quarta-feira, 18 de maio de 2011

Preço agrícola recua, mas IPA industrial ainda sobe

Autor(es): Arícia Martins | De São Paulo
Valor Econômico - 17/05/2011
 

O Índice Geral de Preços (IGP-10), calculado pela Fundação Getúlio Vargas, ficou praticamente estável entre abril e maio - passou de 0,56% para 0,55% entre os dois meses. O recuo, mesmo pequeno, foi o terceiro consecutivo do indicador. Já o Índice de Preços ao Consumidor (IPC-10), que compõem o índice, teve a maior alta mensal desde maio de 2003, indo de 0,77% em abril para 0,98% em maio.
A deflação nos produtos agropecuários que compõem o Índice de Produção ao Produtor Amplo (IPA) acabou pesando mais do que a aceleração dos produtos industriais na composição do IGP deste mês. Enquanto o primeiro grupo registrou queda de 1,2% em seus preços no atacado entre abril e maio, a taxa do segundo grupo praticamente dobrou, passando de 0,42% em abril para 0,81% no mesmo período. Para economistas, os dois movimentos devem demorar para refletir no IPC, já que sempre há defasagem no repasse de preços ao consumidor.
Segundo José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, a combinação da queda no preço das commodities agrícolas nas últimas três semanas e do efeito sazonal doméstico puxou a deflação nos produtos agropecuários do IPA. "Isso é uma boa notícia, pois confirma a visão do Banco Central de que a piora na inflação em parte vai ser compensada pelo efeito sazonal", avalia.
A aceleração no IPA industrial, em contrapartida, preocupa alguns analistas. Para André Perfeito, da Gradual Investimentos, esse movimento foi impulsionado principalmente pelo aumento do custo da mão de obra industrial e pela demanda interna, que continua forte. "Nesse cenário, o empresário se sente à vontade para repassar a alta dos preços ao consumidor, já que ele tem demanda", diz.
O item que mais pesou na alta de itens industriais no atacado foi o minério de ferro, que subiu 6,53% sobre abril e puxou a aceleração do item produtos de metal, explica Fábio Romão, da LCA Consultores. "O próprio anúncio de uma temporada de alta de minério de ferro acaba antecipando a alta dos produtos de metal, dos quais o minério é insumo".
Além desse item, também registraram aumento no atacado os grupos couro e calçados e vestuário - explicados pelo efeito sazonal da troca de coleção e pelo preço do algodão, que se manteve em patamar elevado no fim de 2010 - e o grupo artigos de borracha e de material plástico. Segundo Gonçalves, do Fator, a aceleração no último item ocorreu porque a nafta, derivado do petróleo utilizado como matéria-prima no setor petroquímico, subiu com o aumento do petróleo no mercado mundial. "Já que não temos capacidade suficiente de tirar nafta do petróleo na quantidade exigida [pela demanda], se o petróleo lá fora sobe, a nafta sobe e isso afeta o setor de plástico, onde a nafta é insumo".
O reflexo desses movimentos nos IPCs, no entanto, deve demorar a acontecer, acreditam economistas. "O algodão como grão caiu há alguns meses, o algodão insumo caiu na atual leitura do IPA; essa queda deve chegar nas roupas em setembro", avalia Gonçalves.
Sobre a deflação nos produtos agrícolas, Romão, da LCA, prevê que os IPCs não captem essa tendência. "O que deve acontecer é uma alta menos intensa a partir do fim de maio, não deflação", prevê.

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