sábado, 14 de maio de 2011

Acabou a festa com os ativos de risco

Eduardo Campos
Valor Econômico - 13/05/2011
 

Estas duas primeiras semanas de maio deixam a impressão de um mercado que está em cima do muro, no balança mais não cai.
Períodos de grande volatilidade, com preços caindo forte, subindo forte e andando de lado, acompanhados de muitas e dispersas explicações, são sinal de que algo grande vai acontecer. Seja uma puxada de alta ou uma derrocada de ficar na memória. E pelo cenário que nos cerca, não dá para negar que a probabilidade maior é de uma derrocada.
Conforme notou o sócio da Teórica Investimentos, Rogério Freitas, este é um momento de inflexão, de transição de um cenário de tomada de risco (risk-on) para o desmanche de posições (risk-off). É nessa hora que os grandes investidores reavaliam apostas em commodities, moedas e ações, o que soma instabilidade ao mercado.
Para Freitas, esse momento é reflexo direto de um cenário mundial que está se tornando cada vez mais claro. O "trade-off" entre inflação e crescimento chegou no seu limite.
Desde a crise de 2008, os bancos centrais ao redor do mundo se inclinaram em prol do crescimento, deixando a inflação em segundo plano.
O modelo funcionou. Os Estados Unidos saíram da recessão, o medo de deflação foi debelado e um leve aumento dos preços chegou a ser comemorado nos países desenvolvidos.
Mas agora a inflação já está prejudicando o crescimento de longo prazo. Os preços mais elevados obrigam o "animal capitalista" a repensar suas decisões de investimento.
Freitas lembra que até o fim do ano passado a inflação de commodities (alimento e energia) não batia no que se conhece como núcleo da inflação. Salários e serviços não registravam pressão de alta. Mas o que vemos agora é justamente essa pressão em salário e serviços mais latente. "O BC teria de lutar contra isso, mas isso já aconteceu. Os BCs estão atrasados. Eles estão atrás da curva", diz o especialista.
E essa percepção de que os bancos centrais terão de correr para tirar o atraso em suas políticas é que causa esse aumento de volatilidade.
Segundo Freitas, o mais notável BC em "atraso" seria o Federal Reserve (Fed), banco central americano. Mas tão importante quanto o Fed para os assuntos domésticos, é o banco central da China. E o recado dado por Pequim é claro: a inflação é prioridade.
Tal percepção ganhou força com os eventos desta semana. O índice de preços ao consumidor chinês subiu 5,3% em abril. No dia seguinte à divulgação do dado, a autoridade monetária aumenta pela quinta vez no ano a taxa de depósito compulsório.
De acordo com Freitas, a probabilidade de nova alta de juros é grande na China. O que o BC chinês quer é a inflação de volta, seja ela cheia ou medida pelo núcleo. O núcleo dos preços ao consumidor chinês mostrou alta de 2,7% em abril, contra uma média de 1,3% entre 2005 e 2008, quando a economia crescia ainda mais do que o observado atualmente.
O perigo, diz Freitas, é a China apresentar ritmo de crescimento de 5% em um momento que o mundo parece comprado em commodities e moedas relacionadas (real, dólar canadense, peso chileno, rand sul-africano). Para os padrões chineses, 5% de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) é um "pouso brusco da economia".
Junto com tudo isso discutido acima, temos o fim do "Quantitative Easing 2" nos EUA. Os últimos US$ 90 bilhões do Fed entram em circulação no mês que vem, encerrando o programa de compra de títulos do Tesouro, de US$ 600 bilhões.
"O mercado surfou essa grande onda de tomada de risco e isso está chegando ao fim. Está difícil para os agentes se situarem. Estruturalmente isso deve continuar e a probabilidade de cair mais é maior do que subir muito", resume Freitas, lembrando que o movimento de ajuste já começou, só que não acontece em uma linha reta.
Fica a dúvida sobre a capacidade de o mercado conseguir realizar uma desalavancagem ordenada das posições em risco, sem gerar episódios de pânicos (a porta sempre é pequena), que podem, eventualmente, se transformar em "crash" para alguns participantes, quando não para o mercado inteiro. Em linguagem de mesa de operação: "a festa acabou".
No pregão de quinta-feira, o dólar comercial começou o dia em alta, fez máxima a R$ 1,631, caiu a R$ 1,616, mas fechou a jornada no meio do caminho, a R$ 1,623, leve alta de 0,18%.
Na semana, o ganho acumulado é de 0,37%. E no mês a valorização é de 3,18%.
Também abaixo, o gráfico do VIX, que mede a volatilidade das opções no mercado americano, e é visto com um termômetro do medo do mercado. O indicador ajuda a ilustrar a volatilidade do ambiente de negócios neste começo de mês.

Nenhum comentário:

Postar um comentário