam capazes de resolver as grandes carências brasileiras em avanços científicos e tecnológicos. Mas, inegavelmente, poderão contribuir para as pôr em discussão e para agilizar processos e resultados. E, ainda, para estimular pessoas e equipes a se empenharem com maior vigor nesse outro jogo que disputamos com outros povos, o de "bolar" significativos avanços dessa natureza em benefício da humanidade, e ter seu mérito reconhecido sobretudo no seu próprio país.
'Science' aplaude ciência brasileira [Os ingleses viram]
| Autor(es): Agencia o Globo/Renato Grandelle |
| O Globo - 03/12/2010 |
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/12/3/science-aplaude-ciencia-brasileira
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Crescimento das pesquisas nacionais é tema de reportagem da revista
O bom momento brasileiro, tema de muitas reportagens na imprensa estrangeira, chegou à "Science". A revista dedica sete páginas de sua edição de hoje às transformações da pesquisa científica no país na última década. Mas, além da multiplicação de recursos e de artigos acadêmicos publicados, o repórter Antonio Regalado também destaca pontos fracos, como a carência de mão-de-obra qualificada.
Entre 1997 e 2007, de acordo com a revista, o número de estudos publicados por pesquisadores brasileiros mais do que dobrou. Agora, são cerca de 19 mil, o que põe o país na 13ª posição entre os que mais produzem descobertas, à frente de Holanda, Israel e Suíça.
Este ano, o país concedeu duas vezes mais títulos de dourado do que em 2001. Cerca de 130 instituições federais de pesquisa foram criadas desde então. A conquista de tantos novos postos de trabalho não surpreende quem acompanha o orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia. Dez anos atrás, a pasta contava com US$600 milhões em caixa. Hoje, são US$4 bilhões. Isso permitiu ao governo, por exemplo, restabelecer, em 2008, o seu programa nuclear, após duas décadas de marasmo.
"É a mudança na sorte de uma noção que, durante a década de 90, foi acossada por problemas econômicos", lembra a reportagem. "À época, os pesquisadores careciam de fundos; o Brasil chegou a ver sua bandeira ser removida do logotipo da Estação Espacial Internacional depois de não conseguir financiamento para a construção de seis componentes."
O reconhecimento internacional foi comemorado por Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
- Há uma correlação entre investimentos em ciência, tecnologia e inovação e o avanço no padrão de vida da sociedade - destaca. - O país está ciente disso, e, nos últimos 40 anos, formou uma equipe de cientistas muito forte. E o pré-sal será uma dádiva, porque multiplicará os recursos destinados às pesquisas, sobretudo aquelas ligadas ao meio ambiente.
Área biológica é mais carente de recursos
Para o presidente da ABC, a produção brasileira em matemática, física e engenharia já é semelhante à de países desenvolvidos. A área biológica, no entanto, ainda necessita de investimentos maciços em laboratórios, equipamentos e recursos humanos para tornar-se competitiva internacionalmente.
- Também temos um grande gargalo nas pesquisas promovidas por empresas - ressalta. - Embora haja projetos para estimular a produção científica nesse âmbito, muitas ainda preferem importar as novidades do exterior.
Outro calcanhar-de-aquiles, identificado pela "Science" e por Palis, é o baixo contingente de pesquisadores alocados na Amazônia - hoje, são apenas 300. Um estudo recente da ABC propõe ao governo oferecer salários maiores aos cientistas que moram na região.
Autoridades federais entrevistadas pela "Science" anunciaram sua pretensão de dobrar o volume atual de pesquisas até 2020, tornando o Brasil uma potência na área. Palis concorda com a meta, mas a condiciona à maior reserva de recursos ao Ministério de Ciência e Tecnologia.
- A pasta tem 1,1% do PIB à disposição. Precisamos de 2,2% - recomenda o pesquisador que reforçou a cobrança em uma nota divulgada ontem, em conjunto com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e destinada à equipe de transição do governo Dilma Rousseff. |
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