domingo, 15 de maio de 2011

China teme inflação, mas políticas oficiais pressionam os preços

Autor(es): Jamil Anderlini | Financial Times, em Pequim
Valor Econômico - 12/05/2011
 

O vice-primeiro-ministro da China, Wang Qishan, tornou-se, nesta semana, o mais recente alto funcionário a definir o combate à inflação como a tarefa mais importante do governo neste ano.
"O problema mais urgente que enfrentamos agora é o problema da inflação", disse Wang na segunda-feira. "Para isso, temos de empregar política monetária, política fiscal e, ao mesmo tempo, reestruturação econômica", disse ele.
Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês, usou termos mais pitorescos, recentemente, ao descrever a inflação como um tigre que, após sair de sua jaula, é quase impossível ser posto de volta.
Mas as medidas de política econômica e monetária tomadas por Pequim para conter a alta dos preços não refletem o tipo de embate de vida ou morte sugerido pelos comentários de líderes no país.
Por um lado, Pequim está incentivando aumentos salariais da ordem de dois dígitos - de até 40% ao ano em algumas regiões -, como forma de reduzir os desníveis de riqueza no país e distanciando a China de sua excessiva dependência de suas indústrias intensivas em mão de obra barata.
O governo também autorizou nos últimos meses vários aumentos nos preços de energia, que são rigidamente controlados e repercutem diretamente no aumento dos preços da maioria dos outros itens de consumo.
De acordo com dados oficiais divulgados ontem, a inflação anual nos preços ao consumidor em abril foi de 5,3%, uma ligeira desaceleração ante a alta de 5,4% de março, a maior em quase três anos. Economistas esperavam um aumento menor no mês passado.
Muitos analistas dizem que as medidas do governo para conter a alta dos preços ainda não tiveram grande impacto. Há uma série de razões pelas quais as ações de Pequim são muito menos enfáticas do que a retórica de altos funcionários poderia sugerir.
Em primeiro lugar, os analistas dizem não existir um verdadeiro consenso - entre os vários departamentos governamentais responsáveis pela política econômica - sobre as causas da inflação no país. Um exemplo: o banco central e a agência reguladora dos setor bancário dizem que a inflação é resultado direto do enorme excesso de liquidez criado pelo pacote de estímulo ao crédito. O pacote, lançado depois da crise financeira, tem sido descrito por alguns economistas como a maior flexibilização financeira e monetária na história.
Outras agências governamentais, como a poderosa Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR), defendem que a inflação é resultado de gargalos dos transportes e da infraestrutura, bem como de manipulação e especulação de preços.
Até recentemente, muitas autoridades chinesas também responsabilizavam a política monetária frouxa nos EUA e em outros países, e argumentavam que a maior parte da inflação é importada.
Sem um consenso claro sobre as causas ou sobre a gravidade do problema, os líderes chineses estão experimentando uma ampla gama de iniciativas de políticas sem que se comprometam inteiramente com nenhuma delas.
Embora Pequim esteja reduzindo a disponibilidade de crédito, principalmente por meio de ordens aos bancos chineses para que retardem empréstimos, há uma preocupação com a possibilidade de que as medidas esfriem muito o crescimento da economia.
"Retrospectivamente, pode-se afirmar que as autoridades chinesas impuseram um aperto excessivo, em 2008, pouco antes de o mundo ter desmoronado", disse Stephen Green, economista do Standard Chartered. Naquele ano, a inflação bateu os 8%.
"As autoridades estão claramente apertando a política monetária, mas o crescimento mundial já está desacelerando e há muita tensão entre os que argumentam não ser agora o momento para agir excessivamente e aqueles que querem agir mais agressivamente no combate à inflação", diz Green.
Desde outubro passado, o banco central elevou as taxas de juros quatro vezes e por oito vezes ampliou a proporção dos depósitos que os bancos devem manter em suas reservas. Mas a média ponderada anual dos juros sobre empréstimos oferecidos pelos bancos chineses no fim de março foi 6,91%, bem abaixo do 8,72% no fim de março de 2008, segundo o Standard Chartered, indicando que as condições monetárias continuam bem mais flexíveis do que durante a última grave onda inflacionária.
Naquele momento, no fim de 2007 e começo de 2008, Pequim introduziu um rigoroso controle direto de preços sobre um amplo leque de produtos. Agora, está confiando mais em persuasão moral e táticas de intimidação para impedir aumentos nos preços de bens de consumo essenciais.
Na sexta-feira, o CNDR multou a Unilever em 2 milhões de iuans (US$ 308 mil) por sugerir à mídia chinesa que poderia elevar os preços de detergentes e sabões. O órgão disse que a gigante anglo-holandesa de produtos ao consumidor havia "intensificado as expectativas de inflação entre os consumidores" e "perturbado gravemente a ordem do mercado".
Para analistas, a multa foi um exemplo para as empresas. Eles avaliam ser mais provável que o governo empregue esse tipo de tática do que um controle direto de preços, especialmente considerando as crescentes evidências de que a economia está esfriando.
Em abril, a produção industrial cresceu 13,4% menos do que o esperado e menos que os 14,8% de março. Os gastos com o varejo estão crescendo ao menor ritmo dos últimos seis anos, segundo estimativas da Capital Economics.
"A China está entrando numa fase difícil, agora que a inflação permanecerá acima de 5% nos próximos meses, mas que o crescimento continuará em desaceleração", disse Green. "A questão é qual será o ritmo da desaceleração".

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