sábado, 14 de maio de 2011

Produção industrial cresce mais que vendas do comércio no período

Autor(es): Sergio Lamucci | De São Paulo
Valor Econômico - 13/05/2011
 

Descompasso entre indústria e varejo diminui no 1º trimestre

 
O descompasso entre a indústria e o comércio diminuiu no primeiro trimestre de 2011. De janeiro a março, a produção da indústria de transformação aumentou 2% em relação ao último trimestre de 2010, feito o ajuste sazonal, enquanto o volume de vendas no varejo ampliado (que inclui veículos e autopeças e material de construção) subiu 0,8% na mesma comparação, mostram números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em grande parte de 2009 e 2010, o varejo andou em geral bem à frente da indústria, com os importados ganhando terreno no abastecimento do consumo. Já no primeiro trimestre, ao mesmo tempo em que a produção local cresceu, houve queda no volume importado, que recuou 0,6% em relação ao quarto trimestre de 2010, na série com ajuste sazonal calculada pela LCA Consultores. A indústria nacional, desse modo, conquistou algum espaço no período em relação aos bens estrangeiros - a participação dos importados no consumo interno de produtos industriais recuou de 20,2% no quarto trimestre de 2010 para 19,7% no primeiro trimestre deste ano, também segundo a LCA.
Para analistas, contudo, o crescimento mais forte da indústria que o do varejo não deve se consolidar como tendência no resto do ano. O resultado do primeiro trimestre se explicaria em parte pela base de comparação, diz o economista Fabio Silveira, sócio da RC Consultores. Enquanto a indústria ficou praticamente estagnada de abril a dezembro, o comércio cresceu com força ao longo de 2010. No quarto trimestre do ano passado, por exemplo, a indústria de transformação aumentou apenas 0,1% sobre o terceiro, enquanto o varejo ampliado avançou 3%, nos dois casos na série livre de influências sazonais. "O comportamento do primeiro trimestre da indústria e do varejo parece algo transitório", afirma Silveira, que projeta expansão de 3,5% para a produção industrial em 2011 e cerca de 7% para as vendas no varejo.
Para ele, o problema para a indústria é que as importações tendem a continuar a crescer com força, ao mesmo tempo em que as perspectivas para as exportações não são animadoras, num quadro de câmbio valorizado. O panorama para o varejo, por sua vez, é bem mais promissor, como também ressalta o economista Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria. O mercado de trabalho segue bastante aquecido, com a taxa de desemprego nas mínimas históricas e uma falta de mão de obra qualificada em muitos setores, combinação favorável a aumentos de salários expressivos.
O economista Douglas Uemura, da LCA, também vê como um fenômeno passageiro o desempenho da indústria superior ao do comércio. Ele observa que o resultado do varejo ampliado no primeiro trimestre foi puxado para baixo pelo setor de veículos e motos, partes e peças, que recuou 3,6% sobre o quarto trimestre de 2010. Para Uemura, as chamadas medidas macroprudenciais, que restringem o crédito, tiveram algum impacto nesse movimento, também influenciado pela elevada base de comparação - entre outubro e novembro, as vendas de veículos e autopeças haviam crescido 11,8% sobre os três meses anteriores.
Em março, porém, o segmento se recuperou, avançando 3,8% sobre fevereiro, feito o ajuste sazonal. Essa alta foi importante para impulsionar o crescimento do volume de vendas do varejo ampliado, que cresceu 1,7% em relação a fevereiro. Já o varejo restrito teve alta um pouco mais modesta, de 1,2%.
Bacciotti vê um crescimento de 6,5% para o varejo restrito em 2011 e uma alta um pouco mais modesta para o ampliado, por conta das medidas de restrição ao crédito adotadas pelo governo, que tendem a afetar as vendas de veículos.
O maior dinamismo da indústria no primeiro trimestre se concentrou nos bens duráveis (como automóveis e eletroeletrônicos) e nos bens de capital. As perspectivas ainda positivas para o investimento explicam o crescimento forte de bens de capital, diz Bacciotti. Para ele, porém, também parece pouco provável que essa tendência se mantenha, dada a forte concorrência de importações.
Um número que evidencia a diferença de dinamismo entre o comércio varejista e a indústria é a comparação do nível de março de 2011 com o de setembro de 2008, no pré-crise. As vendas no varejo ampliado aumentaram 20% no período, enquanto a produção da indústria de transformação se encontra apenas 1,5% acima do patamar atingido no pré-crise.

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