segunda-feira, 11 de julho de 2011

Preço alto acelera venda da safra que nem foi plantada

Autor(es): Márcia De Chiara
O Estado de S. Paulo - 10/07/2011
 

Cerca de 10% da soja que será semeada em setembro já está comercializada; no caso do algodão, índice de venda chega a 30%

Os preços excepcionais da soja e do algodão provocaram uma corrida dos produtores para venda antecipada da safra a exportadores em volumes acima do normal. Além de se proteger da alta de custos, como o adubo que subiu cerca de 30% em dólar em 12 meses, agricultores querem aproveitar o bom momento das commodities. Esse movimento é favorável à balança comercial e indica que o agronegócio vai sustentar as contas externas.
No Mato Grosso, por exemplo, que responde por 30% da safra nacional de soja, 20,8% da produção que começa a ser semeada só em setembro já estava vendida no fim do mês passado, aponta um levantamento do Instituto Mato Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Em junho de 2010, o índice de venda antecipada estava em 15,6%.
"Esse é o maior índice de venda antecipada de soja dos últimos cinco anos", afirma o presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja), Glauber Silveira.
A venda antecipada para as tradings de um produto que sequer foi plantado normalmente está atrelada a compra de insumos e não envolve desembolso em dinheiro. Esse movimento se intensifica quando o mercado internacional é comprador, porque a transação está relacionada a outro negócio no exterior.
No Centro-sul do País, o índice de venda antecipada da soja da safra 2011/2012 até o momento é de 10%, aponta outro levantamento da consultoria Safras & Mercado. É mais que o dobro do registrado em igual período de 2010 (4,6%), diz Paulo Roberto Molinari, analista.
No caso do algodão, os níveis de venda futura também são elevados. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), cerca de 20% da produção futura da fibra 2011/2012 está vendida até agora. Dados da Safras&Mercado indicam uma fatia maior comercializada, de 30%. "O volume é bem acima do que havia sido vendido em igual período de 2010", afirma Élcio Bento, analista da consultoria. Ele conta que a grande novidade é que foi comercializada até uma pequena parcela da safra de algodão a ser colhida dentro de dois anos, em 2013.
Troca. O motivo de tanta antecipação é que os preços dos produtos agrícolas estão nas alturas e a relação de troca com os insumos está favorável ao agricultor.
No caso da soja, o preço do primeiro semestre variou entre US$ 13 e US$ 14 o bushel, o que equivale a R$ 53 a saca do grão no porto de Paranaguá (PR). No ano passado, o preço estava US$ 8 por bushel ou R$ 40 a saca.
Molinari diz que hoje são necessárias 25 sacas de soja de 60 quilos para comprar 1 tonelada de fertilizante. Em 2010, o custo da mesma tonelada de adubo correspondia a 40 sacas de soja.
Mais capitalizados, em razão dos ganhos de receita acumulados nas últimas safras, o produtor também passou a investir mais nas lavouras. "Os agricultores estão neste ano a procura de sementes de melhor qualidade e as compras estão mais adiantadas em relação às do ano passado", diz o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes, Narciso Barison, fazendo referência às vendas de sementes de soja, milho e algodão.
Essa também é a avaliação dos fabricantes de defensivos agrícolas. Eduardo Daher, diretor executivo da Andef, conta que as vendas de produtos de janeiro a maio deste ano estão 7% maiores em relação a igual período de 2010. Parte desse acréscimo se deve à antecipação de compra de defensivos pelos produtos que, mais capitalizados, estão optando por produtos sofisticados. "Com mais renda, os produtores procuram defensivos específicos e evitam os genéricos", diz o executivo. A expectativa do setor é ampliar em 10% o faturamento em 2011 ante 2010. Com isso, os fabricantes de defensivos poderão alcançar em 2011 uma das com maiores taxas de crescimento de receita dos últimos anos.
Otávio Celidônio, superintendente do Imea, observa que neste ano é significativa a parcela das compras de fertilizantes que foram quitadas à vista, o que mostra a capitalização do produtor. Segundo as estatísticas disponíveis para o Estado de Mato Grosso, de 100% dos fertilizantes vendidos até maio, 44% foram pagos à vista. No caso dos defensivos, essa fatia é de 38%.
Além de comprar insumos de melhor qualidade e pagar à vista, com dinheiro no bolso, os produtores do Mato Grosso quitaram parte das dívidas. Segundo Silveira, da Aprosoja, o endividamento dos produtores do Estado, que quatro anos atrás era de R$ 10 bilhões, hoje está em R$ 7,8 bilhões.

Saldo comercial do agronegócio pode atingir US$ 68 bi

Autor(es): Márcia De Chiara
O Estado de S. Paulo - 10/07/2011
 

Mais um vez, o desempenho do agronegócio vai sustentar a balança comercial brasileira neste ano. Projeções da RC Consultores mostram que o saldo comercial obtido com produtos agropecuários deve atingir neste ano US$ 67,9 bilhões, com exportações de US$ 78,5 bilhões e importações de US$ 10,6 bilhões.
O saldo comercial do agronegócio, segundo a consultoria, deve crescer 21,3% em relação ao de 2010. "Sem a contribuição do agronegócio, a balança comercial do País teria um déficit de US$ 40 bilhões em 2011", observa o sócio da consultoria e economista responsável pelas projeções, Fabio Silveira. Nesse setor, ele destaca o desempenho do produtos que integram o complexo soja, carnes, café e açúcar.
Para 2011, Silveira calcula que o saldo balança comercial total do País atinja US$ 28 bilhões, com um acréscimo de US$ 7,7 bilhões em relação a 2010.
O bom desempenho das exportações previsto para agronegócio é sustentado pelos estoques ajustados dos produtos agrícolas no mercado internacional.
"Não há escassez exagerada nem grandes sobras de produtos", observa o economista.
Glauber Silveira, presidente da Associação do Produtores de Soja (Aprosoja), diz que a tendência para os próximos meses é que a demanda supere a oferta de soja. "Os estoques mundiais do grão estão apertados e há dúvidas sobre o desempenho da safra dos Estados Unidos, que foi afetada pelas enchentes na época do plantio."
Além disso, o presidente da Aprosoja ressalta que a China ampliou as compras do grão em 4%. "A China vai importar 60 milhões toneladas de soja na safra 2011/2012. É o equivalente ao volume produzido pelo Brasil numa safra", diz ele.
Na análise de Silveira, da RC Consultores, além dos fatores estruturais de mercado que dão firmeza às cotações das commodities, ele destaca o grande volume de dinheiro em circulação no mundo, especialmente após o socorro dado à Grécia, Portugal e Espanha para a reestruturação de dívidas. Com mais recursos no mercado, o economista acredita que uma parcela do dinheiro migre para aplicações em fundos de commodities, alimentando ainda mais os preços.

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